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Entrevistas de música brasileira

Ritchie

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Ritchie

parte 18/21

Senti realizado artisticamente e achei que era hora de parar

Monteiro – Imediatamente após você ter passado por essa fase [de sucesso], você não teve uma dificuldade para…
Ritchie – É, fiquei inseguro de novo. Voltaram todas as minhas inseguranças.
Monteiro – Antes de se aposentarem, os jogadores de basquete da NBA são treinados pelo menos 6 meses.
Ritchie – Uma preparação psicológica para você…
Monteiro – E como foi essa mudança pra você? “Não tenho mais o público, não tenho mais o palco.”
Ritchie – Isso, na verdade, nunca me incomodou porque me senti muito realizado artisticamente. Foi uma escolha. Achei que era hora de parar. E foi mesmo. Voltei somente agora porque me fizeram perceber que aquelas músicas que eu estava fazendo em casa, para o meu próprio prazer, mereciam ser ouvidas por outras pessoas. O Rafael [Ramos] conseguiu me convencer disso. O João Augusto também. Fiquei superfeliz porque agora tenho uma reação das pessoas, “Pô, Ritchie, seu disco me surpreendeu demais. É tão diferente do que você fez”. “Acho que é o seu melhor disco”. Ouço muito isso. É muito gratificante! Claro que a gente gosta de sentir o reconhecimento do trabalho. Isso é o que me dá muito prazer. Agora, não tenho essa ansiedade de estar na TV Globo e aparecer. Muito pelo contrário. Hoje em dia prefiro a coisa mais light., mais tranqüila. Mas tenho um lado dentro de mim que está sempre querendo mais alguma coisa. É um lado ambicioso. Sou muito inquieto, não posso ficar parado muito tempo, preciso sempre estar fazendo alguma coisa. A programação de Internet foi uma maneira de ocupar bem a cabeça toda hora do dia. Na verdade, não sei se foi uma maneira de esquecer… esquecer que não era mais artista. Foi uma maneira de conviver com isso ocupando a cabeça… E como ocupa a cabeça!
Tacioli – Você não fez show nesse período?
Ritchie – Não, nada. Parei completamente.
Tacioli – Mas havia convites?
Ritchie – Olha, fiz um show… Na verdade, fiz sim. Fiz shows em 1992. Tive uma idéia genial. [risos] Falei para algumas pessoas de gravadoras – o Liminha e outras pessoas assim. “Que tal a gente fazer o seguinte: gravar as minhas músicas com instrumentos acústicos?”. Então, montei uma banda em 92, o Ritz Café, formada por baixo acústico, flauta, violão, percussão. Fiz uns shows lá no Rio e ninguém das gravadoras achou que fosse dar certo. O Gil viu o show… O grande Gil, que em um dia, por alguma loucura, dedicou um disco a mim.
Keka – Qual?
Ritchie – Raça humana [n.e. Warner, 1984, cujos sucessos foram “Vamos fugir”, “Tempo Rei” e “Pessoa nefasta”]. Fiquei muito emocionado com isso. E ele veio a mim, “Vi seu show, gostei desse negócio de flauta, violão, baixo acústico. Posso?”. “Pode, claro!” E aí surgiu o acústico do Gil [n.e. Gilberto Gil unplugged, Warner, 1994, o primeiro Acústico MTV]. Não que fosse por minha causa, claro que não, mas é irônico o tanto que tentei empurrar essa idéia e ninguém se interessou. Logo em seguida, o Gil fez e depois todo mundo. Hoje, todos fizeram, menos eu! [risos] Agora não quero! [risos]
Keka – Você faria?
Ritchie – Agora não quero mais. [ri]
Monteiro – Mas não dá uma certa curiosidade ver como funcionariam aquelas músicas – “A vida tem dessas coisas”, “Pelo interfone” – em versão acústica?
Ritchie – Mas elas ficaram muito boas na versão acústica. E ficaram muito bem nesse formato tradicional de banda com baixo, bateria, guitarra, órgão Hammond, que é o formato desse novo disco. Então, estou ansioso para ver a reação do público. Se por um lado tem aquelas pessoas saudosistas que querem ouvir daquele jeito, e que podem se desapontar… No programa Altas Horas, do Serginho Groisman, testamos a versão de “Menina veneno” e foi maravilhoso. Uma platéia jovem que talvez nem a conhecesse…
Keka – Com a Érika, não foi? [n.e. Érika Martins, vocalista da banda baiana Penélope]
Ritchie – Isso, mas aquilo foi inventado na hora. Sempre inventam algo na hora. Estava tudo pronto e eles me falaram, “Só que inventamos uma coisa agora. Você vai cantar com a Érika!”. “Que Érika?”. “A Érika do Penélope!”. Fiquei pensando, “Não é aquela menina que tem voz de Paquita?” [risos] Ela é uma gracinha, um amor de pessoa. Chegou para mim, “Ritchie, sou muito, muito fã sua. É o maior prazer!”. Aí você vai dizer o quê, né? E foi uma gracinha, foi bonitinho [risos], mas foi um pouco… [risos] Ela tem aquela voz esganiçada, mas é uma gracinha. [risos] E eu adoro a Penélope, funciona muito bem, mas no “Menina veneno”… Achei muita coragem ela topar assim, porque não é uma música muito fácil de cantar. Não estou querendo dizer que somente eu sei cantar. Claro que não! Mas não é uma música fácil.
Keka – Eu sei, já tentei. [risos]
Ritchie – É a campeã dos karaokês, já reparou? [risos]
Tacioli – Você acha que o Zezé soube cantar “Menina veneno”? [n.e. Gravado pela dupla Zezé di Camargo & Luciano em álbum homônimo, Columbia/Sony, 1995, e regravada pelos mesmos em outros dois álbuns ao vivo]
Ritchie – Ele sabe cantar à moda dele, né? Foi muito engraçado. Olha, não tenho nada contra, acho somente que já conheço aquele arranjo de algum lugar. Prefiro o Ira! que fez uma coisa completamente diferente. O Miguel Plopsch deve ter falado, “Vamos pegar essa música, ‘Menina veneno’, pra Sony de novo e fazê-la igualzinho ao Ritchie, mas com o Zezé cantando!”. O solo do sax é idêntico, só que tem algo de errado, não sei… Não tem alma! Senti isso. A música está igual, com mesmo arranjo, cantada do mesmo jeito, mas ela não tem… Há algo que não me agrada ali e não é por eles. Acho que eles são ótimos no que fazem. Eu, pessoalmente, não gosto de música sertaneja, mas não vou ficar aqui criticando estilos que não são os meus. Agora, quando pegam minha música, gostaria de ouvir algo mais original. Uma cópia, xerox? Esse arranjo já existe. Sacanagem! Então, fiquei desapontando. Esperava mais deles. Poxa, mas foi lindo, né? Venderam 4 milhões de cópias. [risos] Maravilhoso. Foram o quê? Quatro discos… Amigos, amigos no palco, amigos no banheiro, amigos em todos os lugares… [risos] Isso foi lindo, foi superlegal. Financiou os meus projetos de Internet. [ri] Pude me dedicar a isso e me acomodar ainda dentro de casa, convivendo mais com minhas filhas. Lynn nasceu no início do meu sucesso e passei quase 1 ano na estrada. Mal presenciei o primeiro ano da vida dela. Senti que estava perdendo alguma coisa importante e foram legais esses 12 anos, porque agora a Lynn tem 17 e a Mary, 21. Mas foram elas que me deram o toque para voltar. [ri] “Pô, pai, vai trabalhar!” [risos]

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