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Entrevistas de música brasileira

Ritchie

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Ritchie

parte 5/21

Cantei no coral da igreja protestante

Monteiro – O que você imaginava que era o Brasil nos anos 70? Havia alguma idéia?
Ritchie – Ah, muitas. Tom Jobim, claro. “The Girl from Ipanema”… Quem não conhece? Conheci também, quase na véspera de vir para o Brasil, o trabalho do Gilberto Gil e do Jorge Ben. Musicalmente, havia essas coisas, porque eles era bem divulgados em Londres. O Jorge Ben, principalmente. Talvez ele fosse mais conhecido em Londres que no Brasil, na época. Ele teve uma época de ostracismo aqui e lá todo mundo sabia quem ele era. Conhecia isso. Não sabia nada sobre o Brasil, sobre o carnaval. Não sabia de nada. Namorei uma menina brasileira em 1971. Ela tinha coleções daquela revista… Fatos & Fotos? Era alguma coisa da Manchete. Havia fotos do Carnaval. “Nossa, caramba, que loucura!” [ri] “Que loucura! Que negócio é esse?”
Roger Carlomagno – Então, você já tinha relação com música antes de vir ao Brasil?
Ritchie – Sim, sim. Na verdade, relação com música tenho desde os 5 anos. Meu avô era músico de ragtime e tinha uma banda, em 1914, chamada Mr. Zipp’s Jazz Band… Aliás, a foto da banda dele está na contracapa do meu segundo disco [n.e. E a vida continua, Epic/Columbia, 1984]. Passei muito tempo da minha infância com os meus avós na Escócia, até mesmo quando estudava em escola interna na Inglaterra… O meu pai era militar e vivia em vários países diferentes… Só podíamos viajar duas vezes por ano… O Exército pagava somente duas viagens por ano. Nas férias de Páscoa eu nem via meus pais. Ia direto para a Escócia ficar com meus tios e meus avós. Meu avô foi a primeira pessoa que me estimulou a gostar de música. As músicas que eu ouvia dele, quando eu mal conseguia andar… Ele tocava ragtime, stride piano [cantarola um música do avô]… Ele tinha uma vitrola de cilindro de cera e, com 5 anos de idade, comecei a cantar no coral da igreja protestante. Minha família tem uma ligação forte com música sacra. Meu tio-avô era John Kible, um dos fundadores do movimento de Oxford, um movimento religioso que rompeu com certos setores da igreja católica. Esse é um papo chato… Minha família tem essa tradição. Esse meu tio-avô era compositor de hinos. Aliás, os hinos dele são considerados – não por mim, mas por experts – como alguns dos mais belos já feitos na música sacra inglesa. Enfim, há essa herança na minha família, essa musicalidade do lado da minha mãe. Meu pai era um regente frustrado que ficava regendo o dia inteiro em frente ao rádio, sem o menor conhecimento de como seria. Mas ele era um amante da música e sempre me expôs à música. Como corista, cantei diariamente dos cinco aos 19 anos. Todo santo dia da minha vida! Então, todo meu conhecimento de harmonia é bastante intuitivo e vem do canto coral. Fui soprano, contralto, tenor, barítono, baixo. Toda minha noção de harmonia vem dessa época. Com 15 anos ouvi – aliás, antes, com 10 ou 12 anos – Beatles. O primeiro compacto deles ganhei no Natal, “Love me do” e “Please please me”. Caí para trás, assim como todo mundo na minha idade. Aquilo foi uma revolução enorme na minha cabeça. [ri] Só cantava música sacra e clássica. Fui solista aos 12 anos de soprano. A gente viajava pelo Sul do país [Inglaterra] cantando nas abadias e catedrais. Eu cantando, meu professor tocando clarinete e o cravista da escola também. Então, cantei muito… Tenho até uma gravação disso em casa, uma gravação que consegui resgatar de uma fita de rolo monofônico da época. Eu cantando aos 11 anos de idade uma música do Schubert, “The shepherd on the rock”. Consegui fazer uma digitalização dessa fita há pouco tempo e veio aquela voz de tantos anos atrás. Nossa, quase 40 anos atrás! Sempre tive essa ligação. Com 15 anos montei minha primeira banda de blues. Eu tocava contrabaixo. Era um purista! Só ouvia Lightnin’ Hopkins, Sonny Terry, Robert Johnson. Puxa, tantos maravilhosos. Tive uma outra fase em que ouvia Wilson Pickett, Otis Redding. Então, minha formação musical é das mais ecléticas. Mas, ao mesmo tempo, sou um músico intuitivo. Não sou muito apegado ao estudo teórico. A música nasceu dentro de mim. Sempre fui muito amparado pela música. Nunca entendi porque tem que se escrever música. Música não é o ouvido da gente? Então, por que tenho que saber ler mosquitinho, se a música está viva dentro de mim? Sempre fui muito preguiçoso com esse lado técnico da música, porque a música pra mim é como respirar, é muito natural, sempre foi. E tive privilégio de ser exposto a todos esses gêneros musicais. Isso fez algum sentido dentro de mim. Ao mesmo tempo, sou uma pessoa apaixonada pela música pop, aquela coisa de 3 acordes… Sou fascinado pela versatilidade dessa coisa inesgotável, e dessa coisa efêmera da música pop de atingir a gente como se fosse perfume. Anos depois você passa no lugar e sente aquele perfume e lembra de tudo. A música pop tem esse dom de transportar a gente para momentos felizes e infelizes da vida. Não acho que a música pop seja eterna. Gosto mesmo dessa coisa descartável! [ri] Engraçado que fiz uma música, que acho que é a mais descartável da minha carreira e, 20 anos depois, ainda se fala nessa música… [n.e. Sobre “Menina veneno”] Por um lado me agrada muito, porque sempre quis cair na boca do povo. Somente não imaginei que seria em um país tão distante de casa como o Brasil.

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