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Entrevistas de música brasileira

Ritchie

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Ritchie

parte 20/21

Um astrólogo disse que meu futuro é ser crooner de orquestra!

Tacioli – Sua formação é erudita, de música sacra, foi flautista…
Ritchie – Na verdade, eu me ensinei flauta. Tomei aulas de oboé, clarinete… Como eu disse, nunca fui muito dedicado. Quando era para estudar clarinete, eu queria tocar guitarra. Sempre fui um pouco rebeldinho. Mas a flauta não foi ensinada.
Tacioli – É isso. Não sei se tem muito a ver, mas queria saber se já passou pela sua cabeça fazer uma sinfonia, como o Paul McCartney?
Ritchie – Fui em um astrólogo um dia desses e ele me disse que meu futuro era ser crooner de orquestra! [risos] Perguntei, “Você tem certeza?”. E ele, “Te vejo assim”. Que curioso, nunca me imaginei nessa situação. [ri]
Monteiro – Pode estar pintando então o Acústico MTV. [risos]
Ritchie – O Acústico MTV? [ri] Olha, tudo pode acontecer. Não sei o que a gravadora está pensando. Há uma cláusula no meu contrato que diz que um desses 3 discos que vou fazer será ao vivo.
Todos – Xiiiiiiiiiii. [risos]
Ritchie – Já viu, né? Mas vai acontecer, é natural. O João Augusto está louco para pegar esse catálogo para a Deck Disc. Sou editado pela Deck. Quero dizer, tenho minha própria editora, a Pop Songs, mas é administrada pela Deck. Mas seria legal. Eu poderia regravar “Menina veneno” em um disco ao vivo. No meio de uma série de músicas inéditas. Por que não, agora que exorcizei essa coisa da volta ao disco? Fiquei muito satisfeito com esse CD somente de inéditas. Vejo com bons olhos isso. Principalmente depois dos ensaios em que tenho tocado essas músicas. Tenho tentado trocar o vestido da Menina Veneno. Ela está bem, está bonita! Madura. Acho que se as pessoas ainda tem curiosidade, merecem ouvir. E por que não? O João [Augusto] merece também por ter apostado em mim. Acho que seria bonito fazer o próximo ao vivo. Não sei se seria acústico ou em outro formato, mas tenho vontade de gravar um disco ao vivo. O que eu queria mesmo era gravar um disco com músicas dos anos 60. “Days of pearly spencer”, do David McWilliams. Coisas obscuras assim. Sei que é meio cantar para as paredes, cantar pra mim mesmo, uma punheta musical, né? Mas tenho vontade de fazer alguma coisa nesse sentido. Porque, quando canto essas músicas, lembro-me de quem eu sou, de onde vim e o que me moveu a fazer música em primeiro lugar. Esse disco [Auto-Fidelidade] tem um pouco disso. É uma tentativa de buscar aquela emoção de ir à loja de discos aos sábados e comprar todos os discos da parada e as partituras para tocar ao violão. Foi um dos maiores prazeres da minha vida esses sábados de manhã. A novidade daquela música que está tocando, aquela sensação que uma boa música pop lhe dá. Não há profundidade, é cutânea, superficial, mas é um calor pelo corpo todo. Um ‘joie de vivre’ [alegria de viver]. Esse é o momento mágico que busco em minhas humildes canções. Queria que as pessoas sentissem, com a minha música, o prazer que senti ao ouvir Beatles. Quem sou eu? Mas é isso que busco. Essa é a minha ambição. Tenho uma vontade enorme de fazer um disco assim. Sei que, aqui no Brasil, precisaria ser em português. De repente, faço um disco com interpretações de grandes clássicos brasileiros, somente. Consigo me ver fazendo isso. Quem sabe até com orquestra. [risos]
Almeida – Não está tão distante, então.
Ritchie – Não, não. Acho que os sonhos se realizam e somos influenciados pelas coisas. Estava vendo outro dia essa música dos Titãs…
Keka – “Epitáfio”. [n.e. Composta por Sérgio Brito e gravada no álbum A melhor banda de todos os tempos da última semana, Abril Music, 2001]
Ritchie – “Epitáfio”. Estava lá numa sessão de fotos com eles e todos os outros indicados para o VMB. “Lágrimas demais”, meu primeiro clipe para a MTV, foi nomeado na categoria de melhor fotografia. Fiquei muito feliz com isso. Então, estava falando com o Paulo Miklos, “Parabéns pelo filme e tudo o mais. Muita coragem fazer essa música depois da morte do Marcelo [Fromer].” E ele disse que não, que o Marcelo Fromer havia ajudado na música, que foi feita antes. Aí começamos a falar sobre como a música é profética. E quando baixa aquela coisa, que ninguém sabe de onde. De repente, é uma mensagem do nosso subconsciente, ou uma previsão de alguma coisa. Pensando bem, há aquela música “Vôo de coração”, que fiz em 1982 quando eu ainda não tinha visto nada de informática. Tem os versos “E eu só no apartamento / Escrevendo memórias / No velho computador”. Caramba, cá estou eu com dois Ataris aposentados no meu estúdio [risos], uma coleção de Macintoshes e vivendo disso. O que veio primeiro, o ovo ou a galinha? Estou propenso a fazer isso por causa da música, ou a música surgiu de uma vontade minha em fazer isso. Na época eu nem sabia direito o que era um computador. A idéia do computador pessoal era uma coisa louca. Ninguém tinha. É engraçado como a gente é influenciado pelas idéias que surgem na nossa vida, e uma delas pode ser isso. Quem sabe eu acabe cantando com orquestra somente por curiosidade, porque foi uma coisa tão inusitada que o cara falou.
Keka – Olha que os astrólogos e as cartomantes influenciam também!
Ritchie – Influenciam. Claro, claro. E eu não sou nada esotérico. Sou desconfiado dessas coisas todas, mas tenho também um lado místico. Acho que a música é uma experiência mística. Sinto que é uma coisa fora do controle da gente. A inspiração e a linguagem dos sonhos… A gente sonha com as coisas e elas acontecem também. Todo mundo tem isso. Com minha mulher acontece quase que diariamente, a ponto de falar que vai encontrar com fulano porque sonhou com ele e, invariavelmente, acontece assim. E a gente sabe que os sonhos não são assim. Quando se sonha com alguém é com você mesmo. Mas com ela é diferente. Então, acho que tem coisas que estão muito além, coisas que a gente não compreende muito bem. Às vezes, nossa vida é regida por idéias e sonhos que são plantados na cabeça da gente. Às vezes, não são nossos sonhos, são aspirações dos outros que acabam nos influenciando de alguma forma. Não sei, é uma curiosidade da vida.

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