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Entrevistas de música brasileira

Ritchie

Ritchie-940

Ritchie

parte 8/21

Não componho em português! Minha musa é inglesa!

Keka – A apresentação ao vivo de ontem foi para qual programa?
Ritchie – Para o do Jô Soares. Passou ontem mesmo. Foi muito legal. O som lá dentro é maravilhoso. Fiquei contente! Não faço o programa do Jô Soares há 10 anos. Na última vez que fui lá o som estava bom, mas não como o de ontem. Ontem estava realmente excepcional. É que a banda está muito boa e isso ajuda muito no som. A gente já sai bem. Estou muito orgulhoso da banda. Pessoas e músicos que admiro muito.
Roger – Você compôs todas as músicas do disco novo?
Ritchie – Todas, e todas são inéditas.
Roger – É fácil para você escrever em português?
Ritchie – Não. Eu não escrevo em português. [ri]
Keka – Somente em inglês?
Ritchie – Tudo em inglês.
Tacioli – Mas isso não influencia na música propriamente dita?
Ritchie – Sim, um pouquinho, na cadência. Mas é que a minha musa é inglesa. Eu não tenho nada com isso, é coisa dela. Ela que surge e raramente se apresenta em português. Já fiz letras em português, mas, na verdade, esse CD surgiu desse jeito porque eu não estava fazendo discos. Estava somente compondo por prazer. Então me dei ao luxo de terminar as músicas. Normalmente o que eu faria? Faria um monstro em inglês. Monstro no sentido de ser uma letra grande sem sentido, nonsense, meio como Red Hot Chilli Peppers, só que eles deixam isso como produto final e eu… [risos] Normalmente passo isso para o Bernardo [Vilhena], que é uma pessoa em que confio e que entende o que estou dizendo ali. Ele pega a cadência do rock, aquela coisa do… não sei se são oxítonas ou paroxítonas do inglês. Ele pega isso. Já acostumou, já tem uma maneira de falar em português aquelas coisas. Gosto muito do que fiz em português, mas fiz muito pouca coisa. A poesia não corre solta comigo quando componho em português. Eu me torno muito crítico.
Roger – Você não sente uma diferença grande entre uma música pop em inglês, em que você fala absolutamente qualquer coisa e é válido?
Ritchie – É. Aquela coisa Beatles, aquele nonsense. É como o Red Hot Chili Peppers. A música deles é genial, mas não consegui nada do que ele está falando. Entendo todas as palavras mas não consigo fazer um elo, um sentido entre elas. E é genial, porque você ter a coragem de brincar com essa coisa, que é uma manifestação quase da subconsciência. Na verdade, faz um sentido, sim, pra quem fez, e pra quem ouve, de certa forma, toma uma sonoridade. O Bob Dylan já falou, que uma música que não significa pelo menos três ou quatro diferente coisas para diferentes pessoas, não vale a pena você ouvir. É genial! Na verdade, a beleza está no olho de quem vê. A música funciona no ouvido de quem ouve, e não de quem faz.
Tacioli – Mas isso validaria qualquer tipo de letra.
Ritchie – Sim, mas é questão de inspiração. Juntar um monte de palavras do dicionário, não vai funcionar. Agora, se você entra em comunhão com sua musa… Sempre falo musa, mas existe mesmo, quem faz música sabe disso. É uma espécie de deusa, no sentido divino, que os artistas trazem dentro de sim. E se você está em comunhão com esse elemento, você pode falar se ela vai fazer sentido. Ela vem direto da emoção, não é somente uma questão de juntar um monte de palavras. Ela tem que ter algum significado, nem que seja sonoro. Oasis faz muito isso também. São letras que parecem que estão dizendo coisas, mas não estão dizendo coisa nenhuma. É um dom! Primeiro em fazer, segundo pela coragem em lançar aquilo e dizer que essa é a letra, não é um monstro, é a letra.
Roger – Você não acha que em português isso…
Ritchie – Em português isso é muito mais difícil fazer isso, porque a poesia em português é ligada a uma outra estética, muito mais literária, ela tem uma tradição mais literária, tem uma cadência musical completamente diferente. É uma das línguas mais musicais. Eu acho muito musical! Eu adoro cantar em português. Eu a-do-ro! Eu só não sei muito bem fazer espontaneamente as músicas em português, não porque eu não sei falar, é uma questão de poesia, de subconsciência, da alma. É uma coisa de alma, mesmo! A música pra mim – já falei isso – é uma experiência meio religiosa, uma comunhão. É difícil pra mim ser verdadeiro comigo em português. Às vezes eu acerto. Fiz algumas músicas, “Preço do prazer”. Da minha obra toda, eu tenho 70, 80 músicas gravadas, fiz apenas cinco com letras em português, o resto foi tudo feito por outros, principalmente pelo Bernardo Vilhena. E agora Erasmo Carlos, Alvin L., e outros mais…

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