gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Sérgio Ricardo

SergioRicardo-940

Sérgio Ricardo

parte 1/12

Sou mais criador que intérprete

[ Enquanto a equipe do Gafieiras prepara e posiciona os equipamentos… ]

Sérgio Ricardo – (…) Lutfi, exatamente. Foi o dia em que tive de mudar porque tá o Lufti aí, que não é Lufti, é Lutfi! Tem que explicar toda hora essa porra! É foda! [ risos ] Aí inventamos o outro nome, não tinha nada a ver, e virou Sérgio Ricardo. Meu pai ficou puto, mas tudo bem.
Ricardo Tacioli – Você gostou, Sérgio?
Sérgio Ricardo – Do nome? O nome estava pouco me interessando, eu queria era aparecer na televisão. Se fosse Benedito da Silva também eu tava topando. E foi assim. E uma coisa foi puxando outra: a televisão me puxou pro cinema, porque comecei a fazer umas brincadeiras de produção ali, e dali a pouco estava produzindo programa de televisão, além de ser ator… Fiz novela pra caralho, fui ator de uma porrada de coisa. Mas aí começou a me bater a vontade de fazer filme. Fiz o primeiro [ n.e. Menino da calça branca, curta-metragem, 22 min, p&b, 1961 ] e agradou pra burro; foi prum festival em São Francisco, na Califórnia, e tirou segundo lugar. Digo: “Porra, primeiro filme já pega festival internacional pela frente? Então, vou por aí também!”. E fui, rapaz! E pintar eu já pintava no colégio, desde criança, além do piano que eu estudava. Eu era o melhor aluno de desenho da turma, só tirava dez, era um vexame! A mão pra desenho puxei do meu pai, que foi escultor. “Caralho, então tem tudo aí!”A pintura eu deixei pra velhice. Era agora que eu queria estar pintando, mas vem a minha filha e me puxa de volta. Se me puxarem pro cinema é que eu não sei, mas tem dois filmes aí pra fazer.
Dafne Sampaio – Cinema é um negócio mais trabalhoso.
Sérgio Ricardo – Trabalhoso demais, levantar às seis horas da manhã e encarar uma equipe pela frente, faz isso, faz aquilo. Se for uma coisa muito bem organizada de produção, que tem assistente suficiente pra poder não precisar levantar da cadeira, aí tá certo. Mas no Brasil é difícil, você tem que ter saúde pra isso.
Tacioli – Sérgio, o livro tem momentos… [ n.e. Quem quebrou meu violão, de Sérgio Ricardo, Ed. Record, 1991 ]
Sérgio Ricardo – Vocês não estão gravando, não, pô?!
Daniel Almeida – Aqui tá.
Sérgio Ricardo – Ah, tá?!
Daniel Almeida – Aqui tá. Já tá rolando.
Sérgio Ricardo – Ah, já tá rolando?
Tacioli – Aqui é assim, quando você menos espera… [ risos ]
Sérgio Ricardo – Então eu vou puxar um cigarro.
Dafne – Então eu também vou.
Tacioli – Sérgio, tem um momento no livro em que você está nos Estados Unidos e cita a “Dona Sorte”. Não sei se era uma ironia ou se era isso mesmo que você contou: “Comecei o negócio e, pá, sucesso! Outra: pá! Sucesso!”. Mas você duvida dessa sorte: se era um problema ter pintado tantas coisas e não ter ficado com nenhuma delas…
Sérgio Ricardo –Pois é, esse é um caso, porque no final das coisas fica parecendo que eu ensaiei tudo, só virei ensaísta em todas as obras, em todas as artes. Mas o caso é que o trabalho que fiz com arte, em todos os cantos em que eu operei, as coisas colaram. As coisas tiveram sua resposta de obra resolvida. Até em pintura que eu não acreditava que viesse acontecer, mas foi só eu começar a pintar para aparecerem várias exposições. Aí não foi só porque eu era o Sérgio Ricardo, não… Em artes plásticas não existe esse negócio: você é o que é mesmo, se você é bom, se você é palhaço, se não é não adianta ser o Zé das Couves que não resolve. Mas foi assim. Se tivesse me fixado numa coisa só, como fez o grande João Gilberto, que só quis saber do violão e da voz, nem compor. Ele fez umas duas ou três músicas e fim de papo, ficou naquilo, naquela voz pequena, naquela surdina pra não estragar a voz e num violão extraordinário. Isso é uma coisa que a minha inquietação não permitiria; sou muito inquieto pra poder ficar numa coisa só, tenho uma curiosidade muito grande sobre a criação. Sou mais o criador do que o intérprete, tenho que admitir. Sou mais escrevendo do que o ator, sou mais o compositor do que o cantor ou instrumentista, embora eu tenha um piano que considero, e outras pessoas concordam com isso, que o meu piano é muito bom. Gosto do meu piano, mas ele não atinge a altura do meu grau como compositor. Na verdade, sou mais o criador do que o intérprete. Como na pintura você alia tudo ao mesmo tempo, sendo o intérprete e o criador, aí já não sei o que é melhor ser: ou a ideia que coloquei ali ou essa da pintura sendo executada, entendeu?

