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Entrevistas de música brasileira

Sérgio Ricardo

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Sérgio Ricardo

parte 2/12

Eu poderia ter sido um Lima Duarte

Almeida – Você foi prejudicado por não ter escolhido um caminho?
Sérgio Ricardo – Fui, fui prejudicado.
Almeida – Qual foi o prejuízo?
Sérgio Ricardo – O prejuízo foi exatamente esse, por exemplo, eu poderia ter sido ator o resto da vida e hoje seria um sei lá…
Almeida – Um Tarcísio Meira?
Sérgio Ricardo – Um Tarcísio Meira? Um Tarcísio Meira, não! [ risos ]
Dafne – Um Lima Duarte?
Sérgio Ricardo – Um Lima Duarte! Eu poderia ser um Lima Duarte, entendeu? Tarcísio Meira é muito bigui…
Almeida – Qual era a sua linha de ator?
Sérgio Ricardo – Era de galã mesmo, era de galã.
Almeida – Ficava com a moça mais bonita…
Sérgio Ricardo – É, ficava com a moça mais bonitinha, também não era garoto, tinha a idade de vocês.
Almeida – Porque o Lima Duarte ficou uma coisa meio engraçada…
Sérgio Ricardo – É, ficou meio caricato. Não, não é bem caricato, ele fazia tipos, mas é um excelente ator. Lima Duarte é um geniozinho. Agora, é essa coisa: mesmo que fosse só pra ficar só cantando, pô, eu hoje estaria bem… E tem também os outros dados: a chamada rebeldia me atrapalhou um pouco, que foi o negócio no meio político, porque eu poderia ter continuado o meu sucesso, inclusive eu era do primeiro time das pessoas de sucesso no tempo de bossa nova. E eu comecei a rejeitar a própria bossa nova. Então já começou o problema por aí. Aí comecei a fazer música política e na música política veio a censura e me proibiu. Isso tudo me prejudicou. E as minhas declarações também eram radicais. Sobre esse aspecto houve um problema de impedimento; por outro lado, essa coisa da diversidade de profissões, porque, às vezes, eu terminava um disco, e na hora de começar a fazer o show do disco, fazer isso que eu tô fazendo agora com esse disco que saiu [ n.e. Ponto de partida, Biscoito Fino, 2008 ], e eu não fazia porque tinha um filme pra fazer. Eu já estava comprometido com o filme. Aí largava o disco pra lá e ia fazer o filme. É aí que o empresário ficava uma fera e falava “Com esse cara não dá pra trabalhar”. Essa rebeldia e essa diversificação me atrapalharam muito.
Tacioli – Mas você já preparou o discurso para a reunião amanhã com o empresário, não?
Sérgio Ricardo – Já tá… Não, ele foi assistir ao show. Ele é um empresário da minha época. É o Fred Rossi. Ele mesmo já deixou de fazer trabalhos comigo exatamente por isso, porque não sabia se eu estava no cinema, se eu estava no teatro, se estava na música. Então pegou outros caras pra trabalhar. Agora ele tá achando que eu tô querendo entrar nos eixos [ risos ], mas deve estar com o rabo atrás, deve estar de cabelo em pé mesmo. Essa é a coisa básica da atrapalhação da minha vida.
Tacioli – Mas você se arrepende com relação à rebeldia?
Sérgio Ricardo – Não, não, não, não me arrependo de nada, sinceramente, de nada do que fiz eu me arrependo, nem dessa polivalência do meu trabalho, porque em todas as artes em que eu me meti fiz com o coração mesmo, entendeu? Fiz com uma entrega total, não foi de brincadeira. Porque há quem faça isso pra poder se mostrar, “gênios” que fazem várias coisas; o meu negócio não era bem por aí, era uma vontade mesmo… Sou muito liberto, desde garoto sou assim. Levava surra de rabo de tatu da minha mãe. Não era brincadeira, não! Eu era o único da família que apanhava, porque era rebelde mesmo, a ponto de um dia dizer “Olha, chega desse negócio de surra!” e ir pro meio da rua e ficar entre os automóveis. E ela: “Pelo amor de Deus, saí daí!”. “Só se parar com esse negócio!” Aí ela parou de me bater porque já não dava mais pra ela, eu já estava crescidinho, podia me aborrecer e…
