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Entrevistas de música brasileira

Sérgio Ricardo

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Sérgio Ricardo

parte 9/12

“Você sabe por que você não foi preso ainda?”

Dafne – Sérgio, talvez reforçada pelos 50 anos da bossa nova, há uma nostalgia desse período brasileiro do final dos anos 50, do JK, do desenvolvimentismo, da era pré-golpe, de um país que iria dar certo. Você tem nostalgia desse tempo ou desse país que parecia que tava indo pra algum lugar?
Sérgio Ricardo – Não sei se tanto assim, mas tenho uma certa nostalgia, sim, porque era um tempo bonito, era um tempo que parecia que o Brasil ia dar certo, tanto assim que nos encorajou a tentar corrigir os problemas existentes, porque enquanto Juscelino estava no poder parecia que o Brasil estava (indo bem)… Era a própria bossa nova, parecia que o Brasil era aquela coisa toda bonita, mas no fundo a miséria era profunda, o capitalismo estava avançando muito, o poder econômico dos Estados Unidos estava avançando em cima do Brasil, era um negócio terrível, e não se tinha muita medida do quanto isso era prejudicial. Somente o pessoal de esquerda que veio detectar essa história. Foi o Partido Comunista o responsável por essa detectação, que já vinha desde o Prestes, de não tapar o sol com a peneira. Na verdade, o Juscelino nos fez tapar o sol com a peneira. Então, se tem essa nostalgia, é de um tempo que parecia belo, mas ele era belo pra classe média; pra classe média estava tudo bom. Agora, pra classe C tava um problema. O certo é o seguinte: com a queda do Juscelino e a palhaçada do Jânio, a vinda do Jango parecia que ia consertar tudo, que tinha uma ligação muito boa com os estudantes e com Partido Comunista – não sei se com o Partido Comunista, mas com o espírito da transformação, da revolução. Em 64, depois do discurso dele na Central do Brasil, ficou caracterizado um pega pra capar pra valer. [ n.e. Conhecido como Comício das Reformas ou Comício da Central, foi realizado no Rio de Janeiro no dia 13 de março de 1964 em frente à estação ferroviária Central do Brasil, em que o Presidente João Goulart anunciou suas reformas de base. Pouco depois, como reação do empresariado e da classe média, foram organizadas as Marchas da Família, com Deus, pela Liberdade, para espantar o fantasma comunista. No dia 1o de abril daquele ano, os militares tomam o poder ] Estávamos com o Vianinha [ n.e. O dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, 1936-1974 ] no Teatro Opinião quando, de repente, subiu no palco um capanga pra falar em nome do Jango, dizendo que tinha um local onde poderíamos apanhar as armas para a chamada revolução que estava prestes a explodir. Aí foi esquisito porque ali só tinha estudante, ninguém sabia atirar coisa nenhuma, como é que ia pegar arma pra começar uma revolução? Ninguém estava preparado pra guerra, nem pra guerrilha, nem pra qualquer coisa. Todo mundo foi afundando na cadeira [ risos ], ficou um clima terrível. Aí o Vianinha, líder da massinha, subiu e falou com o cara: “Olha, realmente a gente não tá preparado pra essa coisa. A moçada aí é estudante!”. “Mas vocês não querem fazer a revolução?! As armas estão aí!” “Mas, peraí, como é que a gente vai pegar armas? Ninguém sabe mexer num fuzil, meu amigo. Não dá!” “Então, tudo bem, tudo bem!” Aí foi procurar a turma dele. Nessa mesma noite, aliás, o Lacerda mandou passar uma rajada de metralhadora na porta da UNE. [ n.e. Carlos Lacerda, 1914-1977, governador da Guanabara entre 1960 e 1965 e um dos incentivadores do golpe millitar de 1964 ] Por acaso, eu estava na porta com alguns amigos, e uma bala pegou na perna de um e ele caiu. Em mim, uma passou aqui e a outra aqui, não é possível, porque também poderia ter sido atingido. Foi um pega pra capar! Carlinhos Lyra e uma turma se descambou lá pro fundo da UNE, pularam o muro e foram embora. No dia seguinte, tacaram fogo dentro da UNE. Ficamos assistindo ao filme…

