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Entrevistas de música brasileira

Ritchie

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Ritchie

parte 3/21

O rock and roll já tem uma cara brasileira

Keka Reis – Você disse que esse “jeitinho bom” também engloba a música, o improviso…
Ritchie – Ah, sim. Esse é o país da música. O Brasil é o país da música. Você passa em uma obra e todo mundo está batucando. A música é um elemento essencial para a vida do brasileiro. O carnaval é uma manifestação cultural e musical das mais coloridas do mundo. A música brasileira foi, e sempre será, muito instigante e cheia de nuances extremamente originais. O samba, a bossa nova e até mesmo o rock’n’roll que, hoje em dia, já tem uma cara brasileira.
Keka – Que cara é essa?
Ritchie – É a cara do Brasil. É difícil definir isso, mas acho que evoluiu muito. Houve a Jovem Guarda, que era absolutamente calçada nos artistas de fora. Aos poucos isso foi se tornando mais brasileiro. Nós, dos anos 80, quando surgimos, fazíamos também um som que era muito espelhado naquilo que se fazia lá fora. Aí vieram as bandas de Brasília e tomaram seus lugares. Começaram a falar do país. É isso que quero dizer! Tomou uma cara própria, embora o rock brasileiro ainda seja muito derivativo do que se faz lá fora. Mas o rock é isso, uma linguagem internacional. Não é um ritmo de algum lugar. Se faz rock de qualidade na Suécia, na Dinamarca, até na Itália e na França. É uma linguagem universal que toca os jovens de todo lugar do mundo. Mas acho que aqui o rock tem uma cara especial. O trabalho de muita gente aqui, que soube respeitar suas raízes, sem essa coisa cafona de colar um ritmo sobre outro. Está saindo uma coisa mais sui generis, mais original, com toques interessantes. Gosto muito, pessoalmente, das bandas que estão vindo do Norte e Nordeste. Bandas como o Catapulta, o Lampirônicos… Bandas que pegam o baião e outros ritmos nordestinos, que talvez sejam os mais roqueiros de todos os ritmos brasileiros. Adaptam-se muito bem a isso. Os próprios Raimundos, que tem um enfoque um pouco mais debochado. É muito interessante essa mistura do baião com o forró e o rock. O forrock, como chamam. Tenho um pouco de implicância com determinados híbridos musicais. Por exemplo, o pagode. Esse casamento dos infernos [risos], entre o samba de fundo de quintal e a tecladaria. Isso me dá uma angústia terrível. Mas, por outro lado, o samba de fundo de quintal do Zeca Pagodinho é maravilhoso. Isso é absolutamente genial! Isso é verdadeiro! O chorinho! O chorinho é um dos gêneros musicais mais geniais do Brasil. Sempre fui muito fascinado por essa coisa, que também é um híbrido… O tango misturado com a polca, misturado com não-sei-o-quê, que deu origem a esse negócio maravilhoso, tão sofisticado. É uma música muito sofisticada e, ao mesmo tempo, ingênua e simples. Música popular instrumental! Que outro país do mundo tem isso?

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