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Entrevistas de música brasileira

Ritchie

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Ritchie

parte 6/21

Fiz meu primeiro disco inteiro num Casiotone!

Roger – Vôo de coração é de 1983. Quando foi lançado, ainda não se sabia o que fazer com a música pop no Brasil. Todo mundo ainda tentava descobrir, procurando informações de fora. Acho que a Blitz já havia estourado.
Ritchie – A Blitz já havia estourado. O Lulu [Santos] ainda não, mas já estava em plena atividade com aquela música “De leve” [n.e. Versão feita por Rita Lee para “Get Back”, dos Beatles, lançada em Tempos modernos, Warner, 1982]. Ouvi aquilo e pensei, “Poxa, o Lulu conseguiu! Eu também posso conseguir”. E o Lobão teve essa mesma coisa… Trabalhávamos juntos e tínhamos essa coisa de querer que a música, o rock, vencesse no Brasil. Todas as gravadoras falavam que não daria certo.
Roger – E cantado em português!
Ritchie – Cantado em português. Isso era um novidade.
Roger – Essa era uma grande questão na época, né? Como você chega de Londres e emplaca “Menina veneno” em português?
Ritchie – Bem, levou 10 anos; não foi assim. Levou muito tempo até eu tomar coragem para cantar em português. Foi somente depois da minha ida a Londres, em 1980, para gravar com Jim Capaldi… Ele me convidou para fazer os arranjos vocais de um disco dele [n.e. Let the thunder cry, Carrere, 1981]. O Jim foi um dos meus ídolos de infância com o Traffic [n.e. Capaldi gravou em 2001 uma versão em inglês de “Anna Júlia”, dos Los Hermanos, com participação de George Harrison na guitarra]. Foi muito bom entrar no estúdio e trabalhar com essas pessoas… Simon Kirke, do Bad Company, Andy Newmark, baterista do John Lennon… Poxa vida, Steve Winwood… E ainda mais, essas pessoas estavam pedindo a minha opinião! Eu, totalmente inexperiente nos estúdios, e aqueles caras perguntando como estava o som da caixa. “Tá ótimo, tá lindo!” Aquilo foi essencial pra mim, porque voltei ao Brasil muito mais confiante das minhas capacidades. As pessoas que eram meus ídolos estavam interessadas na minha opinião e me chamavam para gravar seus discos lá em Londres. Pensei que talvez eu realmente pudesse conseguir viver de música. Inicialmente foi muito difícil… No Vímana eu cantava somente em inglês, mas sentia que estava cantando para as paredes. A gente até que tinha um following bastante grande. Tocamos no Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio de Janeiro, quase toda semana, para aquela platéia de mil pessoas que nos seguiam por toda parte. Mas eu sentia que quando cantava em inglês eles prestavam mais atenção nos outros integrantes. “Isso está errado, está errado!” [ri] Tenho que me comunicar melhor.
Monteiro – E eram composições em inglês? Você já compunha assim?
Ritchie – É, a banda já… compunhava? Compunha? Compunha! [ri] Todos juntos. Então, na hora de se fazer a música… Quem tocava guitarra fazia a parte da guitarra, quem cantava fazia a letra, e era assim que fazíamos… Mas eu só sabia fazer isso em inglês, e agradava.
Roger – Poucas bandas brasileiras faziam rock cantando em inglês.
Ritchie – É, pouquíssimas. Ou era instrumental ou… Havia o Terço, algumas assim, e os Mutantes. Mutantes! Mas eu não tinha muita confiança no meu taco. Estava sempre achando que iria ser substituído por alguém. Quando conheci o Bernardo [Vilhena] num show do Nuvem Cigana, que era um grupo de poetas do Rio de Janeiro, fiquei fascinado pela linguagem roqueira deles. Era como se fosse um show de rock, só que era de poesia. Mas havia todos os adereços do rock no sentido do improviso, da brincadeira, da mensagem, da linguagem de rua. Descobri o endereço e fui bater na porta dele. “Ô, Bernardo, toco numa banda de rock, mas não sei fazer letras em português direito”. Começou nossa parceria aí. Temos muitas músicas em conjunto desde essa época. Voltando de Londres, procurei o Bernardo de novo. Minha mulher havia feito uma viagem para os Estados Unidos e voltou com um Casiotone. Sabe o que é um Casiotone? É um teclado pequeno, de plástico. Você aperta um botão e faz uns barulhos [tenta imitar]. Umas teclas que dá para tocar somente com três dedos de tão pequenas que são. Fiz meu primeiro disco inteiro nessa porra! [risos] “Menina veneno”… só com três dedos [ri], totalmente qualquer nota, mas, ao mesmo tempo, a música pop não exige muito, a não ser uma boa idéia, e é tudo muito simples. Aquilo foi uma ótima maneira de colocar minhas idéias para os músicos que, eventualmente, iriam tocar comigo. Quando fomos ao estúdio, foi natural levar a coisa pra esse lado de teclados… A tecladaria invadiu a minha vida de um modo imprevisto. Nunca fui pianista, nunca aprendi a tocar piano. Eu arranhava um pouco de violão, tocava flauta, clarinete, oboé. Eu era sargento de bateria na banda militar do colégio. O piano nunca foi o meu instrumento e talvez isso tenha me fascinado. O piano é muito visual, é maravilhoso. É música em formato gráfico. É uma representação gráfica da música.

