gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Ritchie

Ritchie-940

Ritchie

parte 9/21

O Caetano achava que ''Menina veneno'' era sobre heroína

Monteiro – Voltando aos anos 80, como você chegou a esse primeiro disco, à gravadora?
Ritchie – Não cheguei à gravadora, não. Quando fizemos as demos, todas as gravadoras falaram que elas não prestavam.
Monteiro – O que era essa demo?
Ritchie – O Liminha era meu aluno de inglês e meu amigo de muitos anos. Conheci o Liminha em Londres, antes de vir para o Brasil, com a Rita [Lee] e tudo mais. O Liminha era um tipo de subprodutor da Warner, na época, não era o produtor-executivo, mas fazia a produção do Gilberto Gil, algumas coisas assim. Ele tomava aulas de inglês comigo e eu mostrei a música, no Casiotone. Ele falou “Vamos gravar na próxima aula que você vier aqui.” Então, a aula foi “pras picas” e virou uma sessão de gravação. E ele diz até hoje que aquela versão de “Menina veneno”, gravada em fita cassete, na casa dele, é a definitiva. E com ela foi que ele chegou ao André Midani e a um monte de gente da Warner. E quando ouviram, falaram “O Brasil não tem lugar pro rock. Isso nunca vai acontecer!”.
Monteiro – E você já tinha algumas coisas na gaveta?
Ritchie – Tinha, tinha. Tinha um disco todo pronto em minha cabeça. O disco estava pronto: as composições estavam prontas, as letras estavam prontas. Eu gravei duas músicas. Nem “Menina veneno” gravei, porque ouvi muita rejeição e como já tinha uma demo feita, não senti necessidade de gravar essa música de prima. Fomos ao estúdio, uma antiga sala de arquivo da Warner, o porão da Warner. Ele falou, “Vamos lá, porque o banheiro tem um eco muito bom para a voz.” Gravamos voz no banheiro! Isso porque o eco era bom. E o Zé Luiz tocou o saxofone… O banheiro era um cômodo pequeno. Botamos um microfone colado na parede de um lado, e ele tocou de costas para o microfone em um outro canto. Aquele som chapado. E era genial! Essa é a coisa da inventividade! Isso que o Steve falou, “Ninguém faria isso na Inglaterra!”. Ele ficou fascinado com isso. Estávamos gravando em um porão com o Steve Hackett, pô! Com uma Marshall de 50, um gravador Otari de oito canais, de uma polegada, que levamos para esse lugar. Gravamos backing vocals no banheiro. E foi maravilhoso! Essas músicas, “Vôo de coração” e “Baby, meu bem”, acabaram vingando assim mesmo, e não foram regravadas. “Menina veneno” foi um pouco diferente. O que aconteceu pra ela chegar ao disco?Eu estava fazendo cópias na sala do Liminha, na parte de cima da Warner. E não tinha nada a ver com a Warner. O Liminha foi que cedeu a sala. Ele tocou contrabaixo. “Vá fazer umas cópias na minha sala que eu já venho.” Aí alguém bateu na porta. Era o Fernando Adur, um arranjador e produtor musical do Rio de Janeiro, muito conhecido no meio. Ele abriu a porta e falou, “O Liminha está aí?!” Eu falei, “Não!”. Ele fechou a porta. Cinco segundos, abriu a porta. “Que negócio é esse que está tocando aí?” “É uma fita que estou fazendo uma cópia.” “Mas é o quê? Uma banda? Que negócio é esse?” Era “Vôo de coração”. Falei, “Minha fita que estou gravando com o Liminha.” “Me faz uma cópia!” “Como assim, ‘me faz uma cópia?’ Não, cara!” [risos] “Não, eu quero levar na gravadora.” “Não, esqueça esse negócio de gravadora. Todas já falaram que não querem nada. Eu não vou te dar coisíssima nenhuma.” [risos] Naquela época, a Blitz [que era da EMI] estava acontecendo. O Mayrton Bahia também estava envolvido na nossa produção, e havia levado à EMI, mas eles falaram “Não, não, não! Tem muito sotaque. Gringo, não!” O fenômeno Blitz era muito brasileiro, carioca e batata frita. Genial! Blitz era maravilhosa naquela época! Os shows deles eram acontecimentos. Era muito teatral, muito bacana. E a EMI estava procurando outra coisa parecida. Talvez eu fosse um pouco sério demais pra eles, enfim, não interessou. O Fernando Adur falou assim, “Eu vou fazer uma coisa por você, porque sei que a CBS [n.e. Columbia] está procurando um cantor roqueiro”. Como [a CBS] era no Flamengo, não sei, não havia nenhuma conexão e eu não havia levado nada pra lá. O Fernando falou para fazer uma cópia e me prometeu que levaria para o presidente da gravadora e que no dia seguinte entregaria de volta a fita. No dia seguinte, antes que ele pudesse me entregar a fita de volta, recebi um telefonema do Claudio Condé: “Adorei a fita, vem para cá. De onde você veio? De onde você surgiu?”