O Juscelino nos fez tapar o sol com a peneira

Dafne – Você já chegou a pensar o quão mal fez pro Brasil o período da ditadura militar?
Sérgio Ricardo – Se eu já pensei nisso?
Dafne – É. Se você já parou pra pensar…
Sérgio Ricardo – Claro, poxa se fez mal, fez um mal absurdo, rapaz, na cabeça do jovem, então, deus me livre! Os jovens daquela época… Qual é a média de idade de vocês?
Dafne – Os rapazes são de uma outra geração. [ referindo-se aos fotógrafos Jefferson Dias e Celso, ambos na faixa dos 20 e poucos anos ]
Sérgio Ricardo – Vocês estudaram durante a ditadura?
Tacioli – Eu nasci em 71.
Sérgio Ricardo – Durante a ditadura você estava estudando.
Dafne – Sou de 74.
Almeida – De 75. Peguei o (período do) Figueiredo…
Sérgio Ricardo – Vocês devem ter pegado uma fase muito ruim. Vocês se formaram em jornalismo, é isso, ou em alguma coisa parecida?
Dafne – Ah, não, faculdade já foi anos 90.
Sérgio Ricardo – Ah, bom, já era depois.
Dafne – A nossa infância foi no começo da Abertura.
Almeida – Eu era criança quando Tancredo morreu.
Sérgio Ricardo – Pois é, então vocês não pegaram. Vocês já são de outra geração. A geração dos anos 60 pra cá sofreu muito. Continuam existindo, evidentemente; sou de antes (desse período) e estou vivo. Tem muita gente viva aí que não fez coisa nenhuma depois. Eles provocaram uma alienação na estudantada muito violenta. Primeiro: ou prenderam ou mandaram embora uma porrada de professores que eram os “cabeças de ponte”. Então, dali pra o fim da ditadura, não houve condições de poder colocar a cabeça do estudante no lugar. Eu vi pelo próprio trabalho que eu fazia. Assim que pintou a ditadura, ali em 68, a partir desse espetáculo Sérgio Ricardo na praça do povo [ n.e. Dirigido por Augusto Boal ], comecei a ser muito perseguido pela censura. A minha música foi proibida no rádio, foi proibida na televisão. Em cada show que eu fazia tinha sei lá quantos caras do DOPS pra impedir que se cantasse essa ou aquela canção. E eu cantava do mesmo jeito, mas era proibida. Fazia meus shows com os estudantes, aqueles que ainda estavam conscientes da coisa, que eram vítimas da ditadura. E o meu show foi esvaziando. Inicialmente lotava, rapaz, você não faz ideia o que era um show meu com a estudantada na época de sessenta e tantos. Em 70 pintou uma meia casa. Daí pra diante começou a esvaziar, pararam de me chamar, ou seja, ficou claro que havia pintado uma certa alienação. A memória já tinha se esvanecido, porque estudante muda a cada ano, cada ano que saiam as boas cabeças, entravam cabeças mais ou menos e, daí pra frente, começou a esvaziar. Na hora em que a ditadura percebeu esse esvaziamento total de reação é que eles deixaram o poder, fora outros problemas que tinham pra resolver.
Tacioli – Mas qual foi seu pior momento na ditadura?
Sérgio Ricardo – Ah, foram os últimos momentos.
Tacioli – Mas qual foi o seu pior momento?
Sérgio Ricardo – Frente à ditadura? Ah, eu tive várias entradas, vários interrogatórios, e quase prisões… Uma certa vez um cara me disse: “Olha, você sabe por que você não foi preso ainda? Porque você quebrou o violão e esses caras adoram macho!”. [ risos ] “Esse daí deixa pra lá, não precisa prender, não!” Não sei se isso é piada, deve ser. Agora, disseram isso já uma vez, me garantiram que era isso, mas toda vez que eu aparecia no DOPS, pô, rapaz, era uma doideira, era cheio de ameaça, com aqueles detetives que pegavam e tiravam o revólver e batiam na mesa: “Tem que acabar com esses comunistas todos! Vou dar tiro nesses comunistas!”. A gente tinha que ficar calado e ouvir as barbaridades que eles tinham pra dizer. O pior momento foi num dia em que me chamaram no DOPS e recolheram todos os meus discos do Che Guevara, de uma gravação que eu tinha feito pro Che Guevara. Esse foi o pior momento…
Almeida – O que era esse projeto? Ou era somente uma música?
Sérgio Ricardo – Era um disco, compacto simples que tinha “Deus e o diabo…” de um lado tocado com guitarra elétrica, agressiva pra caralho, e do outro lado uma música que tinha feito pro Che Guevara, que era “Aleluia”. Esse disco foi recolhido. A primeira vez que vi um trabalho…, que você fica meio triste, tem uma sensação de impotência total, porque o disco está lá sendo muito procurado e, de repente, ninguém encontra mais o disco. E aí, uma das pessoas que foi também arguida, disse que viu ali no DOPS um quarto cheio desses discos.

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