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Entrevistas de música brasileira

Sérgio Ricardo

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Sérgio Ricardo

parte 10/12

Meu forte: trabalho com estudantes

Tacioli – Sérgio, tem um momento no livro que você diz que, com “Beto bom de bola”, se não tivesse rolado a história do violão no Festival de Música, você poderia ter caído no anonimato.
Sérgio Ricardo – Isso é verdade. Como caiu o Vandré num certo sentido… Bom, o Vandré, não, porque a música dele virou hino… [ n.e. “Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando)”, de Geraldo Vandré, 1968 ] Cantavam a música dele na sua ausência. Mas no meu caso teria pintado um anonimato total, como aconteceu com Sidney Miller [ n.e. Compositor carioca, 1945-1980, autor de “Pede passagem” e “A estrada e o violeiro”, gravadas por Nara Leão ], como ia acontecendo com Gonzaguinha, que a própria televisão ressuscitou, mas não com aquelas canções, (e sim) com outras coisas, e com outros caras, como o Théo de Barros… Cantores, então, nem se fala. Nunca mais se falou de Marilia Medalha.

Tacioli – Você tinha uma relação bacana com o Geraldo Vandré, não?
Sérgio Ricardo – Muito bacana.
Tacioli – Tem notícias dele?
Sérgio Ricardo – Não tenho nada, rapaz, só sei que ele está aqui em São Paulo. A última notícia de que tenho é triste; ele estaria com a barba desse tamanho, parecendo um mendigo. Não gostei nada do que eu ouvi. Mas ele não quer voltar pra cantar. Ele não canta enquanto o Brasil estiver assim… Deve ter alguma coisa estranha no meio dessa história que eu não arrisco dizer. Uns dizem que ele está mal da cabeça. Eu não acredito nisso. É uma posição que ele tenta manter. Se você disser que o Vandré vai fazer um show no Maracanã, no Rio de Janeiro, vem gente do Brasil inteiro pra vê-lo. Então, pô, ele vai acabar faturando. Um belo dia desses aí ele resolve e aparece. Agora, eu não tive essa repercussão de mídia do meu trabalho como tive com o violão quebrado e como teve o Vandré com essa música dele. A repercussão do meu trabalho está mais na atitude e (na relação) com os estudantes. Ficou uma memória que até hoje quando faço show aparecem os estudantes do passado. É uma festa.
Tacioli – Assisti a um show seu na Unicamp em 1994.
Sérgio Ricardo – Esse era o meu forte, meu trabalho com os estudantes.
Almeida – Em relação a cinema, você já deu seu recado?
Sérgio Ricardo – Não, não. Eu tenho dois filmes pra fazer e estou tentando ver como é que armo isso, porque o grande problema – falei agora há pouco pra vocês, do negócio do existencial, da capacidade, do cansaço, mas no fundo não é muito isso, não – é a dificuldade de se arranjar dinheiro pra fazer cinema. Cinema é negócio de milhões e milhões, e é difícil você conseguir o dinheiro pra fazer um filme. Consegue quem se atrelou a esse sistema de projetos e que sabe fazer isso, que abriu uma frente, uma turminha ou uma patota e tal que está com o dinheiro, que entra e sai do governo, vai (o dinheiro) pra mão deles e volta. Eu não entrei nessa panela, não!
Tacioli – Você não vai falar isso amanhã pro Fred Rossi, não é?
Sérgio Ricardo – Por quê?
Tacioli – Que você está com dois filmes aí na cabeça…
Sérgio Ricardo – Pois é, se eu falar isso ele… “Então, você vai fazer o seu filme e depois você volta!” [ risos ]
Almeida – Mas são ficções?
Sérgio Ricardo – São ficções. Uma é uma história do caso do Drummond de Andrade que eu gravei. Ele me mandou o único cordel que escreveu na vida, que é a história de João e Joana, que é uma obra-prima.
Dafne – (…) Que você fez o disco.

