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Entrevistas de música brasileira

Sérgio Ricardo

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Sérgio Ricardo

parte 4/12

Gosto do cinema que faz pensar

Tacioli – Você disse que tocava alguns temas populares quando começou.
Sérgio Ricardo – É, “La cumparsita”… Acho que foi por isso que ela se apaixonou por mim. Meu pai falou que não, ela admitiu que eu podia ficar perto dela, que é bem diferente. Ela foi o meu primeiro amor da minha vida, mas eu fui o limão. É engraçado! Eu tocava “Tico-Tico no Fubá”, “La cumparsita”, os tangos da época que eram muito famosos, como “Mano a mano”. O que mais, meu Deus do céu?! Ah, sim, tinham umas canções que minha mãe cantava que era bonitas: [ canta ] “Noite alta / Céu risonho / A quietude é quase um sonho” [ n.e. “Noite cheia de estrelas”, tango de Cândido das Neves, o Índio, lançada em 1954 por Vicente Celestino e gravada por nomes como o de Nelson Gonçalves, Evaldo Braga e Paulo Sérgio ]. É bonito, é do Catulo da Paixão Cearense. (…) Acho que não é dele, não! É de um outro cantor da época que tinha uma voz esgarniçada, como a do… (…) Eu esqueço os nomes! Foi eu que lancei o cara, isso é que é engraçado; caramba, como é que pode?! Ponto! [ clama o auxílio do primo ] [ risos ] O ponto não sabe essa! Bom, então vou lembrar só porque preciso lembrar! (…) Fagner! [ canta imitando o estilo do cantor e compositor cearense ] Ele puxou esse cantor! Aliás, ele deve ter se baseado nele pra ter aquela voz bonita. Enfim, essas músicas da época, “Aquarela do Brasil”…
Tacioli – Você tinha um ídolo da infância?
Sérgio Ricardo – Ídolo? Era Luiz Gonzaga, Orlando Silva…
Almeida – O pessoal do rádio?
Sérgio Ricardo – Do rádio! Eu gostava muito das músicas orquestrais que tocavam na Rádio Nacional, que lá pegava muito bem, como Lyrio Panicalli, Radamés Gnattali. Eu ficava vidrado nas coisas mais elaboradas. Ouvia muito Garoto tocando violão; era um excelente compositor.

A preocupação do Cinema Novo era o país!

