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Entrevistas de música brasileira

Ritchie

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Ritchie

parte 12/21

O Mariozinho Rocha tomava um uísque, ouvia “Transas” e chorava

Tacioli – Sua relação com as gravadoras sempre foi meio tensa?
Ritchie – No término com a CBS, você diz? Bem, sempre foi mesmo. Esse incidente com o Leleco melindrou todo mundo, fiquei marcado como rebeldinho… sem calça! [ri] Os divulgadores não queriam me trabalhar… “O cara é difícil, só dá problema”… Não sou difícil, sou muito fácil de trabalhar. O problema é que havia essa pedra no meio do caminho. Então, senti que a Polygram foi desistindo de mim. Somente queriam cumprir o contrato e nada mais. Quando saí de lá, estava tão desamparado, com a auto-estima tão baixa que achei que era melhor parar mesmo.
Flávio Monteiro – Mesmo com o estouro de “Transas”?
Ritchie – Foi por causa do Mariozinho. O que aconteceu? Eu tinha um contrato de quatro discos na CBS. Fiz três. Aí o tecladista da minha banda, o Nico Resende, me deu essa música, “Transas” [n.e. Composta em parceria com Paulinho Lima]. Ele falou assim, “Ritchie, acho que você vai cantar essa música como ninguém. É a sua cara. Fiz pensando em você”. Normalmente só canto músicas minhas, mas a música era muito bonita mesmo e achei que ia cair bem em novela. Então, gravamos uma demo. Quis apresentar para o Cláudio Condé dentro da CBS. “Cláudio, tenho uma música aqui que vai ser como ‘Menina veneno’. É muito bonita, um pouco breguinha, mas é muito linda!” [risos] É, tem que ir um pouco com a maré, não tenho esse preconceito do que é e o que não é brega. Enfim, gosto de música boa e achei muito bonita quando a ouvi. É uma balada muito bem feita. Mas eu não mostrei pra ele, somente falei da música. Ele falou, “Não! Não, Ritchie, não é hora. Guarda isso para depois. Só vamos nos interessar quando você tiver um disco inteiro pronto”… “Mas essa música é muito linda, dá para colocar na novela, vender como single. Aí, no próximo disco”… Ele não queria nem ouvir. Pô, alguma coisa está errada. Aí o que fiz? Mandei a fita para o Mariozinho Rocha. Perguntei o que ele achava dessa música para alguma novela. Comecei a trabalhar por fora. Ele ficou louco. A secretária dele diisse que ele botava a fita demo para tocar no fim do dia, tomava um uísque, deitava no sofá, ouvia “Transas” em rotação contínua, e chorava e chorava. “Essa música é linda!”… E tomava mais uma dose. [risos] Aos prantos. Ele achava aquilo o máximo. Mas eu não sabia o que fazer, ainda devia um disco para a CBS. Aí, na maior cara-de-pau, fui ao escritório do Cláudio Condé e falei, “Cláudio, tô com uma crise de criatividade, acho que nunca mais vou escrever uma música sequer. Olha, tá vendo? Tô com uma música aqui, mas não é nem minha. Não consigo mais compor, acho que quero me aposentar. Queria que você me liberasse do contrato”. Ele disse, “Tudo bem! Tchau!” [risos] Ah é? Então, tá! [risos] Aí o Mariozinho pegou a música. Quinze dias depois, ela estava em primeiro lugar. Foi o compacto mais vendido de 1986. Ganhou o prêmio Villa-Lobos. Mas o sucesso foi tão grande que a Globo contratou o Mariozinho e eu fiquei sem pai e sem mãe na Polygram, uma companhia que teve três ou quatro presidentes nos três anos em que estive lá. Fiquei completamente desamparado, sem o meu anjo da guarda, o Mariozinho, em um ninho de estranhos. Quase 50% dos divulgadores da Polygram tinham acabado de vir da CBS. Era a mesma turma! [ri] Tive que ouvir coisas do tipo, “Vê se não pára no meio do caminho desta vez, hein?” Ouvir isso de divulgador é duro. Enfim, com o Plano Collor falei, “Chega! Chega! Já fiz seis discos. Estou muito contente. Afinal, sou um pai de família e já estou mais pra lá do que pra cá. Vou me dedicar a outras coisas. A vida é curta. Já fiz bons discos, vendi um milhão de cópias, tenho meus discos de ouro.” É tudo o que queria quando era garoto, não queria mais do que isso. Achei que era melhor parar do que ficar insistindo quando ninguém queria. Tirei um ano para me dedicar à computação. Um ano, dois anos, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze anos depois fui lançar um disco. Foram doze anos sem gravar.
Tacioli – E que expectativas você tem como contratado da Deck? É um contrato que prevê quantos discos?
Ritchie – Três discos.
Tacioli – Esse passado não interferiu?
Ritchie – Não, eles não estão nem aí para isso. Sabem da história toda e não estão preocupados. Os tempos são outros. Cadê o Leleco Barbosa hoje em dia? Eu tô aqui! [risos]

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