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Entrevistas de música brasileira

Ritchie

Ritchie-940

Ritchie

parte 7/21

O meu erro foi dar muita importância às tecnologias

Monteiro – Você estava falando sobre o disco novo, que está mais rock’n’roll. Nisso a tecnologia é legal porque dá melhores recursos para captar tudo isso.
Ritchie – A gente usa tecnologia de ponta para gravar. Mas é o veículo e não o produto.
Keka – Na verdade, é somente uma melhoria.
Ritchie – Facilita muito a maneira de gravar, mas não interfere no jeito de fazer música. Você pode fazer uma música acústica, usar o pro tools para editar e o resultado ficar muito bom. Mas acho que o erro, se é que é um erro, nos meus trabalhos anteriores foi o de dar muita importância às tecnologias na hora de fazer música. De achar que seria uma salvação da música. Foi um engano. A gente se engana. Eu me enganei durante muitos anos.
Roger – Mas não foi um engano.
Ritchie – É, acho que fui até muito bem-sucedido no momento em que estava feliz com aquilo. Meu primeiro disco é um pop que funciona muito bem. Foi uma linguagem moderna da época, mas há outros discos meus que hoje em dia não consigo nem ouvir. A tecnologia está muito ali, não é uma coisa equilibrada.
Tacioli – Que discos?
Ritchie – [pensa um pouco] Pra ficar contigo [n.e. Polygram, 1988], que é o meu quinto disco, ou então o anterior, Loucura & mágica [n.e. Polygram, 1987], que tinha até uma música bem orgânica que fez até algum sucesso, “Transas” [n.e. Composição de Nico Resende e Paulinho Lima], mas o resto do disco era digital demais. Dói ouvir! Instrumentos digitais, Yamaha, sintetizadores. Na época a gente achava tudo isso lindo, maravilhoso. Hoje em dia dói ouvir, porque é limpo demais, não tem alma.
Tacioli – Ficou muito datado?
Ritchie – Sim, por causa disso. Por exemplo, esse disco [Auto-fidelidade], que tem influências dos anos 60, me parece ultramoderno. Não sou a melhor pessoa para julgar, mas me agradou muito mais. E é paradoxal porque fomos buscar influências de 40 anos atrás.
Roger – Mas é o que está acontecendo hoje, não?
Ritchie – É, você ouve essas bandas de hoje, Coldplay, Travis. Aliás, tô louco para ouvir o novo disco do Coldplay. Ouvi a música que está tocando nas rádios e achei linda. Eles são da minha escola, Chris Martin, no Sul da Inglaterra.
Tacioli – E Strokes?
Ritchie – Muito bom. Também super anos 60.
Keka – Strokes é uma unanimidade, né?
Ritchie – Strokes é muito bom, muito divertido. Só os fins das músicas já são fantásticos. [risos] É o antifim, né? Gosto também de White Stripes. É uma coisa muito louca. E gosto também de coisas mais tradicionais. Vocês conhecem um cara chamado David Gray? Nossa, que disco maravilhoso! Gravado no quarto dele. Violão, piano, voz e loops de bateria. Cada composição! O disco inteiro é uma obra-prima. David Gray. O disco chama-se White ladder [n.e. IHT, 1999]. É meio Van Morrison com Bob Dylan. O cara é irlandês. Nossa Senhora, é um discaço! Tô ouvindo coisas malucas agora. Há o disco novo do Pulp, We love life [n.e. Island, 2001]. É incrível! Eu estava falando do Scott Walker, que é um dos meu ídolos do começo dos anos 60. Ele era de uma dupla chamada The Walker Brothers [n.e. Na verdade, um trio formado por Scott Engel (Walker), John Maus e Gary Leeds, que eram californianos e não eram irmãos]… Fizeram aquela música [cantarola]… “You never close your eyes anymore / When I kiss your lips”… Acho que o Michael Bolton ou algum brega desses gravou recentemente, mas a original era do Walker Brothers, ou do Righteous Brothers. [n.e. “You””ve lost that lovin’ feelin””” foi lançada em 1965 pelos Righteous Brothers] Não me lembro quem gravou primeiro. Acho que os Righteous Brothers gravaram primeiro nos Estados Unidos e o Scott Walker e o irmão dele gravaram primeiro na Inglaterra. Enfim, mas ele era produtor dos próprios discos e tinha uns arranjos louquíssimos, tipo dez contrabaixos tocados com arco. E o Jarvis Cocker, do Pulp, foi buscá-lo e o convidou a voltar a produzir. Nossa, o disco é todo produzido por Scott Walker e tem um som completamente diferente de tudo o que você possa imaginar. Com aquela loucura do Pulp… O disco chama-se We love life, mas todas