Almeida – Cinema tinha em Marília?
Sérgio Ricardo – Tinha cinema, as domingueiras em Marília eram engraçadas, e aquelas matinês do Cine Cruzeiro. Um dia eu e outro moleque roubamos da porta do cinema as fotografias de umas mulheres. Aproveitamos que ninguém estava por perto e tiramos aqueles preguinhos, aqueles grampos, e levamos as fotos embora. Só que elas ficaram comigo, mas eu tinha esquecido disso. Aí fui pro colégio – porque foi na ida pro colégio que a gente roubou as fotos – e na volta todo mundo veio dizendo que ia passar no Cine Cruzeiro porque tinha descoberto quem havia roubado as fotografias. Mas como eu sabia que ninguém sabia que era eu (“o ladrão das fotos”), fui no grupo pra ver quem era o coitado. [ risos ] Aí, quando chegou na hora, a turma toda sabia que era eu! Só na hora me delataram! Fiquei com a cara no chão. (As fotos) estavam na minha bolsa, que vergonha! Nunca mais roubei nada de ninguém.
Almeida – Você se lembra do filme?
Sérgio Ricardo – Não me lembro, mas devia ser Tarzan…
Tacioli – No cinema tinha de comprar ingressos para a próxima sessão, do capítulo seguinte, não?
Sérgio Ricardo – Pois é, tem esse negócio do filme em série né? Eu via muito Flash Gordon, Zorro… Capitão Marvel, mas esse era de um gibi…
Almeida – Você lembra do primeiro filme que assistiu no cinema?
Sérgio Ricardo – Era mudo e não tenho a menor ideia de que filme era aquele.
Almeida – Tinha piano tocado ao vivo?
Sérgio Ricardo – Não, não tinha, não! O chato disso é que em Marília ainda não tinha chegado um pianista pra fazer o trabalho; era todo mundo sentado olhando uma coisa muda, totalmente muda, só imagem, imagem, imagem, e eu me deliciava com aquilo, não entendia nada. Via o homem beijando a mulher, aquelas coisas, corre corre, muita comédia… As comédias eram boas porque não precisavam de palavras, as cenas é que contavam, principalmente as do Chaplin. Nem me lembro se eram (os filmes do) Chaplin, não tenho ideia.
Tacioli – O que ainda te fascina no cinema, Sérgio?
Sérgio Ricardo – Bom, gosto do cinema mais intelectualizado mesmo; essa coisa americana eu não gosto, não. Até sou obrigado a ver de vez em quando porque não tem o que fazer e é a única coisa que está passando, então você vê, mas eu gosto do cinema que faz pensar. Os “Buñuels” da vida, os franceses quase todos, os italianos também. Gosto de alguns diretores do cinema americano. Gosto dos chamados bons, esse que tem nome italiano, (Martin) Scorsese. E do Brasil gosto do cinema do tempo do Cinema Novo mesmo. Ainda fico com os filmes do Cinema Novo embora eles deixassem a desejar tecnicamente, mas tinham um conteúdo maior do que se vê nos filmes de hoje, mesmo com toda essa mirabolancia tecnológica. Ali a preocupação do cineasta era uma preocupação com o país, não era uma preocupação em fazer um filme bonito pra passar em Cannes, entendeu? Não era essa a preocupação. A gente queria, sim, ganhar prêmios internacionais, como ganhamos vários, mas não com aquela preocupação comercial de Hollywood. Isso não interessava pra gente. Aliás, a gente fugia disso.

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Cirino – O projeto era outro.
Sérgio Ricardo – O projeto era mais o Nouvelle Vague, mais aquela coisa europeia, que era mais dirigida à consciência. Tinha um conteúdo de transformação, de uma coisa que contribuísse para a transformação da realidade ou uma denúncia fantástica que a gente pudesse ver. Hoje em dia as denúncias são em torno da violência, que já está mais do que caracterizada. A gente já está podre de saber o quanto é feroz a bandidagem na favela. O que tem de filmes agora com isso é uma coisa enorme! Você não vê ninguém fazer uma reflexão inteligente a respeito de uma determinada realidade; você vê uma reprodução da realidade muito bem feita tecnologicamente, mas não tem uma opinião, não tem um pensamento em si querendo dizer alguma coisa, entende? Posso até estar sendo muito rígido ao dizer isso, não sei… Aquele filme Estômago [ n.e. Longa-metragem de Marcos Jorge, 2007, com João Miguel, Fabíula Nascimento, Babu Santana e Paulo Miklos ] tem alguma coisa interessante ali. Agora, não vi todos, não posso ser a palmatória dessa situação, porque confio muito nessa juventude que tá aqui a partir do trabalho musical que estão fazendo comigo. Quer dizer, não acredito que o jovem de hoje seja inferior ao jovem do passado. Não reflito assim a situação, entendeu? Até houve um avanço mesmo, inclusive as coisas que vieram com o computador e com outros mecanismos modernos levam o jovem a ser mais esperto. Vejo pelo meu filho: a rapidez com que ele resolve as coisas e aprende e se comunica e tudo. Verifico que há um avanço, uma coisa melhor na juventude de hoje. O que não há, talvez, seja um propósito…
Dafne – Ou essa reflexão…
Sérgio Ricardo – (… ) Uma reflexão a respeito da realidade, porque se não existir uma arguição a respeito disso, você não tem na sociedade nada que esteja te levando a uma tomada de posição; você está liberto, tá solto pra dizer o que você pensa, você faz o que quiser.
Almeida – Mas não tem embates de ideias.
Sérgio Ricardo – Não tem embate de ideias, exatamente, que é o que tinha no passado. Isso era enriquecedor porque fazia o indivíduo refletir um pouco sobre a vida, filosofar um pouco, porque somente ficar solto no espaço a espera de…

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