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Entrevistas de música brasileira

Ritchie

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Ritchie

parte 10/21

A Alcione falava de mal mim na TV

Keka – “Menina veneno” chegou a lhe chatear e constranger, pelo falto das pessoas perguntarem somente sobre essa música?
Ritchie – Não, isso não, mas houve uns momentos há alguns anos que… Fiz um show em que não cantei essa música e quase fui crucificado. Mas tem uma hora em que… Se, naquela época, encheu o saco do Brasil, imagine o meu que tinha que cantá-la todo santo dia. Era uma música pop despretensiosa, não tem essa importância toda. Houve uma hora, sim, em que fiquei de saco cheio e queria fazer outras coisas. Um pouco da minha parada foi por não conseguir me imaginar cantando “Menina veneno” pelo resto da minha vida. Já fiz isso. E o desinteresse das gravadoras, depois do Plano Collor e daquele marasmo em que todos nós ficamos. Lancei meu último disco pela Polygram na semana do Plano Collor. Ele foi retirado das lojas, não houve lançamento. Disco bom, Sexto sentido. Para não ser confundido com o disco da Xuxa, claro. [ri] Se bem que, coincidentemente, divulguei esse disco no programa dela. Ela deve ter gostado de alguma coisa.
Tacioli – Esse momento foi a gota d’água pra você se afastar?
Ritchie – É, foi uma série de coisas.
Tacioli – Houve o lance do Chacrinha também…
Ritchie – Sim, mas isso foi em 1983. O Leleco fez uma cachorrada comigo. Todo fim de semana tínhamos que ir cantar no subúrbio. Era o jabá da época. O jabá do Chacrinha era assim. O Leleco jogava nos cavalos e precisava de grana para pagar as apostas dele. Então ele levava um monte de artistas para um lugar, lotava o espaço, botava o velho para buzinar, as chacretes para rebolar e todo o dinheiro no bolso. E não pagava um centavo a ninguém. Tudo bem, a gente entende que esse é o preço que se paga. A gravadora era conivente com isso. Mas, no fundo, você estava se apresentando para um público e era genial. Todos nós éramos muito ingênuos e achávamos que somente aparecer já era bom. Acontece que “Menina veneno” estourou e comecei a ter muitos pedidos de shows. Havia um em Belo Horizonte. Na quinta-feira, véspera do show, o Leleco ligou para o escritório do meu editor, que estava me empresariando na época – eu estava lá dentro na hora – e disse, “Precisamos do Ritchie no fim de semana em Marechal Hermes”. Meu editor disse que eu não poderia porque tinha show marcado. “Então que desmarque, porque ele já está escalado!” “Mas não é assim, tem uma multa contratual de 50%. Se você quiser pagar essa multa, a gente vai…” “Que negócio é esse? De jeito nenhum! Ele tem obrigação!” Aí eu falei que não ia. Na semana seguinte saiu uma matéria na revista Amiga dizendo que o Ritchie, o artista inglês que foi tão bem acolhido no Brasil, agora, depois da fama, se recusa a trabalhar com artistas brasileiros. Resultado: ele não pode aparecer mais no Programa do Chacrinha e ponto final. Aí fiquei 6 anos sem poder ir à Globo. Mas, na verdade, houve umas brechas porque minhas músicas eram ainda usadas nas novelas. Eles usavam minha música, mas a figura Ritchie não podia aparecer. Até a época de “Transas”, em 1986. Três anos. Depois disso começou a ficar melhor, mas, na verdade, nunca mais voltei ao Programa do Chacrinha.
Roger – Mas antes disso, “Casanova” foi…
Ritchie – Ah, sim. Mas isso foi tudo antes.
Roger – E mesmo assim você não podia aparecer?
Ritchie – “Casanova” foi uma das músicas que mais estourou na época. Acho que cheguei a cantar em algum lugar, mas o negócio era o seguinte: a música do Ritchie é muito boa para novela, mas não queremos dar força para a figura artística dele porque ele não colabora com a gente.
Almeida – Numa época em que havia somente a Globo para se ter exposição.
Ritchie – Foi chato. E anos e anos depois, quando você acha que as pessoas vão esquecer isso, ou achar que você aprendeu a lição, o Leleco deu uma entrevista à Veja e me espinafrou à toa. Não sei qual era a dele! Que mágoa era essa? Deve ter perdido dinheiro ou algo assim. Ele marcou outros shows comigo, Sidney Magal e Alcione. Mas a Alcione falava de mal mim em programas de TV. Eu não ia puxar público para ela. Adoro a Alcione, mas foi muito feio. Ela falou muito mal de mim em um Globo Repórter, algo como “Ele é mais um que veio para cá tomar o lugar da gente”. Pô, sacanagem! Eu não sabia que era ela quem havia falado isso. O Pedro Bial, que era o entrevistador na época, foi quem comentou que um sambista havia falado que era muito fácil um inglês chegar aqui e fazer sucesso. Imagina? Fácil? [ri] Bem, falei assim, “Não sei quem essa pessoa é, mas sugiro o seguinte: que ela vá para Inglaterra e chegue ao topo das paradas cantando samba em inglês e depois volte para cá. Só aí poderemos conversar de igual para igual”. Aí, pô… Foi um horror também, né? [risos] A Alcione ficou sem falar comigo durante séculos e eu adoro ela. Fui saber depois que foi ela quem havia dito.
Tacioli – Você chegou a falar com ela depois?
Ritchie – Sim, encontrei-la anos e anos depois numa festa de aniversário do Zeca, filho do Caetano. Ela estava lá com a bateria mirim da Mangueira que, aliás, é um projeto maravilhoso que ela faz. Estava muito chateado com isso, porque acho a Marrom fantástica. Uma cantora impressionante. Mas ela levou a coisa pessoalmente… Mas, bem feito também, quem mandou falar mal? Tem que haver direito de resposta. É o mínimo que se pode fazer. Fui lá dar um beijo nela e tal.
Tacioli – Você chegou a ficar fora do meio artístico da época?
Ritchie – Do meio artístico, não, porque fiz muitos shows. Estava bem amparado. E outras pessoas da mesma emissora sempre me chamavam para alguma coisa. Novelas e tal… A TV Globo era a única emissora em que se podia divulgar o seu trabalho musical naqueles tempos pré-MTV. Mas a minha figura foi prejudicada, sim. Até as gravadoras com quem trabalhei passaram a divulgar menos meus trabalhos por causa dessas dificuldades na televisão. A Beth Araújo, que trabalhava na Polygram, me falou – ela era muito amiga da família do Chacrinha e estava no quarto do velho quando ele morreu -, “O Leleco não atura você, mas há um paradoxo. O velho morreu em um quarto em que tem três retratos na parede: o do Roberto Carlos, o do Ney Matogrosso e o seu”.
Keka – Nossa!
Ritchie – Freud explica!
Keka – Isso no hospital?
Ritchie – Não, na casa dele. Ele morreu em casa.

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