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Entrevistas de música brasileira

Sérgio Ricardo

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Sérgio Ricardo

parte 5/12

A Terra está para explodir!

Dafne – A reflexão é um dos elementos mais importantes para a arte?
Sérgio Ricardo – Eu acho que sim, porque senão a arte perde seu interesse, perde seu valor como arte, porque a arte tem uma função educativa dentro dela; ela não está ali somente pra dizer “Olha como é bela a cor vermelha, como é belo o amarelo junto com vermelho”. Não é somente a estética pela estética. Pô, você tem que refletir! Você está falando de seres humanos. No cinema você está falando de seres humanos; na poesia, na música, você está falando de uma realidade… Agora, o que você pensa sobre essa realidade? Você que fazer só joguinho de palavra? É só repetir o mesmo jargão sempre? Ou vai pensar? Ou vai fazer as pessoas pensarem? A arte que não faz você pensar é inferior; pode até ser belíssima, mas é inferior. Quando você olha um quadro de Picasso, você fica intrigado, você quer saber o que ele quis dizer com aquilo. Com qualquer artista grande você tem que refletir, né? É essa mola que transforma a sociedade, porque por meio da arte você tem uma possibilidade de passar conhecimento… Já dizia nosso amigo Einstein que a imaginação é mais importante que o conhecimento. Se você bota sua imaginação pra funcionar, ela pode te dar revelações e fazer revelações, não místicas, não tem nada a ver com misticismo, não, é aquela revelação da imaginação mesmo, que você pode com isso colocar uma solução pra algumas coisas, ou talvez nem soluções, mas indicar caminhos. Elucidar um pouco o espírito das pessoas. (…) Não adianta a arte ir pra classe média falar da miséria do povo, porque a classe média vai olhar e dizer: “Poxa, que coisa triste!”. Você tem que falar com a classe pobre, com a classe C, classe D, agora, o diabo é que não temos veículo pra isso, a não ser a televisão. Então a televisão chega e deforma toda essa visão. Esse é o problema. A televisão joga alienação pra cima do povo e isso é um propósito muito maquiavélico pra poder calar o povo pra que ele não se transforme. Se o povo se transformar e tomar consciência da sua força, esse negócio explode. E a classe média, que não faz coisa nenhuma – nós todos, classe média, fazemos o quê? Só refletimos! A gente não faz nada, nem pega em armas e nem vira político pra transformar nada. E quando vira, vira um canalha. Isso é uma sacanagem. Aí pega aquela podridão da política brasileira: você pode entrar são, mas sai corrompido, porque é muito tentador, ou então fica alijado de tal forma que você acaba sendo cuspido do sistema político. Você tem que entrar e fazer o jogo dos caras. Eu não sei nem se é isso o que o Lula está fazendo, não posso falar, porque não sou analítico político.
Tacioli – Mas o homem tem salvação?
Sérgio Ricardo – Olha, acabei de fazer uma música sobre essa história que não sei nem como acabá-la porque a Terra tá pra explodir, meu amigo! [ risos ] Não tá pra acabar o mundo aí? Todo mundo tá dizendo isso, “Vai acabar! Vai acabar! Vai acabar! Parem com as chaminés! Parem com a poluição! Parem com as queimadas!” e não para. As coisas não param e se agravam ainda mais os problemas. O pobre está cada vez mais pobre, e o rico cada vez mais rico. É uma loucura! Esse negócio desembestou numa corrida que eu não sei onde isso vai parar. Só pode parar no fim mesmo, como fim. Eu tô achando até a Terra está sendo generosa demais, pois não acabou ainda. Já vieram os tsunamis, os tremores de terra e não-sei-o-quê. Não sei se vai degelar não-sei-onde, e de repente o mar vai invadir a cidade, sei lá que diabo é isso, que cataclismo que vai pintar!
Tacioli – Você tem medo dessas coisas?
Sérgio Ricardo – Não, não, porque já estou indo embora daqui a pouquinho, já estou no caminho da roça e não tem confusão. É, tô no cafezal, meu amigo, e tá tudo bem por lá. [ risos ] O problema é quem fica por aí, filhos, netos… A humanidade em si é uma coisa que eu amo, né?! A gente ama o semelhante. Eu, pelo menos, amo o meu semelhante. Não gostaria de ver isso aqui virar uma casa de marimbondo. Mas medo, não tenho medo, não. É lógico que quando você vê a boca de um leão na sua cabeça… se borra todo. [ risos ]
