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Entrevistas de música brasileira

Sérgio Ricardo

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Sérgio Ricardo

parte 8/12

(O João Gilberto) virou meu irmão

Tacioli – E como era o João (Gilberto) nessa época?
Sérgio Ricardo – O mesmo que é hoje, impressionante! É mesmo, mesmo em talento, a mesma coisa, não saiu disso, ele ficou nessa coisa, evoluiu um pouco mais a musicalidade, mas era exatamente isso, tocava um violão estupidamente bom, uma coisa absurda, embora seja simples, só fazendo “tim tim tim tim tim”, mas o “tim tim tim tim” que ele faz, sai de baixo…
Tacioli – E o que é verdade e o que é mentira sobre João Gilberto? O que você pode falar e o que você não pode?
Sérgio Ricardo – É o seguinte: é uma coisa que eu nem sei sequer se ele faz muita questão, se ele fica muito raivoso com isso ou não, mas o fato é que se criou um mito em torno dele, tem muita piada e posso te garantir que 99% delas são mentiras. Dizer que gato se suicidou, essas loucuras. Pô! Ele chegou pra mim um dia: “Ouvi dizer que meu gato se suicidou, Sérgio! Puta que o pariu, como é que pode? O gato tropeçou e caiu da janela”. Aí vem o Ronaldo Bôscoli e “O gato dele se suicidou!”. Piadas assim que faziam sobre ele são tudo mentira, tudo conversa fiada. Ele tem um temperamento realmente um pouco diferente dos outros, não é uma pessoa comum. Ele é um ser comum, mas não é uma pessoa igual a todos os outros, não, como nós somos, que noventa e tantos por cento de igualdade entre nós que nos junta, mas ele aqui já estaria falando de um outro jeito, tudo mansinho, [ imita ] “Mas você fica bem com a mão assim…”. Às vezes, você pensa até que tem um homossexualismo na coisa, mas não tem nada a ver com homossexualismo.
Dafne – É baiano.
Sérgio Ricardo – É baiano, aquela coisa meio baiana. Exatamente. Ele é uma figura ótima e tem uma inteligência estupenda. Ele lê Drummond, aqueles poemas intrincados, com uma clareza incrível e, pelo jeito que ele lê, você entende aquele poema dum jeito. É impressionante o alcance poético que ele tem é maravilhoso, uma compreensão e inteligência brilhantes.
Almeida – Como você o conheceu, Sérgio?
Sérgio Ricardo – O João Donato me apresentou antes da bossa nova, antes do disco, quando eu era pianista de boate.
Almeida – Quando ele cantava grosso ainda, não?
Sérgio Ricardo – É! Ele não canta fino, pô!, deixa de sacanagem! [ risos ]
Almeida – Não, mas ele cantava com um vozeirão, né?
Tacioli – Ele era crooner do… [ n.e. Conjunto vocal carioca Garotos da Lua, que demitiu João Gilberto em menos de um ano depois de sua entrada ]
Sérgio Ricardo – Ah, sim, com voz forte. Ele já cantava do jeito que ele canta hoje. Toda noite ele se encontrava comigo, porque ele andou sem ter muito onde ficar durante um período, estava voltando de não-sei-que-lugar, acho que dos Estados Unidos… [ tosse ] Eta, mundo velho! Fuma! [ risos ] Mas então ele me procurava e a gente saía caminhando por Copacabana depois que acabava minha função na boate. A gente conversava e acabava lá em casa. Tomava o café da manhã, porque já tinha passado a noite e aí minha mãe fazia um café com leite pra ele. Dormia lá, mas não era todo dia, não, era uma vez ou outra… Virou meu irmão.

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