Tacioli – Você se lembra de alguma peraltice?
Sérgio Ricardo – Pô, várias. [ risos ]
Tacioli – Então diga uma…
Almeida – Aquela notória.
Sérgio Ricardo – Bom, agora assim, pra lembrar um caso.
Almeida – Essa aí que te deu nas tampas e…
Sérgio Ricardo – Ah! Eu adorava me perder no cafezal. Morava em Marília e tinha aquele cafezal imenso, vários hectares de plantação de café, e você sabe que o cafezal é uma coisa simétrica.
Almeida – Os corredores…
Sérgio Ricardo – Você tem uma linha aqui, um corredor aqui, agora tem um outro aqui enviezado e tem um outro enviezado ali. São seis caminhos, sete, oito caminhos, né? Se você está num ponto, você tem oito possibilidades. Bom, eu chegava e ia andar pelo meio. Aí o pessoal que estava comigo, sempre a garotada: “Ó, hoje eu vou voltar daqui, hein?!”. Nessa época (me chamavam de) João. “Ô, João, vou voltar daqui, porque eu não tô entendendo mais nada”. “Tá bom, então você volta!” e eu seguia. E seguia mesmo porque eu adorava me meter no meio daquele cafezal. De repente, eu olhava e dizia: “Porra, realmente tá fogo aqui!”. [ risos ] Na hora de voltar começou a escurecer. “Putz, como vou resolver esse assunto?!”. Aí a minha solução foi ver de onde vinha a fumaça das chaminés, porque era da cidade. Olhava para o céu para ver de onde pintava fumacinha. Descobria que era por ali, pelo menos descobria o norte e voltava por aquela reta. Nunca aconteceu de dar em outra cidade… [ risos ]
Tacioli – Se mudasse o vento!
Sérgio Ricardo – Mas eu conseguia voltar pra casa. Às vezes me perdia e voltava tarde. Outra loucura de garoto que a gente fazia: eu morava em São Paulo, aqui na Vila Mariana, ali na Rua Afonso Celso, não sei se vocês conhecem, perto da Domingos de Moraes. Eu vivia pegando bonde andando. Bonde andando era comigo mesmo; descer de bonde andando… Já me esborrachei algumas vezes, pensava que já dava pra pular e pulava. Vocês não pegaram essa época de bonde.
Almeida – Bonde, não!
Sérgio Ricardo – Mas aquilo era uma temeridade, porque o bonde vinha e você “Vapt!” se agarrava ao bonde! E se não soubesse o traquejo da montada podia ser atropelado pelo bonde. E vinha o cobrador correndo atrás do moleque pelo estribo do bonde – porque a gente andava pelo estribo. A gente já sabia que não ia pagar o bonde porque não tinha dinheiro, então na hora que ele via, a gente corria, atravessava bancos – geralmente com o bonde vazio no horário de almoço – e descia correndo e me esparramava no chão. Era uma loucura! Isso é uma coisa que eu estou lembrando, agora, mas há várias. Nessa época a garotada da pelada saia em bando da Vila Mariana até o aeroporto (de Congonhas) a pé. Não tinham esses edifícios, não. Era mil duzentos e não-sei-quando. [ risos ] Aquilo era uma selva. Eu passava pelo mato pra chegar até o aeroporto. Acabávamos descobrindo as quebradas e chegávamos ao aeroporto.
Tacioli – Só olhando a fumacinha ali.
Sérgio Ricardo – É! [ risos ] Ali era avião, mas dava pra ver onde o avião estava subindo: “Ó, avião tá ali, então é pra lá que a gente vai” e íamos até o aeroporto a pé e voltava. Na volta tinha uma piscina – pra nós era uma piscina, mas era uma poça d’água gigantesca que não sei pra que era usada – e gente nadava naquele negócio. Era uma loucura! E ainda brigas no meio do caminho quando aparecia um bando daquela região, briga de molecada. Peraltice era o que não faltava mesmo!

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