Roger – Isso é da época também, não?
Ritchie – Totalmente, essa coisa da tecladaria… Quando cheguei ao estúdio, lá estava o Lauro Salazar com um Júpiter 8. Achei aquilo a coisa mais maravilhosa do mundo e, aos poucos, fui seduzido por essa tecnologia. Montei um estúdio. Quero dizer, fiz sucesso com “Menina veneno” e montei um estúdio. Um dos primeiros estúdios digitais do Brasil. Inicialmente era um estúdio com essa tecnologia para fazer minha música, mas fui ficando mais fascinado com a tecnologia do que com a própria música. Acho que isso até se refletia em minhas composições, que passaram a ser arranjos maravilhosos de coisa nenhuma. [risos] Se o meu disco, hoje em dia, soa meio rock’n’roll, é, na verdade, uma busca da essência da canção, porque já esgotei aquilo que eu quero da tecnologia. Quero que a tecnologia seja usada por mim e não que ela me use. A gente usa tecnologia de ponta nesse meu novo disco, mas é um disco muito baseado no violão. Até me perguntam, “Por que o violão, Ritchie, você que é tão ligado em Internet, estúdio digital, e nessas coisas todas?”. Porque, quando faço os meus trabalhos de áudio interativo, fico 14 horas programando numa boa até o olho pipocar de vermelho de tanto olhar para tela. Então, na hora de fazer minha música, eu ia lá para sala e pegava o violão. A história desse disco é essa, o violão, rock’n’roll básico. Queria buscar minhas raízes de rock’n’roll anos 60. Comecei a ouvir de novo The Kinks, The Searchers, The Animals, Beatles, e é claro, Rolling Stones. E coisas até mais antigas como The Righteous Brothers, Helen Shapiro, Dusty Springfield… Coisas anteriores aos Beatles, mas muito fascinantes. Dave Clark Five. E agora, com Internet, é maravilhoso. Você vai lá e ouve essas coisas todas. Gostaria de frisar que só uso a Internet para ouvir o que está fora de catálogo! [risos] É importante dar esse recado porque tem uma atitude meio estranha da garotada de hoje que nasceu com a Internet. Eles acham que é um direito. Sou super a favor da Internet como um meio de divulgação e até mesmo essa coisa de baixar é genial. Mas desde que seja acompanhada por uma consciência de que você está pegando o patrimônio de uma pessoa, cujo trabalho é aquele. É complicado esse momento. Gente, vou dar uma mordida aqui. Posso?

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