Dafne – Você também vê a política – que sempre foi uma parte importante do seu trabalho – de modo desesperançado?
Sérgio Ricardo – Olha, sinceramente, me julgo meio ingênuo nesse negócio político, porque não tenho suficiente informação. Estou tão avesso à política brasileira, tão descrente da política brasileira, que nem sequer votei e nem vou votar. Isso não é exemplo pra ninguém, pelo contrário, é defeito, já é uma capitulação de uma parte de mim mesmo, porque não consigo ver nada se transformar nesse país a não ser mesmo na base da revolução, da porrada. Sou mais a filosofia do Marcola [ n.e. Marcos Willians Herbas Camacho, Osasco/SP, 1968, considerado um dos líderes da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) ] do que as existentes por aí com todos esses cientistas políticos. Inclusive, ele é um profeta, pode vir acontecer tudo o que ele previu aí. O Marcola tem um artigo fantástico, não sei se vocês leram. Ele é inteligentíssimo. Agora, é o diabo, né? Ele é o diabo!
Dafne – Essa descrença começou ainda na época da ditadura?
Sérgio Ricardo – Não, ela veio aos poucos, depois que a ditadura acabou. Enquanto durava a ditadura eu acreditava que o povo brasileiro fosse tomar uma atitude ou, então, ao acabar a ditadura, que começaria alguma coisa interessante. Não começou nada. Tiro isso por uma conclusão muito simples: os meios de comunicação, principalmente a televisão, tomaram conta da informação, não tem jeito. Acabou, não há quem possa doutrinar mais o povo a não ser a própria televisão, e não há como tomar a televisão da mão do sistema que está aí, a não ser que você faça uma revolução de qualquer de natureza e que, de repente, ela venha para a mão das pessoas conscientes e que queiram transformar alguma coisa. Isso parece uma utopia, não vai acontecer tão cedo. Estamos entregues a uma situação sem saída, um beco sem saída. Você vê essa história aí dos bancos que estão se quebrando no mundo inteiro. Aliás, tenho uma música já bem antiga que diz: “Os bancos de caixa forte / Que eram rochas se quebraram / E um rio de dinheiro correu”. Começa assim. “Pesca o dólar / Pesca o rublo / E a libra esterlina / Pesca as tranças empenhadas / Da pobre menina / Pesca o amor / Que foi vendido / Protestando estima” [ n.e. “Bezerro de ouro”, lançada no álbum Arrebentação, de 1971 ]. (…) E vai por aí uma série de versos em cima dessa coisa que o rio de dinheiro corre, mas esse rio de dinheiro que está correndo hoje é o do governo pros bancos. Mas é muito estranho: os governos de vários países estão salvando os bancos; pra quê? Para que não caia o sistema! E outra: por que não fazem isso pra acabar com a miséria? Essa ninguém topa fazer! Então tá errado, esse sistema está furado, isso não tem nada a ver, cara! Agora, qual é o outro sistema que vai vir no lugar, não posso lhe dizer, se é comunismo, se é social não-sei-o-quê, não sei! Não sou analista político! Que esse sistema aí não é de nada, não é. Como você pode dizer que o sistema é maravilhoso se tem uma miséria da imensidão que nós temos no planeta, com o número de mortos que você tem todos os dias? E essa coisa (a miséria) ainda sendo atribuída à falta de talento das pessoas pra poder se fazer na vida e se virar. Pô! Anteontem teve aí um cara, um motorista, um pau-de-arara que nos levou – eu e algumas pessoas – de um lugar para outro e, conversa vai, conversa vem, acabou em capitalismo e comunismo. Aí o motorista: “Eu sou capitalista!”. [ risos ] “Legal, tu é capitalista! Legal!” “É, porque esse negócio de Chico Buarque que fica falando em comunismo e comendo as melhores mulheres do mundo, morando num palacete não-sei-onde, assim eu também sou!” “Mas, rapaz, as mulheres gostam do Chico Buarque. Você precisa entender isso!” [ risos ] (Falei) só pra sacaneá-lo, mas é a tal coisa, como (você) vai botar na cabeça dum cara desse que capitalismo é essa porra que tá aí? [ risos ]

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