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Entrevistas de música brasileira

Ritchie

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Ritchie

parte 11/21

“Pô, pai, não sabia que você fazia esse som!”

Roger – Depois desse tempo todo, agora você está voltando à mídia. Qual é a diferença?
Ritchie – Estou mais tranqüilo. [ri] Não tenho muitas expectativas. Estou muito feliz com esse disco. Não estou naquelas… [faz voz de vilão] “Agora vou mostrar para todo mundo que eu voltei”… Estou mais zen.
Dafne – Mas, e a mídia, o que mudou?
Ritchie – Olha, a mídia…
Keka – Essa onda de revival dos anos 80…
Ritchie – Eu não faço parte disso, não. Esse é um disco de inéditas. É uma coincidência total. Acho que talvez tenha a ver com o Ira!, que é uma banda dos anos 80, que regravou uma música minha, e que me convidou para participar de uns shows [n.e. A música é “A vida tem dessas coisas”, de Ritchie e Bernardo Vilhena, gravada em Isso é amor, Deck Disc, 1999]. O produtor do meu disco, o Rafael Ramos, viu esse show e depois veio comentar no camarim como a garotada tinha enlouquecido quando rolou a música. Minhas filhas chegaram no camarim e… “Pô, pai, não sabia que você fazia esse som!” [risos] Eles fizeram uma versão punk que me deixou fascinado. Ficou tão diferente da minha versão, que é do meu primeiro disco. Adorei. Adoro eles. Sou muito fã do [Edgard] Scandurra. É impressionante o que ele faz com aquela guitarra invertida. Inclusive, no disco deles, a harmonia está toda errada [risos], mas é genial. O Scandurra depois falou para mim que a meta deles era tocar todas essas músicas, que eles adoravam na época, de memória. Então, eles não buscaram as versões originais. Ficou supercharmoso. Gostei, gosto muito deles. O [Ricardo] Gaspa conheço há 30 anos. Quando fiz minha primeira banda aqui em São Paulo, fiquei na casa dele, porque o irmão dele tocava guitarra comigo. Ele era um pirralho de 14 anos e já tocava baixo pra caramba. Tinha uma banda chamada Mescla que era impressionante. Música instrumental tipo Mahavishnu Orchestra. Tudo moleque de 14, 15 anos, tocando como os diabos. Havia um guitarrista chamado Jonas não-sei-das-quantas que é uma lenda até hoje. Acho que ele não toca mais. Os pivetes tocavam muito. O Gaspa… Tenho o maior carinho por eles. Acho que é um rock’n’roll tão honesto, tão sem firulas. Enfim, eles gravaram essa música, o Rafael viu e me convidou para voltar. Falei que não, de jeito nenhum. Pensei que ele queria regravar as coisas. “Nada nesse mundo vai me fazer regravar ”Menina veneno”! Está muito bom, está lindo, não quero mais gravá-la, não!” Ele falou, “Não é isso, não! Queria que você fizesse um disco de inéditas”… Bom, “Somente se for em inglês, porque só tenho músicas em inglês. Acho que você está perdendo tempo comigo. Tô muito feliz, acomodado nesse trabalho de Internet”. Ele me chamou em 2000 e levou esse tempo todo. [ri] Só fui gravar em 2002. Em 2000, a Internet ainda estava muito bem. O Thomas [Dolby] me mandava muitos clientes. Toda vez que ele dava uma entrevista, aparecia mais emprego para mim. Eu estava muito bem. Aí a coisa toda implodiu. Mas foi somente pisar no estúdio para o Rafael falar, “Ritchie, chega! É véspera de 2002, você está me cozinhando há um ano e meio e eu sei que você tem músicas lindas porque já ouvi. Então, venha para o estúdio hoje!”. Imagine um garoto de 23 anos falando assim comigo. “Ah, moleque! Vou sim!” [risos] “Quero que você grave em inglês, ou como você quiser. Quero que você seja feliz. Venha para cá”.
Keka – Em que estúdio vocês gravaram?
Ritchie – No Tambor, da Deck Disc, que pra mim é o melhor estúdio do momento. Poxa, um som fantástico, um projeto muito lindo. É o estúdio mais atualizado do Rio de Janeiro. E o pai dele, o João Augusto, é um monstro da indústria. É uma pessoa maravilhosa. Gosta muito de música.
Keka – E como foi trabalhar com o Rafael, que é bem mais novo?
Ritchie – Maravilhoso. O Rafael me surpreendeu a cada instante, porque ele é um profundo conhecedor de tudo que gosto. Até eu fazia uns testes de vez em quando. “Agora ele vai ver só. Vou falar de uma coisa que ele não conhece!”… E falava de algo como Righteous Brothers ou qualquer coisa assim. “Eu sei!”, e falava o nome do primeiro disco, cantava a segunda música do lado B… O Rafael é impressionante! É um grande produtor, muito mais maduro que sua idade. Uma pessoa que tem toda uma sabedoria de quem lida com artistas e egos.
Keka – Ele começou muito cedo.
Ritchie – Começou muito cedo. O pai dele também passou muita coisa para ele. Sempre foi criticado por ser filho do João Augusto e não é nada disso. Ele merece tudo o que conquistou. O trabalho dele com o João Donato é ótimo. Poxa, o dedo dele está nos Mamonas Assassinas, no “Anna Júlia” e em todas as coisas que recentemente foram estouros e grandes surpresas. Por exemplo, a volta do Ultraje a Rigor. Tudo tem a marca dele.
Tacioli – Você tem essa expectativa por estar na mão dele?
Ritchie – Não, a mão dele foi na gravação. Foi tão maravilhoso. Mas ele é um cara que fala pra mim, “Olha, Ritchie, essa gravadora é minha. O disco que fiz com você é o melhor da minha carreira também e eu quero que faça sucesso!” [ri] “Tudo bem, estamos aí! Vamos ver. Não quero nem entrar no mérito do que isso significa, mas tudo bem.”

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