As duas edições do álbum Estória de João-Joana: de 1983 e 2000. Fotos: reprodução

Sérgio Ricardo – Eu fiz o disco. Aliás, esse disco está praticamente inédito, não sei nem como você sabe dele. A gente vai relançar esse disco pela Biscoito Fino, que tem Chico Buarque, João Bosco, está cheio de gente boa cantando. E eu fiz um roteiro pra cinema, já tinha sido escolhido pela Embrafilme, estava praticamente com o dinheiro no bolso quando veio o Collor e cortou o barato. Daí eu desanimei totalmente e não fui procurar os meios que foram inventados depois. Então, não entrei na panela e fiquei de fora dessa história. Aliás, esse é um dos grandes problemas que eu tenho na vida: a falta de reconhecimento. Não tenho mágoa disso porque é decorrência do fato deu estar pulando de uma coisa pra outra. O pessoal de música não fala muito de mim porque pensa que estou no cinema; o pessoal de cinema não fala porque eu fiz poucos filmes… cineasta ocasional, entendeu? Então eu não tenho lá a importância que eu poderia ter se eu fosse constante, e esse tipo de coisa me prejudica muito porque não sou citado em nada. Agora mesmo o próprio Fred Rossi fez aí uma agenda dos 50 anos da bossa bova e eu não sou citado. [ ri ] Ele me deu de presente o livro parecendo que estava me fazendo uma homenagem. Aí fui ver e digo: “Porra, não estou em lugar nenhum aqui! Vou falar com ele amanhã!”. [ risos ] “Que negócio é esse, rapaz, que perseguição!”
Almeida – E o outro filme?
Sérgio Ricardo – E o outro é o filme da remoção do Vidigal, que é uma história que eu vivenciei: fui morar no barraco pra fazer uma pesquisa sobre o “Zelão” – queria um levantamento do morro sobre comportamento, ver como era, pra fazer um roteiro sobre o Zelão. Mas logo que comprei o barraco, veio a (Fundação) Leão XIII, essa organização lá do Rio, e marcou pra derrubar (o meu barraco) junto com os outros porque o dono do terreno tinha vendido aquelas terras para um grupo milionário que iria fazer naquela orla marítima, ali do Vidigal, uns hotéis maravilhosos. Então tinha que remover todo aquele pessoal de lá. O prefeito e o governador levaram uma bolada pra poder liberar tudo. Aí começou a guerra. E nessa guerra eu tinha que estar ali pra ver como é que era. Acabei liderando a coisa: meu barraco virou sede da Associação do Moradores e a discussão era toda lá em casa. Botei o maior advogado do Brasil no negócio, o Sobral Pinto. Ele foi lá e acabou com a guerra. Mas o que a gente vivenciou ali é uma verdadeira história, que está numa peça que eu fiz, que é Bandeira de retalhos, e quero ver se faço esse filme.

Meu problema: a falta de reconhecimento!