Tela de Sérgio Ricardo - Série Artistas de rua (2010). Foto: reprodução

Dafne – Imagino que cada um dos meios, das mídias, das coisas que você fez e se meteu, tenham dado prazeres distintos…
Sérgio Ricardo – Todos eles deram um prazer incrível. Não há uma grande mágica em tudo isso, não; todas as artes são irmãs, cara! Da pintura, você tem melodia, que é o traço; você tem harmonia, como a própria palavra diz, que é harmonizar as cores; tem o ritmo porque se você não tiver ritmo na pintura, no pincel, no jeito em que você pinta, você estraga o quadro. Então, uma boa tela tem que ter um ritmo, assim como no teatro: o ator tem que ter uma melodia bonita, ou seja, uma voz bonita; tem que ter uma harmonia pra poder saber como é que se harmoniza com os outros personagens; tem que ter o ritmo, que é o ritmo da fala para cada cena. Toda arte tem harmonia, melodia e ritmo, mesmo que traduzidas em outras palavras, entendeu?
Dafne – Então tudo é música, né?
Sérgio Ricardo – Tudo é música, no fundo, tudo é música. Então, se você domina a linguagem musical – que é engraçada porque não é com palavras, não é com letras, é com bolinhas –, você domina as outras artes, se quiser, se tiver um “pendor”, um pouco de talento praquilo, né?! Mas não é uma coisa difícil se você é músico, você consegue se subdividir em outras funções. Aliás, não sou somente eu, existem muitos músicos que são outras coisas; há vários pintores que são músicos.
Tacioli – Mas você chegou a sofrer algum tipo de cobrança “Ah, o Sérgio Ricardo é músico e agora está se metendo no cinema!”?
Sérgio Ricardo – Não! Se fosse nos Estados Unidos eu estava frito. Parece que somente o Chaplin conseguiu fazer várias coisas… Ou você é cineasta ou você é compositor ou você é cantor. Você escolhe o que você quer ser.
Almeida – Porque você não faz nada bem…
Sérgio Ricardo – É, não faz nada bem, mas o problema não é no fazer, é no aparecer, é no ser depois. O empresário não te pega com você sendo várias coisas: ele vai querer que você seja o cantor que ele está querendo vender. Se você disser “Não, mas eu pinto também”, (ele rebate) “Não me interessa, cara, o meu metier é a música. Tenho que te vender como cantor”. É por isso que eu até hoje nunca tive empresário. Os caras ficam “Pô, mas o que você quer fazer, afinal?”.
Tacioli – No Brasil?
Sérgio Ricardo – É, no Brasil também tem esse problema. Agora, só que aqui não existe empresário, empresário aqui é todo improvisado, é o amigo. Por exemplo: o Chico Buarque tem um belo empresário. Foi improviso que ele fez com amigo dele do colégio. Ele chegou e disse: “Pô, você não quer ser meu empresário?”. E ele (Vinicius França) disse: “Quero!”. Então passou a ser o empresário do Chico e é um belo de um empresário. Não sei dele empresariando outras pessoas. O Vinicius é uma grande pessoa, por sinal. Mas é assim, a coisa é na base do improviso. Agora, os profissionais, os empresários profissionais, que também existem vários deles… Amanhã vou falar com um deles, que é o Rossi… Ô meu Deus, como é?! [ risos ] Já começou… Hein?
Sérgio – [ Da sala de jantar, o primo de Sérgio Ricardo fala o nome do empresário ] – Fred!
Sérgio Ricardo – Fred Rossi! Obrigado! [ risos ]
Sérgio – Estou aqui como ponto.
Sérgio Ricardo – Como é?
Almeida – Ele está como ponto seu, vai soprando…
Sérgio Ricardo – Legal. [ risos ] Ainda bem que eu só errei agora, hein!

Tags
Chico Buarque
João Gilberto
Sérgio Ricardo
de 12