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Entrevistas de música brasileira

Ritchie

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Ritchie

parte 4/21

Queria tocar flauta como o Pixinguinha

Tacioli – Você ouve samba e choro?
Ritchie – Eu gosto muito de choro. Sou muito ligado… Benedito Lacerda, Pixinguinha. Houve uma época em minha vida em que eu somente ouvia os chorões. Tomava aula de flauta com o Paulo Moura. Queria tocar flauta como o Pixinguinha. [ri] Quem diria? Tô brincando. Queria entender mais sobre essa maravilha.

Houve uma época em que trabalhei com A Barca do Sol… Nosso padrinho era o Egberto Gismonti, que foi meu aluno de inglês durante muitos anos, antes de ir para os Estados Unidos e estourar com o Herbie Hancock e aquela coisa toda da Academia de Danças. Foi uma influência muito forte… Eles me ensinaram muito. O Jaques Morelenbaum também era da banda. Convivendo com eles, aprendi muito sobre música brasileira nessa época. O Egberto e o Paulo me mostraram muita coisa. E era genial porque nossas aulas eram uma espécie de trading; não corria grana. Eu tomava aula de flauta com o Paulo [Moura] e dava aula de inglês para pagar minhas aulas. Era bom para todo mundo. Com o Egberto foi a mesma coisa. Anos depois, fui dar aula para Gal Costa, mas já foi na escola Berlitz. Era diferente. Mas sempre fui fascinado por essa coisa. Tem um disco do Turíbio Santos, Choros e valsas do Brasil [n.e. Na verdade, Valsas e choros, de Turíbio Santos e o Conjunto Choros do Brasil, Kuarup, 1979], que é lindo! Garoto. Ernesto Nazareth. Pra mim, isso é o supra-sumo da música brasileira! Pra mim, né! Eu não digo que seja, necessariamente, a melhor coisa, mas é a coisa que mais me toca. Talvez por essa herança dos ritmos já assimilada. O choro, numa época, era chamado de tanguinho. E tem essa coisa da polca. É curioso… O Luiz Paulo Simas, que era o tecladista do Vímana [n.e. Que significa disco voador em sânscrito] – uma banda que tive nos anos 70 com o Lulu Santos e com o Lobão -, foi morar nos Estados Unidos e se especializou em choros modernos. Ele escreve… [uma funcionária do hotel chega à mesa trazendo um sanduíche com batatas fritas e um suco de laranja]… Vocês não vão filmar isso, vão? [risos]
Keka – Está bonito! [risos]
Ritchie – Tá bonito? Olha então… hummmm! [risos] Por favor! [dirige-se à funcionária do hotel] Preciso assinar alguma coisa?
Funcionária – Não, já está anotado.
Ritchie – O.K., tudo bem… Mas ele foi para lá… É um pianista muito competente. No Vímana, ele fazia uns chorocks… Choro, mas com um ritmo mais acelerado. Logo que ele foi tocar nos Estados Unidos foi muito difícil. Hoje em dia ele é headliner de festivais de polca e ragtime! Veja só, tocando chorinho! Chorinho contemporâneo no piano. A ligação é forte. Não é só uma questão de afinidades eventuais. Há uma afinidade entre a polca, o ragtime, o jazz do começo do século XX e o choro. Essa idéia do improviso dentro de um formato popular vem direto do jazz. É muito interessante essa conexão e todas as conexões da música brasileira. O xote vem do schottish reel, que é uma dança escocesa. Fiz uma pesquisa em 1994, ligado a esse trabalho de MIDI que faço… Eu fazia por interesse na tecnologia… Eu e o Alfredo Dias Gomes – meu vizinho no Rio, ótimo baterista e filho do Dias Gomes – fizemos uma pesquisa sobre ritmos brasileiros. Bolamos um produto para músicos: uma espécie de cadastro dos ritmos brasileiros. Começamos no afoxê e fomos até ao xote, em ordem alfabética. E fizemos um disquete – na época era um disquete – dos ritmos brasileiros para que o músico