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Entrevistas de música brasileira

Sivuca

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Sivuca

parte 9/19

"Vou levar seu guitarrista comigo", disse Belafonte

Tacioli – Sivuca, como apareceu a oportunidade de trabalhar com a Miriam Makeba?
Sivuca – Miriam Makeba foi em 1965, no final do ano. Ela precisava de um violonista, um contrabaixista e um percussionista. Aí eu fui lá fazer um teste de violão na mão. Quando me mostravam como era o ritmo que ela cantava, era a mesma coisa que um ritmo nordestino, que nós chamamos de balaio. Fui tocar o balaio pra ela cantando. Ela olhou pra mim… A filha dela falava francês e eu não falava nada de inglês. Nessa altura eu já falava francês. “Sivuca, minha mãe quer saber onde é que o senhor aprendeu o ritmo sul-africano tão bem?” Eu disse: “Diga a ela que foi por assimilação. Estou fazendo um ritmo nordestino chamado balaio que é igual ao que ela chama de upacanga, da África do Sul”. Aí fui logo contratado por ela.
Almeida – Mas quem te recomendou?
Sivuca – Foi um contrabaixista americano chamado Don Payne, que disse ao marido da Miriam: “Ó, vou recomendar uma pessoa, que pra mim é a pessoa certa para trabalhar com a Miriam”. Aí ele me recomendou e eu fui lá. Mas aí essa audição que começou às três da tarde, terminou às duas da manhã com todo mundo de fogo. Miriam era muito amiga de Jorge Ben, Jorge Benjor, e começou a cantar “Mas que nada” e eu comecei a acompanhá-la. Ela vibrou! Aí fiquei quatro anos e meio trabalhando com a Miriam.

Tacioli – E como foi esse tempo trabalhando com ela?
Sivuca – Maravilhoso. Além de ter sido bom porque me tirou da crise em Nova York, foi bom como relacionamento. Ela é um ser humano maravilhoso e o grupo virou uma grande família. Eu me lembro que nós estávamos na Suécia trabalhando, fazendo um show, quando o Harry Belafonte [n.e. Cantor, compositor e ator norte-americano famoso por gravar músicas em ritmos caribenhos] foi nos assistir. Aí o Harry olhou pra mim e disse: “Miriam, eu vou roubar esse seu guitarrista pra mim”. Aí a Miriam disse: “Não, faça isso, não”. “Você vai ver.” No outro ano ele convidou a Miriam para participar de um show dele. Aí, em 1969, a Miriam foi para a Cuba e me convidou, mas aí eu não podia ir para Cuba, porque em 69, se eu fosse pra Cuba, eu não poderia entrar de volta nos Estados Unidos. E se voltasse ao Brasil, seria preso. “Não, espera aí, ideologia é uma coisa, prática é outra. Eu estou morando nos Estados Unidos, já tenho um certo prestígio aqui como profissional”. Já era conhecido como arranjador e tudo, já tinha participado de alguns bons discos. Aí eu disse: “Miriam, infelizmente eu não posso ir pra Cuba.” “Não tem nada, não, brother, eu entendo perfeitamente, mas eu vou porque não posso mais ficar aqui.” Ela havia se casado com Stokely Carmichael, do Poder Negro, e no dia em que ela anunciou o noivado, o Sindicato das Estações de Rádio e Televisão deu uma declaração proibindo a apresentação ou o tocar discos de Miriam Makeba. Foi proibido em todo o Estados Unidos. Quer dizer, foi a pior censura que um artista poderia receber num país civilizado, que era a proibição de seu produto. Como ela não tinha mais o que fazer nos Estados Unidos, foi para Cuba, para África, e eu fiquei nos Estados Unidos trabalhando com o Belafonte.
Tacioli – Sempre como guitarrista?
Sivuca – Guitarrista. O acordeão sempre au passant. Mas quando eu tocava, eu me lembro que fiz um documentário pra NBC… O dia em que esse documentário foi ao ar, Miles Davis assistiu e mandou um telegrama pra mim, com os seguintes termos: “Mister Sivuca” – vou traduzir logo – “finalmente encontrei alguém que me fizesse fazer as pazes com esse maldito instrumento que se chama acordeão”. Assinado Miles Davis.

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