as faixas são sobre a morte. Suicídios, assassinatos, vontade de morrer, bichos atropelados por carro… [risos] É muito louco! É demais, demais. Há um verso que é lindo, em que ele fala sobre uma menina que foi assassinada violentamente. Aí ele canta pra ela. Chama-se “The night that minnie timperley died”. É sobre uma coisa que aconteceu mesmo, uma menina que foi raptada e assassinada. Tem um verso em que ele diz: “Minnie / If I could / I would give you the rest of my life” [n.e. Minnie / Se pudesse / Lhe daria o resto de minha vida”]. É demais! Acho que é um dos melhores versos de rock que já ouvi. É fantástico! As implicações do que ele está dizendo. Se eu pudesse, eu lhe dava o resto da minha vida. Isso é que é rock’n’roll! [risos, dá uma mordida no sanduíche] Desculpem-me, é que eu estou… [dá outra mordida]
Tacioli – Fique à vontade.
Monteiro – Prometemos não fazer mais perguntas nos próximos… dois minutos. [risos]
Ritchie – Falo pelos cotovelos. É que tem muita coisa boa… Tem o Elbow [n.e. Quarteto de Manchester que lançou o primeiro disco, Asleep in the back, em 2001, pela V2]. Coisa louca também, uma banda muito interessante. Da Inglaterra.
Roger – Na Grã-Bretanha, na Escócia e no País de Gales aparecem umas coisas muito esquisitas, muito boas.
Ritchie – The Alarm era de lá também. Eles já eram esquisitinhos nos anos 80. Tem muita coisa boa. Essas bandas têm muito mais possibilidades de, apesar de serem loucos, estarem no mainstream. Afinal, a cena alternativa é também mainstream. Mas tem muitas coisas maravilhosas. Ouvi Elbow pela primeira vez num desses dias. Fiquei maravilhado com a habilidade técnica. Tocam bem, são excelentes músicos… E que som louco! Que coisa louca! É muito bonito e muito diferente.
Roger – Tem o Gorky’s [n.e. Na verdade, Gorky’s Zygotic Mynci, formada em 1990]. É do País de Gales.
Ritchie – Gorky’s? Não conheço.
Roger – É impressionante. Os primeiros discos são uma espécie de folk galês.
Ritchie – Faz sentido.
Roger – Cantando em gaélico, com um tanto de referências que não dá para entender, não dá para saber que caminho estão tomando. É muito bonito.
Ritchie – Adoro essas coisas excêntricas.
Tacioli – Gorillaz?
Ritchie – Gorillaz é legal. O conceito, a idéia, o desenho animado como banda. Parece que, durante os shows, eles deixam vazar algumas silhuetas dos músicos.
Roger – Outro dia, vi um que era em 3-D. Quatro telões com um boneco em 3—D em sincronia. Muito divertido.
Ritchie – Engraçado que faz mais sucesso que o Blur. A banda de brincadeira do Damon Albarn [n.e. Vocalista do grupo inglês Blur, e um dos pilares do chamado Britpop] se deu melhor. É muito engraçado isso. Tem outras coisas muito legais como o Muse. É um trio. Tem um guitarrista muito louco, toca muito e canta maravilhosamente bem. Ele me lembrou muito o Jeff Buckley, que eu amava de paixão. Poxa, tem o pai dele, Tim Buckley. O pai dele tem um disco, Happy sad [n.e. Lançado em 1969 pela Asylum], que acho que é um dos meus discos prediletos de todos os tempos. O negócio era o seguinte: ele no violão acústico, violão de aço, vibrafone e baixo acústico. Essa era a formação da banda, sem bateria nem nada. E é impressionante! Um jazz meio folk. Os dois morreram tragicamente. O filho morreu afogado e o pai morreu de drogas ou eletrocutado, não me lembro qual. [risos] [n.e. Tim Buckley morreu de overdose de heroína em 1975, enquanto o filho Jeff afogou-se no Rio Mississipi em 1997]. Teve uma morte assim, digamos, rock’n’roll. [risos]
Flávio Monteiro – Devia ser uma faixa do disco do Pulp. [risos]
Ritchie – Devia mesmo. Mas o Muse me lembra muito o Jeff Buckley com aqueles vocais tresloucados e muito musical. Nossa, que coisa bonita, os arranjos e tudo mais. É uma versão mais hardcore do Jeff Buckley, mas me lembra muito a sonoridade dele. Hoje ele é ídolo de todo mundo, anos depois de ter morrido. Então, Muse, Elbow e Elvis Costello sempre! [risos] O novo do Elvis Costello é muito bom, bem gravado para caramba [pára e dá mais umas mordidas]… Deixem-me voltar.
Keka – Coma, por favor!
Ritchie – Não consigo parar de falar!
Dafne – Então, coma! [risos]
Ritchie – Cale a boca e coma! [risos] Hummm!

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