gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Sérgio Ricardo

SergioRicardo-940

Sérgio Ricardo

parte 7/12

A bossa nova era Tom, Vinicius e João. O resto era cópia

Tacioli – Sérgio, você identifica o momento em que seu processo de composição começou a se tornar mais engajado?
Sérgio Ricardo – Foi no início da bossa nova; até o Carlos Lyra reconhece isso, que a primeira canção que rompe com a bossa nova é “Zelão” [ n.e. Lançada em 1960 em disco 78 rotações e no LP A bossa romântica de Sérgio Ricardo ]. “Zelão” rompe com aquela coisinha da florzinha, do não-sei-do-quê, do barquinho, e vai pro morro, sobe o morro… Aí já começa uma canção política brasileira, pelo menos essa vertente…
Almeida – Mas qual a mudança interna?
Sérgio Ricardo – Não, isso foi interno… Eu não sou carioca, sou paulista do interior. Chego no Rio de Janeiro e as pessoas falando de Ipanema, Leblon, Copacabana e tal, muito bem, é uma gracinha, muito interessante. Até fiz uma música [ n.e. “Pernas”, do LP A bossa romântica de Sérgio Ricardo, 1960 ]: “Surgiu ao sol da tardinha / Um par de pernas lindas e tal / E fui atrás das pernas e não-sei-o-quê”. Fiz essa música só pra dizer que posso fazer aquilo, entendeu? Agora, o meu negócio mesmo é a música lírica. As canções de amor que fiz eu não abro mão; vou cantá-las o resto da minha vida. Fazer música que não seja romântica, que não seja lírica, do afeto, do amor, somente música política mesmo. E começou ali na bossa nova. Coincidentemente, já estava começando a fazer cinema, mesma época do Cinema Novo, que tinha toda visão que me interessava. E com o pessoal do cinema, minha cabeça virou toda pro lado político.
Dafne – Mas aí era diferente da bossa nova, que olhava pra praia, pro mar, e você olhava pro morro.
Sérgio Ricardo – Aí eu olhei para o campo, para o morro, para o operário… Tem uma música chamada “Fábrica” [ n.e. De seu terceiro disco, Um SR. Talento, Elenco, 1964 ], não sei se vocês conhecem, que conta a história de um cara. Fiz um filme sobre isso.
Tacioli – Mas o que é que você comemorou nesses 50 anos da bossa nova?
Sérgio Ricardo – Eu comemorei o meu início. Agora, eles não deram bola pra mim; acho até legal, porque o que eu falo de bossa nova nesse livro aí deixou-os um pouco chateados, né? Porque eu estive com eles no festival no Carnegie Hall [ n.e. Festival de Bossa Nova que reuniu em 21 de novembro de 1962, na casa de espetáculos Carnegie Hall, em Nova York, artistas como Tom Jobim, João Gilberto, Carlos Lyra e Roberto Menescal. É considerado um dos responsáveis pela internacionalização do estilo ]. Eu era amigo do Tom, sou amigo íntimo do João Gilberto, adoro eles todos, entendeu? Todos, não, porque de certas pessoas, que eu não vou dizer nome, não me falam muito a cabeça. Agora, Johnny Alf, por exemplo, pobre coitado do Johnny Alf, abandonado aí em um asilo desses, com um problema de saúde gravíssimo… [ n.e. O pianista, compositor e cantor morreu em São Paulo aos 80 anos no dia 4 de março de 2010, vítima de câncer de próstata ]
Dafne – Mas esse seu rompimento com a bossa nova…
Sérgio Ricardo – Eu não rompi com a bossa nova, eu parei de fazer bossa nova. Não foi um rompimento, não houve brigas, não houve discussões, não houve pega pra capar, não houve nada, não. Simplesmente não quis mais fazer. Eles é que vinham pra mim… Por exemplo, o Ronaldo Bôscoli, principalmente, que pra mim era o cara meio esquisito dentro da bossa nova, é que me pichava, me pichava muito: “Lá vem o cara com aquelas músicas não-sei-o-quê”.
Dafne – Quando a Nara começa a cantar compositores do morro – e foi depois de “Zelão” – há um racha, não?
Sérgio Ricardo – É, foi um racha feito pelos intrometidos na bossa nova, sabe, pelos caras que não tinham nada a ver com a música. E o Ronaldo Bôscoli é um deles, embora tenha feito umas cançõezinhas de bossa nova, ele não poderia fazer muito mais do que aquilo. Ele não admitia que se tivesse que falar de outra coisa há não ser do barquinho dele. deles [ n.e. O compositor, jornalista e produtor musical carioca Ronaldo Bôscoli, 1928-1994, é autor de “Lobo bobo”, com Carlos Lyra, e “O barquinho”, com Roberto Menescal, seu principal parceiro ]
Dafne – Mas foi uma coisa mais de fora pra dentro do que vice-versa?
Sérgio Ricardo – Foi de fora pra dentro porque eu parei de frequentar, a Nara também parou depois que casou com o Ruy Guerra ou com o Cacá Diegues, sei lá, e aí tomou outro rumo na história, né? Aconteceu o seguinte: a bossa nova, na verdade, era Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto. Essa era a trilogia importante do negócio. O resto tudo é cópia, entendeu? Tudo seguidores desses três; ou tocando violão ou fazendo letra ou fazendo música. Esses eram os esteios. Pra mim são três gênios e não tem nada contra. Agora o resto, inclusive eu, em termos de bossa nova, não tem nada a ver com aquilo. Aquilo era coisa de João, Tom e Vinícius… e Baden. E coloco ainda o Carlinhos Lyra, porque era um belo melodista. E o principal deles todos, o Johnny Alf, que era o precursor desse negócio todo. Johnny Alf, Garoto, João Donato, esses caras são os cobras. A garotadinha que veio copiando tudo deles, e que de repente tomou conta e a bossa nova virou eles – Tom morreu, Vinicius morreu, o outro tá vivo mas não quer saber deles, João Gilberto não quer saber de ninguém. Tanto assim que fez um show independente; ele não fez um show com a bossa nova; não vem com essa história. Ele veio com o show dele: ele é a bossa nova. Tanto é assim que o grande quinhão da grana foi ele que pegou. [ risos ]
Almeida – Sérgio, vocês nunca tiveram rachas ideológicos com relação à bossa nova?
Sérgio Ricardo – Com o João Gilberto, não! Você pode ler o meu livro, você vai ver que eu com João Gilberto estamos numa ótima. Ele, aliás, cantou uma música minha nos shows que fez por aí. Cantou e fez uma homenagem a mim. Ele até foi legal porque nem precisava fazer isso. A gente é amigo mesmo! A gente era amigo antes dele ser o João Gilberto, antes de eu ser o Sérgio Ricardo, quando eu era Mansur e quando ele era João Gilberto, mas ninguém sabia quem ele era.

Tags
Bossa nova
João Gilberto
Johnny Alf
Música de protesto
Ronaldo Bôscoli
Vinicius de Moraes
de 12