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Entrevistas de música brasileira

Sérgio Ricardo

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Sérgio Ricardo

parte 3/12

Parecia filme de neo-realismo italiano

Tacioli – No domingo você disse que, depois que saiu de Marília, você voltou pra lá quatro vezes apenas. Que imagens você guarda de Marília?
Sérgio Ricardo – Marília é o paraíso da minha infância. É lá que tinha os cafezais. E eu fiquei por lá até os 17 anos. Fiz o grupo escolar, tive uma interrupção no meio – no começo da minha vida, aos oito anos de idade, eu sofria de bronquite asmática, e vim morar em São Paulo por ordem médica. Aí, o Tio Paulo arrumou um colégio pra mim, o Sírio Libanês, na Avenida Paulista, que já não existe mais. Passo por ali, perto do Trianon, e fico morrendo de saudade do colégio, porque era uma beleza. Já aos oito anos pulava muro do colégio… Bom, mas aí fiquei interno um ano ali e depois voltei pra Marília de novo. E, aos 14 anos, voltamos pra São Paulo, porque meu pai tinha conseguido uma transação comercial, tinha uma fábrica de seda em Marília e ele se tornou em representante da fábrica em São Paulo. Moramos aqui por uns dois ou três anos. Isso foi na época da Guerra. Assisti até a volta dos pracinhas da Segunda Guerra. Foi uma coisa cômica e muito interessante.
Almeida – Achei que você ia falar “comovente”…
Sérgio Ricardo – Não, comovente pra burro, muito comovente, mas cômico ao mesmo tempo porque era aquela italianada esperando os filhos voltarem… Aí apareciam os caminhões do Exército com os meninos em cima, com os soldados procurando pelos seus familiares pra ver se encontrava no meio da (multidão) e quando um via um familiar saltava do carro… Vinha e se abraçava. Era uma coisa! Tinha gente que desmaiava, era meio engraçado, mas muito comovente. Parecia filme de neo-realismo italiano. Um barato! Nessa época que eu ia e vinha do aeroporto… Até uma cena muito engraçada: aqui em São Paulo, na (rua) Afonso Celso, em frente da minha casa, tinha um campo de futebol chamado Ás de Ouro… Tinha um muro e um colégio. A gente jogava lá quando o Ás de Ouro não jogava. A gente entrava e fazia nossas peladas lá dentro. E um belo dia eu estava sentado nesse muro, pensando num dever do colégio que deveria estar fazendo e não estava e, de repente, uma bola veio na minha cabeça. Eu caí, mas foi um tombo bonito, viu? Ficou todo mundo rindo. Foi a coisa mais grotesca que aconteceu na minha vida: levei um tombo do muro e me esparramei todo. Isso é muito engraçado. Aí começaram a calçar a rua com paralelepípedos. Nesse dia eu vi que o nosso campinho particular de pelada na rua estava se desfazendo. A gente insistia em jogar bola sobre o calçamento – que não tinha mais graça, jogar futebol em cima de paralelepípedos é horroroso – mesmo com o passar os carros. Um dia minha mãe viu eu quase sendo pego por um automóvel e chegou lá com um facão de cozinha e furou a bola. [ risos ]
Tacioli – Você era um craque?
Sérgio Ricardo – Era um goleiro bom pra caramba, me atirava, rapaz, era uma loucura.

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Tacioli – Ainda bem que você não se meteu…
Sérgio Ricardo – Ainda bem que não levei essa à frente. [ risos ]
Giovanni Cirino – Senão seria mais uma…
Sérgio Ricardo – Não, essa não deu para levar à frente, não!
Tacioli – Seria um Julio Iglesias! [ n.e. Cantor romântico espanhol que defendeu na adolescência as metas do Real Madrid ]
Almeida – E quais são suas lembranças musicais de Marília?
Sérgio Ricardo – Depois que voltei do colégio interno, com uns oito anos de idade, comecei a estudar música, e lá pelas tantas o meu estudo era um pouco arrevesado porque não tínhamos piano em casa. Então, eu tinha que estudar no conservatório. Tinha lá um piano. Eu me fechava numa casinhola com piano lá dentro e ficava estudando, estudando… E aí, em vez de estudar mesmo, eu ficava tirando músicas de ouvido, entendeu? Foi isso que me levou à música popular, mas mesmo assim tocava ainda lá meus classicozinhos e tal. E, aos 16 anos, mais ou menos, eu já estava tocando de cor a “Dança ritual do fogo” [ n.e. Um dos clássicos do compositor erudito espanhol Manuel de Falla, 1876-1946 ]. Aí virei um sucesso em Marília. Qualquer festinha de garotada: “Não, não, vai tocar aquele piano lá!” e lá ia eu tocar ao piano a “Dança ritual do fogo”. Tinha uns erros ali no meio, mas ninguém percebia nada.

Tacioli – Fazia sucesso com a mulherada?
Sérgio Ricardo – Com a mulherada, não, mas tinha uma garota que acabou virando minha namoradinha, mas eu tenho a impressão que ela me fez limão, sabe? Porque foi minha primeira namorada aos 16 pra 17 anos, e eu, rapaz, comecei a emagrecer de paixão pela garota. Mas eu tava que não comia mais, não pensava em mais nada. O padre do colégio vinha e “Olha, você precisa parar com esse namoro!” porque minha mãe ia se queixar pro colégio. Era uma coisa, todo mundo contra aquele namoro. E a menina era um barato, era linda pra cacete. Mas eu me atrapalhei com aquela história… Aí meus pais olharam e “Esse cara precisa sair de Marília se não ele vai morrer”. [ risos ] Emagrecendo demais, tava que eu não comia nada, só pensava na pobre da menina, mas ela não me dava nem um beijo, cara! Era aquele encontro platônico… Nem encostar nela e ainda me fazia assobiar “La cumparsita” [ risos ], que deveria ser o tema do namoro dela com o outro menino. Eu não sabia disso, pensava que ela adorava me ver assobiar porque eu era bom de assobiar. Mas não era por causa disso.
Almeida – Você conseguiria dar uma palinha do assobio?
Sérgio Ricardo – Não, não consigo, nem sei assobiar mais; acho que até por recusa.
Almeida – Trauma!

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