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Entrevistas de música brasileira

Ritchie

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Ritchie

parte 2/21

Sou um Macfanatic total!

Monteiro – Pelo ritmo de trabalho do disco novo, esse xodó tecnológico vai ter que esperar…
Ritchie – Vai ter que esperar. Estou muito satisfeito. É importante agarrar esse momento. Não é todo dia que se recebe um convite para voltar a gravar com 50 anos. Estou muito feliz. Feliz por estar fazendo esse trabalho, e feliz por ter feito, talvez, o melhor disco da minha carreira. Sem querer querendo.
Monteiro – Você já havia desistido, já havia jogado a toalha?
Ritchie – Não, não jogo a toalha, nunca! Não é isso. Sempre faço música, mas somente não estava fazendo discos. Nesse sentido, quem jogou as toalhas foram as gravadoras que não quiseram mais me contratar. Sempre fiz música. Música pra mim é uma religião. Tenho que rezar todo dia, tenho que tocar todo dia. Não tem essa coisa de largar. A música não me larga e eu não consigo largar a música. E, até mesmo, essa área em que eu atuo, de Internet, é sempre ligada a assuntos musicais. Eu gosto de programar em Dynamic HTML, essas linguagens de programação, mas o que mais gosto de trabalhar é com o som interativo. A Internet é um veículo que me parece pronto para assumir a liderança de todas as mídias. Tudo (televisão, rádio, disco) vai convergir para uma mídia só, e é claro que vai ser uma mídia que evolui da Internet. Quero fazer parte disso. Quero entender isso. Minha busca na Internet não foi uma fuga da música, foi uma tentativa de me aproximar do novo futuro da música. Saber como lidar com isso, nem que seja com música dos outros. É uma coisa muito fascinante para mim… Eu fui mordido pelo bug da Internet, como todos nós fomos. Hoje em dia quem está ainda criando na Internet , na verdade, são as pessoas que vão levar o negócio para frente. Houve toda aquela implosão das ponto com… E o próprio Beatnik, a empresa que eu trabalhava com o Thomas Dolby, foi afetado por isso.
Monteiro – Foi uma seleção natural, também.
Ritchie – Seleção natural, sim. Todos acharam que a nova economia iria salvar o mundo.
Monteiro – E muito especulador também, já que somente queria fazer dinheiro.
Ritchie – Justo. E não pensou em como tornar isso um modelo viável de negócios. Tudo bem você sonhar e ter capital entrando para investir, mas há uma hora em que aquilo tem que dar lucro. A dificuldade da Internet ainda é, pelo que é o que me parece, o e-commerce, que ainda não está muito… Foi uma boa idéia que ainda não se conciliou. Mas vai acontecer algum dia, por uma questão de demanda, também. A Internet evoluiu muito em relação à demanda de serviços. Quem se interessou pela Internet, invariavelmente, se envolveu na criação. Mas o que faltou foi um público consumidor daquilo.
Monteiro – É. E aqui no Brasil pouca gente tem computador em casa. Internet, muito menos.
Ritchie – Banda larga nem se fala, né?
Monteiro – Mas é uma país talhado, principalmente, para o e-commerce. Você chegar no Amazonas com discos, já que não há uma loja legal por lá…
Ritchie – Quando ainda existia uma desconfiança no mundo todo sobre a viabilidade do e-commerce, para o brasileiro foi muito claro que esse sistema se deu muito bem por aqui. O brasileiro abraça a novidade com muita facilidade e tem esse dom do domínio das novas tecnologias. Tem muitos brasileiros entre os bons programadores no mundo. O que a Microsoft contrata de brasileiros para trabalhar lá fora é impressionante! Só para citar um exemplo. Não estou dizendo isso como… Não tenho nada com a Microsoft [risos], nunca uso os produtos deles. Sou um Macfanatic total! Fui do Atari direto para o Macintosh. [risos] Meu mundo é isso, nunca me dei muito bem com o mundo do Bill Gates. [ri] Mas é um exemplo de uma empresa bem-sucedida, que contrata gente. Há muitos brasileiros lá. Os brasileiros têm um talento incrível para lidar com a mecânica, essas coisas… O brasileiro é muito talentoso. O porteiro, que nem carro tem, sabe consertar o carro. É um dom e isso se estende a novas tecnologias. É fascinante esse facilidade de aceitar o novo. O resto do mundo tem muita dificuldade de lidar com isso. É coisa de país novo, uma energia nova para buscar soluções para suas dificuldades. Na música, também há isso. Lembro quando Steve Hackett – guitarrista do Genesis, que tocou em “Vôo do coração” e em outras músicas, e fez uma música comigo, “A mulher invisível” – veio para cá. Gravamos pela primeira vez em 1983. Ele ficou muito fascinado com a habilidade do engenheiro de som, porque sabia mexer na mesa e ainda consertar o módulo quando dava errado, fazia montagem com uma técnica de gravação fantástica. E o Steve… “Lá na Inglaterra há um cara que faz a manutenção, outro que mexe no módulo e ninguém sabe o que cada um sabe fazer”. O brasileiro tem esse dom… Talvez por necessidade mesmo ou por falta de segmentação da indústria. Você tem que saber trabalhar não somente na sua área, mas também saber consertar sua máquina, saber lidar com a falta de peças, improvisar. O brasileiro tem esse dom da improvisação e da genialidade. Fico sempre muito fascinado com isso. É algo que você não encontra lá fora. Você pode ter todas as tecnologias e as possibilidades de se evoluir dentro de uma determinada disciplina… Lá tudo é segmentado, cuidam somente de uma parte. Aqui, não.
Tacioli – O cara se atreve.
Ritchie – Aquele jeito brasileiro de resolver as coisas. É ótimo. Não estou debochando disso, estou falando do jeito no bom sentido, porque tem o “jeito mal” também, que a gente sabe, que é aquele que estão usando para resolver os problemas do nosso país. [ri] Mas vamos ver se alguma coisa vai acontecer agora de bom.
Tacioli – Você não chegou a se naturalizar?
Ritchie – Não, não me naturalizei. Não porque não queira, mas é que não precisei. Sou casado com uma brasileira, meus filhos são brasileiros. Eles têm dupla nacionalidade, o que é bom para eles. Vão poder escolher onde namorar, onde trabalhar. A única vantagem da naturalização, na verdade, é o poder votar. Hoje em dia gostaria de ter uma participação cívica maior. Tenho 30 anos de Brasil, está na hora de participar de alguma forma, não somente pela música. Mas, até há pouco tempo, eu não me sentia atraído em votar, não havia ninguém, não queria. Hoje em dia já acho que seria interessante. A gente tem que participar mais, né? Mas não vai fazer grande diferença a minha participação ou não no voto. [risos] É um pouco de preguiça, uma burocracia enorme. Você não sabe a burocracia que é para se naturalizar. Já consegui o cartão de permanência. Não é uma coisa que me preocupa quando acordo. Estou preocupado com outras coisas. Mas eu me sinto brasileiro, não seja por isso. Sou brasileiro por opção, o que talvez me torne mais brasileiro do que os brasileiros. Não quero ser arrogante com isso. Quero dizer, adoro esse país, adoro esse povo maravilhoso, essa espontaneidade, esse clima maravilhoso. [ri] Deus me livre voltar para Londres com aquela miséria climática, aquela chuva que não chove nem molha. Aquele frio! Tô fora, tô fora. Completamente. [ri]

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