pudesse usar como clip art. Digamos que você é músico nos Estados Unidos e gosta de música brasileira, mas não tem acesso a um ritmista… Você pega esses arquivos MIDI – cada arquivo tinha 32 compassos apenas, mas evoluía em grupos de 4… Você tinha 4 compassos de um samba straight, simples, sem embelezamentos. Aí, o segundo teria uma evolução dos pandeiros ou qualquer coisa. O terceiro já teria intervenções de cuíca, ou não-sei-o-quê. No quarto, você já teria a escola toda, ou pelo menos, simbolicamente. Em 4 compassos. Você pegaria isso e, digamos, que quisesse o ritmo do pandeiro e não outro… Então, você iria lá, cortava e colava. Foi um produto surpreendentemente bem sucedido. Foi feito em 1994. Estamos em 2002. Se você abre a revista Keyboard Magazine vai encontrar esse produto à venda por reembolso postal. Foi um projeto que fizemos meio por curtição, meio por encomenda, pois eu já estava fazendo um semelhante para o meu próprio uso. O tecladista do Steve Hackett, que estava aqui no Brasil, foi em casa – o Steve queria mostrar o solo de “Vôo de coração”. Fiquei muito honrado, porque ele disse que foi o melhor solo que ele já gravou na vida. E é incrível, porque esse solo foi gravado em um porão da Warner. Não queriam ceder um estúdio, não queriam saber da minha música nessa época. E o Liminha – hoje, presidente da Sony – era produtor do [Gilberto] Gil e ainda um reles produtor ou assistente de produtor. Ele queria muito que eu fosse para Warner e não conseguia convencer ninguém… Mostrava “Menino veneno” e todo mundo falava que essa música não daria certo nunca… [ri] “’Menina veneno’? Esse gringo, cantando com sotaque? Isso nunca vai dar certo no Brasil!” E não foi o único, não foi somente a Warner. A EMI… Enfim, a gente estava gravando lá… O Julian [Colbeck, o tecladista], tinha um estúdio de MIDI, falou, “O seu estúdio é igualzinho ao meu! Tem os mesmos instrumentos, a mesma preocupação em não usar somente uma marca de instrumentos, em tentar timbres de várias procedências”… Houve uma identificação imediata ali e ele disse que tinha uma empresa que produzia softwares, os disquetes de música… O Bill Bruford, do Yes e do King Crimson, um baterista que admiro muito, fez o de bateria. O Steve [Hackett] fez o de guitarra… O cara que toca com o The Who fez o de piano. Como é o nome dele? Esqueci. Enfim, ele tinha esse sistema para músicos em formato MIDI e estava louco em fazer alguma coisa brasileira. Aí, me perguntou se não queria produzir. Falei que era engraçado porque eu estava justamente fazendo alguma coisa assim com ritmos brasileiros. Inicialmente ele queria fazer somente bossa nova. Foi uma bela coincidência. E falando em coincidências, foi o Julian [Colbeck] que foi ao escritório do Thomas Dolby, na Califórnia, e me ligou no dia seguinte: “Ritchie, você vai ficar feliz em saber. O Thomas está usando o seu disquete para testar uma nova ferramenta de áudio interativo que ele está desenvolvendo. Chama-se Beatnik”. Foi aí que me interessei por Beatnik. Quero dizer, está tudo interligado de alguma forma. É engraçado… Minha vida é cheia de momentos incríveis de sorte e coincidências impressionantes. Sabe, como o dia em que eu estava em Londres, gravando um disco, em 1972, e entraram três brasileiros: Rita Lee, Liminha e Lucinha Turnbull. Lá pelas tantas eles me convidaram pra pintar na casa deles. “Onde é isso?” “É lá no Brasil.” “Brasil? América do Sul?” “É, pinta lá em casa.” Acabei aparecendo. Eles tomaram um susto danado. Você veio mesmo? Ué, mas vocês não convidaram? [ri]

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