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Entrevistas de música brasileira

Raul de Souza

O trombonista Raul de Souza. Foto: Henrique Parra/Gafieiras

Raul de Souza

parte 7/22

Aí passou o Jamelão e disse...

Tacioli – Que música você apresentou lá?
Raul – Não me lembro, essa não me lembro.
Tacioli – E o rapaz saiu…
Raul – Ele foi embora. Tocou o negócio dele, um choro, e foi embora. Morreu logo em seguida, coitado. Também era do bairro, Realengo, uma estação antes de Padre Miguel. Tocava bem. O irmão dele tocava trombone, pistom, o Jair, que conheci depois, já no clube. Aí fui começando a conhecer o que era clube, o que era gafieira. Completamente diferente o tipo de música… Ops, aí já era a hora do Ary Barroso. Fui lá, e comecei a tocar uma música, um choro.
Cirino – Ali era mais rigoroso.
Raul – Ali era mais rigoroso. Um choro com o Regional do Canhoto, um choro do Pixinguinha; difícil. Peguei a reta e fui andando. Aí passou um camarada atrás que falou assim: “Está muito moderno, menino!”. E foi andando. E segui tocando. Terminei. E perguntei quem passou aí me dizendo que estava muito moderno. Havia sido o Jamelão [ n.e. José Bispo Clementino dos Santos (1913), cantor e intérprete de samba-enredo da escola de samba Estação Primeira de Mangueira ]. Aí ele voltou e falou: “Está muito moderna essa música, muito difícil para o povo entender. Você conhece o maestro Carioca?”. “Não!” “A música dele é essa aqui: ‘Paran, pararan’…”, e começou a cantar pra mim. Falei: “Pô, é tudo isso? De novo, de novo”. Decorei aquela música ali mesmo, a segunda parte e tudo. Não me lembro o tom em que ele cantou, mas achei que era por ali mesmo. Pra mim não havia tonalidade, era qualquer uma. Peguei e saí tocando. “Está vendo?! Esse está melhor!” E foi embora. Aí, finalmente chegou a hora de me apresentar. O Ary com aquele óculos engraçado pra burro, a maior platéia, quietinha. Ele falou assim: “Tenho o prazer de convidar aqui um rapaz de nome João José, trombonista. Esse nome não dá, não me agrada muito, mas quero ver. Vem cá, João José”. Aí chego eu, com o trombone na mão, moleque. “Você vai tocar o quê?” “Vou tocar um choro.” Como é o nome dele?” E o Canhoto lá… Aí contei a história. “Passou o Jamelão dizendo que estava muito moderna uma outra música que eu queria tocar…” “Não tem nada, toca esse aí que eu quero ver.” Já gostou da minha atitude de falar, sem entrar com vergonha, com medo ou receio. Aí saí tocando. Nota cinco, que era a nota máxima. Pô, mil e quinhentos réis, dinheiro pra burro! Naquele momento existia esse programa de rádio do Ary e o outro do Jorge Curi, a Hora do Pato. Aí, fiquei lá, esperando. Aí ele [ Ary Barroso ] veio, me deu um papel e foi embora. Com esse papel passei num caixa que me deu um recibo para receber na quinta-feira. Em dinheiro, sem cheque. Aí voltei na quinta pra pegar o dinheiro. Uma bolada de dinheiro, que maravilha! Não havia ladrão nessa época. Lógico que existia, mas se desse bobeira, se saísse na rua contando o dinheiro. Fui pra casa naquela alegria, todo mundo contente, maior carnaval. E comecei a vir para a cidade, já a conhecia mais ou menos. Aí, somente comprava roupa cara, camisa de seda, meia de seda, sapato da Clark; super elegante. Comecei a esticar o cabelo, como os negões americanos… Passava uma goma e queimava. Pelo amor de Deus, ficava 15, 20 minutos com aquele negócio na cabeça pegando fogo. Agora lava a cabeça, água fria. O cabelo ficava lisinho. [ ri ] Mas era coisa da moda. Fazia um penteado, pegava e mudava pra cá, mudava pra lá. Todo mundo usava isso antigamente.
Tacioli – E mulherada gostava.
Raul – Lógico, era uma coisa moderna. Elas – as negonas – também usavam, mas pente quente.

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Música instrumental
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