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Entrevistas de música brasileira

Sérgio Ricardo

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Sérgio Ricardo

parte 11/12

Pinto bonito é aquele que queríamos ter

Tacioli – Sérgio, como você lida com o fim?
Sérgio Ricardo – O fim?
Tacioli – Com a finitude, com o fim das coisas?
Sérgio Ricardo – Caramba, rapaz, que conversa profunda! É aquela porrada nos córneos. [ risos ] Eu vou te dar uma dica. Eu lido muito bem. Eu estava contando isso pro meu primo, ele pode confirmar: tive uma parada respiratória por causa de cigarro. Eu fumo muito. Aí, de repente, o ar não vinha, não vinha, não vinha, e eu digo “Já foi, né? Já era!”. Era aquela agonia, aquela agonia e, de repente, comecei a morrer, cara! Eu morri um pouquinho, morri durante uns cinco minutos, não deu pra contar os minutos porque eu não estava interessado [ risos ], mas num certo momento em que eu não respirava, não vinha ar de parte alguma, comecei a sentir uma coisa muito agradável, rapaz! Parece mentira! Um negócio de uma felicidade incrível… Já estava indo embora. “Que é isso? Que barato!… Coisa ótima!” e, de repente, “Pá!”. A respiração voltou… Acho que me acalmei, o pulmão deu uma sossegada e voltei a respirar. Fiquei horas querendo imaginar o que era aquilo… Aí perguntei aos médicos e todos me disseram a mesma coisa: “A morte, pelo que se sabe, é isso mesmo. Tem muita gente que teve essa passagem e volta. Inclusive tem gente que fica mais tempo. Não fiquei tanto tempo assim, mas tem gente que fica mais tempo e diz que é a mesma coisa, que começa a ficar tão interessante; é uma coisa belíssima, o que você sente é lindo e o que parece que você vai ver é uma coisa maravilhosa. Prefiro pensar que o fim é desse jeito, sabe? Tomara que seja assim porque é legal pra burro. Pô, rapaz, vocês precisam desligar, porque vocês são meio sem-vergonhas e vão querer botar tudo. [ risos ]
Tacioli – Se você falar pra não pôr, a gente não põe…
Almeida – É só falar.
Sérgio Ricardo – O cara foi castrado e apareceu na televisão. Vocês viram?
Almeida – Que é isso?!
Sérgio Ricardo – Um muçulmano que abusou de uma menina, sei lá se era moça ou mulher de alguém… E, de repente, ela estava lá olhando em uma praça pública, e os caras trouxeram o sujeito, botaram o pau dele pra fora e… “Vapt!”.
Almeida – Não foi cirúrgico…
Sérgio Ricardo – Você viu?
Almeida – Não, não, não! Não foi cirúrgico, foi na faca!
Sérgio Ricardo – Foi um facão, uma espada. “Vapt!” Você via o pinto pular pro outro lado… E o pinto bonito, rapaz… [ risos ] Pinto bonito é aquele que queríamos ter. Pô, coitado. Coitado do pinto! Mas o negócio de um cara ser decepado, a cabeça dele cai ali… Rapaz, ele vai se sentir ótimo, esse é que é o problema, isso que é engraçado. “Meu corpo!”… Ele vai ficar olhando o corpo dele.
Tacioli – Mas você tem uma relação com espiritualidade?
Sérgio Ricardo – Não. Há muito tempo, (tinha) casos de espiritualismo na família… Eu até acredito. Eu era uma espécie de… como é que se chama isso?
Cirino – Médium?
Sérgio Ricardo – Não, não era médium, era um doutrinador. O médium recebia um espírito sofredor. Taí uma certa contradição: minha função era conscientizar o cara que não sabe que morreu, por exemplo, que tinha recebido uma pedrada na cabeça, que ele tinha morrido, mas com habilidade porque senão ele não ia acreditar. Ele me avisavam: “Vai vir um cara assim, assim, assado”. Aí a gente esperava um pouquinho, descia o sujeito, que já via se contorcendo, e eu o tirava do negócio. Aí, depois de chorar ou de dar porrada pra caramba, ele começava a entrar naquele meu barato de ver coisas a parte e dizer “Poxa, mas que lugar lindo!”.
Tacioli – Mas você parou com isso?
Sérgio Ricardo – Parei, nunca mais fiz isso depois que me casei. Minha mulher era muito cética. Saí dessa e nunca mais retomei, mas tenho o maior respeito.
Almeida – Mas não é uma fonte de conforto existencial?
Sérgio Ricardo – Pra mim é quase uma realidade mesmo. Não carrego dúvidas sobre isso, mas admito que pode ser uma outra coisa também. Não tenho certeza absoluta nenhuma, nem mesmo desse episódio que aconteceu comigo. Não tenho certeza se é isso que vai acontecer quando estiver morrendo de verdade…
Tacioli – Sérgio, você foi comunista de se filiar (a partido)?
Sérgio Ricardo – Não, não, nunca fui de partido, não. Nunca me filiei a partido nenhum. Tenho as minhas contradições todas guardadinhas.

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Comunismo
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