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Entrevistas de música brasileira

Sérgio Ricardo

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Sérgio Ricardo

parte 12/12

A única coisa que me chateia é a falta de uma grana

Tacioli – Sérgio, a derradeira: é ruim envelhecer?
Sérgio Ricardo – Não! Como eu estou envelhecendo é até uma boa; de vez em quando tenho vontade de ir embora logo, porque a vida começa a ficar muito repetitiva, você é cobrado das mesmas coisas, você enfrenta sempre as mesmas coisas, não há muito inusitado como vejo nos jovens. Por exemplo: comer uma grande mulher pra mim já não é mais problema; já passaram muitas (mulheres) boas na minha vida. Se é por causa disso, até que está tudo bem, entendeu? O problema é esse, cansa mesmo, tudo cansa na vida, a vida cansa… Bem, se eu estivesse aqui com 500 mulheres, como um sultão sei-lá-do-quê, talvez estivesse de saco cheio querendo ir embora do mesmo jeito, não se sabe. O grande problema é que envelhecer é bom, rapaz; o problema é ficar com o rabo preso com a consciência, entendeu? A consciência é o problema na hora que você vai dormir, porque como se tem o sono mais leve, qualquer pesadelozinho, qualquer coisa estranha, ela vem no seu sonho, e o sonho vem mais carregado de um drama… Não sei se é por causa do sangue que vai pra cabeça, não sei qual é o fenômeno, o fato é que às vezes acordo de um determinado raciocínio que me vem a mente (enquanto estou) dormindo, e fico em pé pro sangue descer, pra eu raciocinar sobre aquilo que aconteceu no sonho, para ver se ele tem tanta importância como eu estava dando. Sempre via que era um exagero. Agora, imagina (para) aquele que não é exagero, o que ele não sonha? Aí velhice deve ser brava.
Almeida – Você acha que você fez muita merda, Sérgio?
Sérgio Ricardo – Não, em termos que me dê (dor) na consciência, não. Fiz muita coisa errada, como todo mundo faz, né? Num certo sentido, poderia ter analisado um pouco melhor a minha vida e ter ficado numa coisa só, focado numa coisa só e hoje estaria numa outra situação. Mas a minha situação atual não me encabula… Me encabula quando eu estou com problemas econômicos, meio apertado; tenho muita gente que me socorre, como esse primo aí, ele é uma figuraça! Pronto: a única coisa que me chateia realmente é a falta de uma grana que me dê uma recompensa pelo que eu fiz… Agora, pra mim o dinheiro não vale nada, só vale assim, para essas coisas fundamentais, comer, ter um lugar onde morar, educar filho, mas fortuna? Não tenho nenhum apego a isso. Até gostaria de ser um pouco mais apegado, pelo menos para ter um equilíbrio maior, não ser tão chamado “porra louca”, mas aí, rapaz…

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Clemente

Tacioli – Isso pesa ainda? Os amigos falam “Pô, Sérgio!”…
Sérgio Ricardo – Não, ninguém… Todo mundo me dá força, é uma coisa engraçada porque também tem o caráter. Se você é mau caráter, você tá fudido, porque as pessoas sacam logo e te isolam. Eu não sou isolado, sou uma pessoa bem querida entre os meus amigos, na minha classe, tanto na classe musical, quanto na classe cinematográfica, sou um cara muito respeitado. Chico Buarque vive me ligando, João Bosco vive estando comigo, as pessoas me respeitam muito e gostam de mim. Então tenho assim um conforto de me sentir bem, não estar ressentido com nada; não tenho ressentimento! Aquela minha música é verdadeira: “Não tenho mágoas / Não me venha consolar / Mágoas são águas / Vão para o mar”. [ n.e. “Contra a maré”, do LP Do lago à cachoeira, Continental, 1979 ] Minha vida é essa aí, esse é meu hino. E é isso!
Tacioli – Beleza pura!
Dafne – É isso aí.
Tacioli – Sérgio, o que é uma boa canção de amor?
Sérgio Ricardo – Uma canção de amor é tudo, cara, é tudo, porque o amor é a melhor coisa que tem, né? Não tem conversa: pode discutir a política que você quiser, partido que você quiser, mas o amor é um partido só e só tem um caminho, fim de papo. Quanto mais amar, melhor, quanto mais amar, melhor.
Tacioli – Obrigado, Sérgio.
Sérgio Ricardo – De nada.

[ Enquanto equipe guarda o equipamento de áudio ]

Tacioli – Você viu que a gente deu uma passeada, né?
Sérgio Ricardo – Porra… Violento, hein! [ risos ]
Dafne – Uma montanha russa.
Tacioli – Durma bem!
Sérgio Ricardo – É, durmam bem.
Almeida – A gente vai aparecer no seu sonho.
Sérgio Ricardo – Mas se vocês aparecerem no meu sonho…
Almeida – Fica em pé logo.
Sérgio Ricardo – Se vocês aparecerem no meu sonho, eu vou levantar com o chicote da minha mãe. Rabo de tatu pra vocês verem o que é bom pra festa. [ Tosse ] Queria parar de fumar, puta que pariu!
Almeida – Você já tentou?
Sérgio Ricardo – Já. Esse quadro é meu.
Sérgio – Aceitam café?
Almeida – Ô, rapaz, eu tomo.
Cirino – Também.
Tacioli – Quatro com o Sérgio.
Sérgio Ricardo – Vai ter que encher o bulê.
Tacioli – Como você define sua pintura, Sérgio?
Sérgio Ricardo – Essa é uma arte em que posso dizer que sou um ensaísta…

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Envelhecimento
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