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Entrevistas de música brasileira

Sérgio Ricardo

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Sérgio Ricardo

parte 6/12

Que revolução você vai fazer hoje?

Tacioli – Sérgio, qual é a sua motivação hoje pra música? É a mesma dos anos 60?
Sérgio Ricardo – Olha… Esperando por vocês, eu mesmo estava me perguntando: “Que diabo de música vou fazer hoje, cara? A música romântica, essa coisa linda, ou fazer música não-sei-o-quê?” Música política não adianta! Verifiquei que contar a história do Brasil pro povo, no palco, por meio de música, fica meio esquisito. Percebi nesse show [ n.e. Show de lançamento do álbum Ponto de partida, realizado no Teatro Fecap, em São Paulo, em outubro de 2008 ] que, quando cantei aquela música minha feita pro Lamarca [ n.e. “Tocaia”, lançada em 1973 no álbum Piri, Fred, Cássio, Franklin e Paulinho d eCamafeu com Sérgio Ricardo ], eu senti que ou a plateia ficou comovida – e eu não acreditei – ou então dizia “Por que está cantando esse tipo de música hoje, aqui?”. Então, não é o caso de falar de heróis brasileiros, nem de revolução. Não é o caso de falar disso porque parece que esse caminho não vai pegar, não cola. Que tipo de revolução você vai fazer hoje? Eu não sei! Então deixo a minha consciência trabalhar sozinha, isolada, vou lá e faço versos. Mas tem uma coisa que não me abandona: meu sentimento pelo povo brasileiro, pelo pobre brasileiro, pelo povo mesmo, povão, que eu vivo no meio deles, estou lá no meio de uma favela. Sempre tive perto do povo, nasci no meio do povo lá em Marília, dos camponeses! Tenho uma ligação com o homem do campo e com o trabalhador de uma maneira não ideológica, entendeu? Meu caso foi existencial, convivi com os caras, convivo com eles, tô cercado de gente do morro e converso com eles todo dia. Não gosto de muitas coisas, é claro, mas principalmente o que eu não gosto é dessa alienação que pinta agora nessa camada. Ele não tem como sair disso, porque vai pra casa, liga a televisão e vê o jornal, e o jornal o encaminha pra certas direções, as novelas para outras direções, todos os programas praquelas direções, e ele passa a ter na televisão a sua religião ou, então, nessas religiões marotas que andam por aí levando o pobre do dinheiro desse cidadão ingênuo. O brasileiro é ingênuo demais! É como se a classe C fosse um bando de índios espalhado pelo Brasil, só que vestido de outro jeito e que tem outra filosofia. A filosofia desse povo é de uma pureza que chega a comover, e também dá um certo desgaste emocional você imaginar que essas pessoas não vão poder fazer nada, porque até ela aprender que tem que fazer pra mexer alguma coisa, vão se passar muitos anos. Porque há um impedimento, há um muro impedindo que a inteligência coletiva se desenvolva. Então, a arte aí é que tem um papel incrível; ela tem por obrigação informar as coisas que não são permitidas. Mas é uma rebeldia, mas é a função da arte; é você tentar elucidar as coisas. Eles não vão ler nunca tratados; não vai ser por meio da didática que ele vai aprender coisa nenhuma, porque nem dinheiro pra chegar à faculdade ele tem. A arte teria esse papel. Então, quando você me pergunta “Que música você vai fazer hoje?”… Bom, das minhas músicas que são políticas, objetivas, direcionadas – como a do Lamarca, a do Che Guevara [ n.e. “Aleluia”, lançada em compacto simples com “Deus e o diabo na terra do sol”, parceria com Glauber Rocha ] – não adianta cantar hoje, mas coisas feitas sobre a realidade do povo, essa linha social que adoto no meu trabalho, não vou abandonar. Acabei de fazer uma música no Rio de Janeiro chamada “Bala perdida”: “Severina atingida por bala perdida / Morreu ao parir Severino”. E isso acontece, uma mulher grávida que, de repente, leva um tiro e aborta ou tem o filho ali na hora. Então, esse cara foi criado no morro por mães, irmãos e vários pais pra não ser atirado não-sei-lá-onde, entendeu? E aí, ao crescer, esse cara teria tido a gratidão com seus pais. Conclui o seguinte, deixa eu ver se me lembro do verso: “Aos dezoito atirou-se no samba / E seu canto certeiro varou corações / Quando a gente se junta / Transforma o mau que transtorna o nosso viver / No mais belo amor que se trama no fio do drama / De um bem que se quer / Ninguém teme enfrentar a peleja / Nem tiro que seja capaz de abater / É o amor que se grava no peito / E que não tem mais jeito de esquecer”. Essa é a mensagenzinha que o cara teria concluído da sua própria vivência. Não está falando qual a posição política que tomou, quem é o herói; esse é exatamente o ponto a minha tônica.

(O povo) passa a ter na televisão a sua religião

Tacioli – Mas é política.
Sérgio Ricardo – É política, como sentido, né? É exatamente esse tipo de música política que vou fazer, não aquela direcionada a um papo. A própria “Calabouço”, que é uma canção que sou obrigado a cantar muitas vezes quando estou no meio de muitos estudantes, ela é localizada nesse negócio de repressão: “Cala boca, moço!”. Já é de um outro tempo. Eu tô mais preocupado em fazer esse tipo de música que eu acabei de dizer aí pra vocês.

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Censura
Música de protesto
Sérgio Ricardo
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