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Entrevistas de música brasileira

Ritchie

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Ritchie

parte 13/21

O Vímana é a banda mais famosa que ninguém nunca ouviu

Monteiro – Depois da Jovem Guarda, a música pop jovem somente voltou nos anos 80. Você acha que essa geração abriu a porta para o que está acontecendo agora?
Ritchie – Gosto de pensar assim também. Às vezes, isso não é apreciado. Mas gosto de pensar que nós abrimos portas, porque não foi somente nos anos 80. Começamos nos anos 70. Até a Som Livre, que nos deu um pouquinho de tempo de estúdio para gravar um disco do Vímana e testar as máquinas, falava assim… “Olha, esqueçam o rock no Brasil. A gente quer que vocês vendam como a Diana. Esse país não está pronto para o rock!” Então, a gente vem plantando desde aquela época.
Monteiro – A Diana cantava “Meus parabéns agora / Feliz aniversário amor”.
Ritchie – Ele conhece. Que barato! É isso mesmo! [risos]
Monteiro – Diana. Estouro absoluto.
Ritchie – Underground pra caramba! [risos]
Tacioli – Mas o Vímana gravou um LP, né?
Ritchie – Não, foi um compacto [n.e. Lançado em 1977 pela Som Livre]. “Zebra”, no lado A, e “Masquerade”, uma música em inglês, no lado B. Saiu, por algum motivo… A Warner lançou essas músicas numa coletânea do Lulu Santos [n.e.O duplo E-collection, WEA, 2000]. Bom que saiu em algum lugar. Pena que é uma bosta, né? [risos] O Vímana é a banda mais famosa que ninguém nunca ouviu. Era uma confusão e uma maravilha na época. A gente pensou que estava mudando o mundo, mas era somente o nosso mundo que estava mudando. Éramos muito prepotentes. Imaginem Lulu, Lobão e Ritchie morando na mesma casa. Só podia dar merda. [ri] Moramos um tempão juntos… Somos irmãos, uma família. O Lobão é muito carinhoso comigo. O Lulu é um pouco mais difícil, mas a gente entende que ele é mais difícil mesmo e pronto. Temos muito carinho um pelo outro. Eu, pelo menos, tenho. Sei que o Lobão tem. Ele, que é radical e tudo mais, sempre dá um jeito de falar bem de mim em suas entrevistas. É muito legal isso, porque ele metralha todo mundo. [ri] E fala, “Não, o Ricardinho, não. O Ricardinho é 100%!” [risos] Ele sempre me chamou assim, Ricardinho, Ricardinho Bandeirantes. É mole? Não sei de onde ele tirou isso? Maluco.
Tacioli – Mas vocês não gravaram um LP, então?
Ritchie – Gravamos um LP inteiro com 10 ou 12 faixas, mas é virtual porque nunca foi lançado.
Tacioli – Mas existe. Está na gaveta.
Ritchie – Em algum lugar. Desconfio que as masters estejam com o Lulu… Tanto que surgiram essas duas músicas de algum lugar. E como foi em um disco do Lulu, imagino que foi ele quem cedeu. Também nunca perguntei, não falei com ele sobre isso. Ele vai dizer que não é um projeto dele, que é da gravadora, enfim… Acho melhor deixar os cachorros dormirem. Acho melhor deixar isso quieto, porque o Vímana foi um berço esplêndido para nós, mas não tem importância musical nenhuma. Era uma confusão, coisa de formação, de hormônios masculinos em conflito. Tudo junto, brigas. A gente brigava muito bem, tocávamos razoavelmente. Foi isso que fez terminar, como todas as bandas. Quero dizer, duas coisas acabam com bandas: uma é o sucesso e a outra é o fracasso! [risos]
Monteiro – Você acha que para essa geração dos anos 80 o espaço foi curto demais para poder…
Ritchie – As gravadoras trataram a gente como uma coisa de momento. E está mais do que provado que não era. Acho que esse revival não é simplesmente fazer renascer os anos 80. É mais, “Poxa, aquilo é bom. Era bom. Vamos ver quem está vivo ali?”. [ri] Aí pegam a gente, né? Quem está ainda em pé. As bandas, principalmente, se deram bem porque souberam sobreviver a isso à revelia do mercado. Os Paralamas sempre tocaram, não precisaram estar na moda para tocar ou não tocar. O Legião, etc. e tal. É mais difícil para um cantor, porque você tem que sustentar uma banda, você tem que pagar as pessoas. Você não pode ficar na estrada se você não está com alguma renda além daquilo. É muito mais complicado você manter uma banda se você é um artista-solo. Uma banda é todos por um e um por todos. O Vímana teve seu momento, fazia sentido naquela época. Não faz mais. Mas os trabalhos dos anos 80 não tiveram a oportunidade de se expressarem mais porque foram tratados como sabor do mês. Havia mais coisa para dizer ali. Acho que está mais do que claro que aquilo era uma coisa fértil. Por que era fértil? Porque era o fim da ditadura e o começo da abertura. Jovens tinham passado 20 anos sem se expressar. Por mais ingênuos que fossem… A coisa da Blitz é altamente superficial, muito gostosa, mas superficial. “Menina veneno”, superficial. Não tem conteúdo político, nem uma tentativa de mudar o mundo, porque nós estávamos lidando com a Dona Solange, da Censura, ainda, e aquilo tudo vacinou a gente. Uma questão de sobrevivência. Tem que ser ingênuo para sobreviver, para poder fazer música. Somente depois do primeiro pé na porta, quando conseguimos uma brecha, veio a enxurrada de Brasília, aquelas coisas maravilhosas, a Legião, os Paralamas e tantas outras bandas. Justamente no berço da ditadura. [ri] Digamos assim, no centro de comando surgiram as melhores bandas e as mais contestadoras. Aí sim ficou muito bom. Nessa altura, estávamos carimbados como brega-pop ou sei-lá-o-quê. Também estou me lixando para o que as pessoas acham em termos de rótulo, porque nunca acreditei nisso. Sempre fico olhando para trás e vejo que as músicas que mais fizeram sucesso em todos os tempos vieram pela contramão. Led Zeppelin é uma das bandas… Dire Straits no auge do punk… [ri] Até mesmo o The Police, que fazia o figurino do punk, mas não tinha nada a ver com punk, a não ser, talvez, na atitude, mas é mais para os Monkees do que para o punk. Havia aqueles filminhos com eles dançando e chutando um ao outro. Era uma coisa bem The Monkees, bem A hard day’s night [n.e. Os Reis do Iê-Iê-Iê, 1964, o primeiro filme dos Beatles]. Não havia muito punk, não. Maravilhoso! Elvis Costello, que nasceu naquele berço, mas era o contrário daquilo tudo. Quero dizer, as pessoas que sobreviveram, vieram pela contramão. Então, nunca consegui entender essa mentalidade de que uma coisa não vai vender porque é diferente daquilo que está fazendo sucesso. Aí mesmo é que vai.

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