… [ri] “Olha, não foi da noite para o dia”. Falei do Vímana e tal. “Dá para você vir aqui? Traga seu instrumento que eu quero mostrar para o presidente”. Aí levei o Casiotone pra lá. [risos] Fiz uma produção para parecer roqueiro: passei umas gomalinas na cabeça [risos], peguei um casaco de couro e lá fui eu tocar para o presidente da CBS com o Casiotone. Cantei “O preço do prazer” pra ele. Ele olhou para o Cláudio Condé e fez assim [faz um sinal de legal] e saiu. O Cláudio falou, “Você está contratado”. Aí, o que aconteceu? Mandaram a gente para o estúdio no dia 31 de dezembro. Todo mundo festejando o final de ano… Havia uma brecha lá que ninguém queria gravar. “Vá lá e faça o seguinte: sabe aquela música “Vôo de coração” que você gravou naquele porão? O padrão 8 pistas não é o nosso padrão. Tem que ser 24. Então, quero que você vá para lá e copia os 8 nos 24”. Falei, “Você tá louco! Que loucura é essa? Você acha que vou copiar a guitarra do Steve Hackett para outro formato e perder essa guitarra maravilhosa? Pra quê? Só para ter em 24 canais, para vocês ficarem satisfeitos e guardarem numa gaveta? De jeito nenhum!”… “Mas é isso que a gente quer!”. Então, fui para lá e, em vez de fazer isso, a gente gravou “Menina veneno”. [ri] Falei, “Olha, não deu para fazer aquilo. Sou contra. Mas ouve isso aqui”. Nessas alturas já era Ano Novo, 1º de janeiro de 1983. Ele ouviu e falou, “Caramba! Essa música é maravilhosa!”
Tacioli – Mas por que essa insistência em “Menina veneno”?
Ritchie – Olha, do meu repertório, o Liminha queria gravar “Vôo do coração”, o Mayrton Bahia queria gravar “Baby, meu bem”, mas eu sempre achei que “Menina veneno” fosse especial. Primeiro, foi uma música feita em 20 minutos. O que é sempre maravilhoso quando você faz uma música e ele vem sozinha. É sempre um bom sinal, porque ela já está pronta na sua cabeça de certa forma. Ela nasceu sozinha. Nasceu do nada. Bernardo [Vilhena] chegou em casa. Estávamos lendo o livro O homem e seus símbolos, do Carl Gustav Jung, o pai da psicanálise, ou de uma das vertentes, enfim…, que ele havia me dado de presente. É muito interessante porque ele fala da linguagem dos sonhos, há uma história sobre a manifestação da anima que ele categorizou em quatro diferentes manifestações femininas que aparecem no sonho masculino. Então, tem a amazona, a professora, a mãe e a donzela venenosa. A donzela venenosa é um figura feminina jovem, sedutora… Vocês conhecem! [ri] Todo mundo conhece! O engraçado é que as meninas se identificavam com essa coisa. Foi uma mágica que fizemos ali sem querer. O abajur cor-de-carne era um abajur que havia no meu quarto. Havia o lençol azul também. O Bernardo ia assim [imita alguém olhando ao redor e anotando as coisas]… “Um abajur cor-de-carne, um lençol azul [risos], cortinas de seda…” e assim foi… Vinte minutos depois, a música estava pronta. Aí ele, “Que tal ‘Menina veneno’? ‘Donzela venenosa’ não dá!” Falei, “Grande título! Agora, eu sonhei com uma melodia essa noite… E isso não acontece sempre.” Não era bem a melodia de “Menina veneno”, mas era uma melodia… [cantarola] “Mas o que é isso?” Peguei o Casiotone e fui tirando [volta a cantarolar]… Aí o Bernando mandou, “Meia-noite no meu quarto” [ri]… E em 20 minutos estava tudo pronto: letra e música. Nunca mais na nossa vida fizemos uma música tão rapidamente. Ela saiu meio espirrada, parecia azeitona. Impressionante!
Daniel Almeida – “Menina veneno” nunca foi “Poison girl” ou nada assim?
Ritchie – Não, essa foi uma música que nasceu ali em português. Ela não era nada antes do Bernardo chegar com esse título e não era nada antes de ficar pronta. Ela nasceu… Foi impressionante. Sempre quis fazer outra assim e nunca consegui. [risos]
Keka – Que loucura! Nunca pensei que tivesse a ver com Jung…
Ritchie – Mas é engraçado. O que adianta uma música se ela não tiver várias interpretações. O Caetano Veloso falou pra mim que ele achava que era uma música sobre heroína. [risos] “Toda noite no meu quarto / Vem me entorpecer”… [risos] “Eu fico falando para as paredes”… [risos]
Almeida – Na paranóia, né? [risos]
Ritchie – É, é genial. Que maravilha, né? E outros que pensam…
Tacioli – Ele disse isso na época?
Ritchie – Não, foi quando gravei “Shy moon” [n.e. Gravada em Velô, Polygram, 1984]. No estúdio ele falou assim, “No início eu não gostava muito daquela música, mas depois vi que era uma música sobre eroína”. “O quê???” [risos] “Achei muito interessante, a coisa romântica.” Falei, “Não é nada disso. É um abajur cor-de-carne, mesmo!” [ri] Que era essa coisa de alabastro, horrorosa, que comprei na Rua 13 de Maio [n.e. Localizada no Bexiga e que abriga várias lojas de antigüidades], aqui em São Paulo.

Tags
Ritchie
de 21