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Entrevistas de música brasileira

Ritchie

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Ritchie

parte 17/21

Sempre quis cair na boca do povo!

Tacioli – Você falou que nunca imaginou fazer sucesso no Brasil.
Ritchie – Realmente, cá entre nós… Quero dizer, sonhei com isso nos meus sonhos mais loucos.
Tacioli – Mas você sonha em fazer sucesso na Inglaterra?
Ritchie – Não.
Tacioli – Mas já sonhou com isso?
Ritchie – Houve uma época em que eu gostaria de fazer sucesso na Inglaterra. Para os meus amigos, mas depois, o sucesso é sucesso em qualquer lugar. O importante para o músico é que sua música atinja as pessoas. Sempre quis cair na boca do povo, ver o gari da esquina cantando minha música. Isso para mim é a glória. E eu consegui isso. Sou totalmente realizado. Não tenho muito mais o quero da música fora ser feliz e gostar do que estou fazendo. E se eu sentir que não tenho nada a dizer vou ser o primeiro a saber. Não se preocupem que não vou fazer besteiras! [risos] Só vou fazer coisas boas daqui para frente. Não estou a fim de me aborrecer. Não tenho grandes expectativas, não quero. Claro que seria lindo se a primeira música de trabalho desse disco [n.e. Auto-fidelidade], “Lágrimas demais”, que fala assim, “Sonhos loucos podem acordar / Com você ao meu lado”… É um pouco isso o que penso. É um sonho louco que isso vai acontecer, mas tudo bem, o que vale é o trabalho. O sucesso é uma coisa muito efêmera. Sei porque passei por isso. Sei o que é o sucesso, sei o que é a fama. Isso nunca foi a meta. É uma conseqüência. É muito legal quando acontece, e também muito ruim. Há dois lados da moeda. Ele rouba toda sua privacidade, interfere na sua vida familiar e em uma série de coisas. E você, ou gosta disso ou não. Eu, particularmente, gostei daquela adrenalina do início, do reconhecimento, de ser parado na rua, mas depois de um certo tempo aquilo passou a ser uma invasão de privacidade. Então, não almejo mais a fama, o reconhecimento… A Fama! Vou para a casinha da Globo para ser famoso por nada. A fama tem que ser conseqüência de uma substância. O sucesso é bom, claro, porque é um reconhecimento do seu trabalho, mas a fama é uma faca de dois gumes. Não corro mais atrás disso. Já houve a época em que eu queria ser famoso, mas quando você é famoso logo percebe que aquilo não é nada. A fama não é feita pelo artista, é feita pela platéia. É bom para você conseguir um bom lugar num restaurante. Quero dizer, a maioria dos artistas que conheço são supertímidos. Engraçado esse negócio, esse paradoxo… Acho que pela própria timidez o artista tem que ter controle sobre sua obra para poder vencer sua timidez no palco. É uma coisa maluca.
Keka – É estranho isso, né?
Ritchie – Estranhíssimo.
Keka – A Cássia Eller era assim.
Ritchie – Cássia Eller era a pessoa mais tímida do mundo! O Peter Gabriel mal consegue articular duas palavras quando você vai conversar com ele. Parece um catatônico e é um artista impressionante, filantrópico. No palco é um monstro. É como se o palco fosse uma maneira dos artistas vencerem sua timidez e estar numa situação em que tudo está sob controle. Porque na vida social nunca está… Os tímidos se fortalecem quando têm controle e no palco é assim. Estou pensando isso agora, é uma sensação de poder, de domínio. Por um momento você é mais forte. Mas o engraçado é que o público vê o artista de uma forma, projeta tanta coisa em cima… O artista só existe na mente da sua platéia. É uma coisa muito louca essa de ser artista! Essa relação entre a platéia e o artista é muito legal, mas é cheia de nuances…

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