Dafne – Isso aí é começo dos anos 90?
Sérgio Ricardo – Não, isso aí é 78. Eu tinha já feito o filme A noite do espantalho…
Dafne – Você está desde então morando lá no Vidigal?
Sérgio Ricardo – Com saídas, né? Fui morar em Niterói também… Eu aluguei o meu apartamento que fica no Vidigal e fui morar no barraco, aí aconteceu essa história. Voltei pro meu apartamento e o barraco acabou nas mãos de uma empregada que eu tinha, que tinha sido despejada da Rocinha. Acabei dando o barraco pra ela, que foi morar lá. Mas estou no Vidigal desde aquela época. Saí também, porque às vezes eu saio, alugo, e vou morar em outro canto, e depois volto… Nesses quase 30 anos eu fiz umas três ou quatro idas pra lá.
Tacioli – Sérgio, pode-se dizer que esse processo foi uma pequena revolução, né?
Sérgio Ricardo – É, inclusive foi considerada a primeira vitória do povo brasileiro contra a ditadura sem derramamento de sangue. Foi um negócio incrível! Tanto assim que o Papa, quando veio aqui, foi lá rezar uma missa e deixou um anel. [ n.e. Referente à visita do Papa João Paulo II à Favela do Vidigal em julho de 1980, quando entregou um anel episcopal ao padre Ítalo Coelho ]
Dafne – Quanto o Vidigal mudou nesses 30 anos?
Sérgio Ricardo – Bom, mudou pra pior, né? Mudou pra pior por causa do negócio da boca, mudou a mentalidade, alguma coisa cultural lá que mudou, porque mudou em todo lugar do Brasil. De repente, inventou-se esses bandos de… como é que se chama, traficantes e tal. O tráfico ficou estranho, porque o tráfico ali não se intrometia na vida de ninguém, pelo contrário, em outros tempos, até ajudava. Depois, quando o pessoal começou a querer conquistar as bocas, gente de outro lugar que vinha e conquistava aquilo ali, eram estranhos que ficavam no lugar, aí a coisa mudou de figura. Então, não há nenhuma relação da boca com a favela; a gente vive sobre uma égide deles. Ali a lei é sumária, e tanto assim que o Vidigal, como outras favelas, é um lugar de segurança absoluta, parece incrível isso. Se alguém estupra alguém, vem o cara do bando e mata e bota no lixo, lá na vala; se o cara rouba um automóvel é a mesma coisa; se apronta qualquer tipo de coisa que a reclamação chega na boca, no ouvido da boca [ risos ], aí acaba também na mesma coisa. Uma vez, o meu prédio foi invadido pela boca pra pegar um sujeito que tinha proibido os garotos de jogarem bola lá embaixo. Ele ameaçou um dos garotos: “Você não pode jogar bola aí senão te dou um tiro ou uma porrada”. Aí o garotinho falou pro pai dele e o pessoal da boca disse: “Pô! Vai dar tiro em quem?”. E foram lá… Não fuzilaram o cara porque não conseguiram encontrá-lo, mas vazaram o apartamento dele a tiro. Agora, quem estava lá dentro do prédio e ouviu aquelas explosões todas não se preocupou com nada, porque não era com eles. Sabiam que era uma vingança pessoal, não ia sobrar pra ninguém, não, era só aquilo ali mesmo.
Tacioli – (A conta) nem chegou no boleto do condomínio, né?
Sérgio Ricardo – Nada… [ risos ]
Tacioli – Mas qual a sua relação hoje com o morro?
Sérgio Ricardo – Na realidade, minha relação é apenas com o Nós do Morro [ n.e. Grupo de arte e cultura criado em 1986 pelo jornalista Guti Fraga ], assim mesmo uma coisa meio distante. Eu não quero me aproximar muito porque vai sobrar pra mim dar aula disso, dar aula daquilo, e eu não tô muito afim. Sou amigo do cara que inventou isso lá, o Guti. Às vezes me chama e “Pô, você não foi ver a peça?” e eu digo “Rapaz, estou muito ocupado…”. Dei essa peça pra ele ler, essa peça que eu queria que virasse filme, e ele até hoje também não me respondou, mas de qualquer forma minha relação lá é muito boa, o pessoal me conhece muito, embora esteja sendo ameaçado pelo condomínio do prédio! [ risos ]
Dafne – Pior que a boca.
Sérgio Ricardo – Porque tive um inquilino que não pagou o condomínio, puta meu, e estourou na minha mão. O pessoal foi embora e quando eu peguei o apartamento de volta tinha uma dívida enorme que eu estou tendo que resolver, mas vai dar tudo certo.
Tacioli – Se você soubesse antes, avisava a boca…
Sérgio Ricardo – É, pois é. [ risos ]
Tacioli – Bom, acho que é isso.
Sérgio Ricardo – Acho que já deu, né, compadre? Eu estou falando feito um doido aqui.
Tacioli – Viu só? A gente falou que era mais de duas horas.
Sérgio Ricardo – Puta que pariu.
Tacioli – Você ia se foder com os shows.
Sérgio Ricardo – Depois disso aqui fazer um show? Vê se dava, pensa bem… Imagina como é que eu já não estou aqui.

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