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Entrevistas de música brasileira

Ritchie

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Ritchie

parte 15/21

O caixa dois das gravadoras paga o jabá

Roger – Mudando completamente de assunto, e essa história da numeração dos CDs?
Ritchie – Essa discussão é vital. Não podemos perder esse trem. Fiquei meio apavorado quando houve o veto, mas entendo.
Roger – Mas é isso que você está falando. O disco estava vendendo e, de repente, parou. Não há nenhum controle.
Ritchie – Sabe o que é, o jabá é pago com dinheiro que não é oficial. Então, as gravadoras não querem a numeração, porque não querem detonar essa… É muito confortável pra elas. O caixa dois paga o jabá. É terrível ter que dizer, mas a gente tem que falar essas coisas, porque não se pode continuar assim. Se a indústria está em crise agora é por culpa dela que criou seus próprios monstros. A pirataria está essa coisa toda, porque as gravadoras começaram a mexer nessa coisa… Há vários tipos de pirataria. Pirataria contra os autores é uma delas. É uma maquiagem em torno dos números… É um pouco como o ECAD. O ECAD não tem um sistema transparente tipo “tocou uma vez, um ponto”. Não, o ponto é flutuante. Eles calculam, cada mês, o que o ponto vai representar. Então, você nunca vai saber se tocou ou não tocou. É tudo parte de uma grande falcatrua que é a indústria de discos, e não acho que seja somente no Brasil. É em todo lugar. Tem que ser falado. É inconveniente, pra gente falar sobre isso, mas tem que ser falado.
Dafne – Mas como você vê o projeto? Antes e depois da polêmica?
Ritchie – Foi fantástico falar dessa questão. A lei, da maneira como foi redigida, é falha. A assinatura foi uma espécie de pedra jogada na máquina… Não entendi essa coisa; claro que é inviável. Foi uma maneira de agradar a gregos e troianos. Vamos agradar aos artistas com a lei, mas não vamos desagradar às gravadoras. Senti que a lei tinha uma coisa meio em cima do muro. Por um lado, é bom que esse aspecto tenha sido vetado. Bom, em termos. O importante é que a discussão não morra, porque se morrer, nunca mais conseguiremos levantar essa questão. E é importantíssima para todos os autores, principalmente em um momento como o de agora, quando o direito autoral é abalado por uma série de coisas: a pirataria, a Internet… Como a música é consumida agora é possível controlar o direito autoral. É muito importante que a indústria se una, e a transparência é o melhor jeito, porque senão vai falir mesmo. É claro que vai renascer das cinzas, mas não sei se vai ser um processo rápido. Vai demorar muito para se criar um novo modelo. Já vejo a música mudando de aspecto. O conceito do direito autoral vai ter que mudar. O conceito de propriedade autoral vai ter que mudar. A música, provavelmente, vai ser de graça. Ela não vai ser encarada como um produto final, mas como uma espécie de jingle, uma marca. Será oferecida para download e uma série de outros produtos que estão por vir. Não estou falando somente de DVD, mas também de outros produtos que a gente nem concebe ainda. Talvez a música fique como um cartão de visitas. Não sei, talvez eu esteja falando bobagem, mas não é uma questão de escolha. É uma adaptação ao que está acontecendo. As pessoas se acham no direito, agora, de baixar músicas de artistas e que seja assim mesmo… Não vão comprar o disco. É uma pena.
Almeida – Há uma aura do CD, do disco, do encarte, e acho que as pessoas querem isso.
Ritchie – Eu acho, eu sou assim. É maravilhoso. A idéia de algo que você compra e é seu, né?
Almeida – É uma outra fonte de informação que a música somente não traz.
Ritchie – E o som é melhor também. É o formato que foi concebido a música. Não é aquela compressão de MP3, que para os meus ouvidos não soa bem. Não gosto do som do MP3, não acho que seja tão parecido assim, até porque vivo dos meus ouvidos… Não gosto da compressão. Agora, é muito conveniente. Acho um barato poder baixar uma música de não-sei-quem antes de comprar o disco. O conceito de rádio está mudando em função disso, porque o rádio empurra aquelas mesmas 25 músicas para o ouvinte, e na Internet quem escolhe é você. Isso é fantástico, é a evolução do rádio e da indústria em geral. A gente tem muito que caminhar ainda, mas há a questão sobrevivência de quem está na indústria agora. Não pode assim: vamos parar e começar de novo. Tem que haver um período de adaptação. Naõ sei como isso vai evoluir. Acho que o conceito de propriedade e de patrimônio musical vão ter que mudar. Se a gente ficar achando que toda vez que alguém baixa uma música nossa é um roubo, a gente não vai a lugar nenhum. Temos que encarar aquilo como uma coisa boa, mas a indústria não encara assim ainda.
Roger – E nem está preparada para isso.
Ritchie – Nem está preparada. Se os autores estão em maus lençóis, a indústria está toda emaranhada. É assim que se diz?… Emaranhada na sua própria rede de intrigas. É patético de se ver! É uma pena, porque eles criaram seus próprios monstros. É um reflexo de tantos anos de descaso e comodismo. Era muito conveniente… O sistema do jabá sempre funcionou muito bem para todos os lados. Quero dizer, menos para aqueles que querem fazer alguma coisa nova e furar esse bloqueio. A grande tristeza do jabá é que a música não é mais a mola movedora… Como se diz?
Tacioli – Propulsora.
Ritchie – Não é mais a mola propulsora. São outras propinas.

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