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Entrevistas de música brasileira

Raul de Souza

O trombonista Raul de Souza. Foto: Henrique Parra/Gafieiras

Raul de Souza

parte 6/22

O que vou dizer à mamãe?

Max Eluard – Nessa época, o que Pixinguinha representava pra você?
Raul – As músicas que eu escutava dele, do grupo, juntamente com o Benedito Lacerda, eram uma coisa do melhor. Até então, eu havia escutado e conhecia jazz ou samba. Foi a primeira música de choro que eu comecei a ouvir depois da igreja. Então, por esse motivo fiquei emocionado em conhecê-lo e tocar junto.
Tacioli – E hoje, o que Pixinguinha representa?
Raul – Representa o pai da música brasileira instrumental. Existiram outras pessoas fazendo música também, mas eu acredito que ele foi o pioneiro do lado mais moderno da história, tanto em composição, quanto em harmonia e melodia. E ritmicamente até também. E aí, botei um terninho, gravata e entrei no trem. Marechal Floriano com a Rio Branco. Tudo bem, não tem condução, não tem bonde, não tem ninguém. Vou a pé. Saltei na Central, entrei à esquerda e andei até a Rio Branco. Cheguei à Rio Branco, o bar estava lá… Em cima dele é que ficavam a Copacabana e a Continental. Entrei. Sem graça, subi, segundo andar. Havia uma orquestra [ Tabajara ] tocando. Aí eu parei e perguntei: “Vim procurar Seu Pixinguinha”. “Quem? Seu Pixinguinha? Ele vinha aqui há uns 12 anos.” [ risos ] “Pô, há 12 anos que ele não vem aqui? Mandou procurá-lo aqui, viado! Tudo bem, tudo bem.” Mas aí comecei a me interessar pela orquestra; é outro tipo de coisa. Pra mim tudo era novidade.
Dafne – Aquela orquestra era a Tabajara?
Raul – Era. Daí eu conheci o Severino de cara, clarinete. [n.e. Célebre maestro, clarinetista, saxofonista e compositor pernambucano, Severino Araújo de Oliveira (1917) dirige há décadas a Orquestra Tabajara ] Todo mundo novinho, bonito. O Zé Bodega [ n.e. 1923-2003 | Considerado um dos dez melhores saxofonistas (tenor) brasileiros de todos os tempos e irmão do maestro Severino Araújo, da Orquestra Tabajara ], o Marinho. E fiquei ali ouvindo a orquestra e o cara dizendo pra mim: “Não pode ficar aí não”, aquela ignorância antiga. “Não pode ficar aí!” “Só um pouco, deixa eu ouvir esse acorde, essa melodia.” “Não pode, não pode!” “Tudo bem, tudo bem” e desci, fui até o bar tomar guaraná. “Para onde vou agora? O que vou dizer à mamãe?” Aí eu já tinha me excluído da igreja. Aí ela vai dizer: “Bom, você está no mundo, o mundo é isso aí. Mundo de mentira, um mundo não-sei-de-que, mundo de não-sei-o-que-lá. Volta pra Jesus de novo!” [ risos ] “O que vou dizer à mamãe?!”, continuei… Tomei aquele gole de guaraná e, de repente, entra um cara com um violão pendurado, falando como pato rouco: “Dá uma cerveja aí”. E quem era o cara? Nelson Cavaquinho. Aí, chegou, olhou pra mim, viu aquele saco e falou: “Isso é um trombone?”. “É, um trombone.” “Trombone é difícil, tem que estudar muito. Dá uma cerveja aí.” [ risos ] “Pô, eu vim procurar o Pixinguinha.” “Quem? O Pixinguinha? O Pixinguinha eu não vejo há mil anos. Estou sempre por aqui, almoço aqui, tomo a minha cerveja…” “Que legal!” “Você mora onde?” “Eu moro lá pro meio do bagulho, na Padre Miguel.” “Ah, não perde tempo, não.” Só nesse papo ele tomou uma cerveja. [ risos ] “E não perca tempo. Vai na Hora do Pato, da Rádio Nacional [ n.e. Programa de calouros de grande audiência conduzido por 16 anos pelo radialista Jorge Cury. Mais tarde passou a se chamar Aí Vem o Pato ]. Hoje é quinta feira, dia da inscrição. Vá lá e se inscreva na Hora do Pato; vá também na Tupi e se inscreva no programa do Ary Barroso. No mesmo domingo você toca e ganha em dois lugares.” E olhou pra minha cara: “Você tem cara de tocar bem. Você vai ganhar, não vai perder nada. Perdeu no encontro, mas vai ganhar muita coisa, em dois programas no mesmo dia”. “Você acha mesmo?” “É lógico! Vai nessa!” “Tudo bem. Prazer!” E nem perguntei o nome dele.
Tacioli – Mas você não sabia que era o Nelson Cavaquinho…
Raul – Eu? Não! Pra mim era um louco qualquer que saiu de casa, na mão. [ risos ] E veio inspirado me dar essa idéia, de ir nas duas rádios. Aí fui lá e me inscrevi para o domingo seguinte. Fiquei pensando em não botar o meu nome todo, não era possível. Tinha que ter um nome qualquer pequeno. Aí eu falei João José pro cara, o meu nome da carteira de identidade, João José. E lá também no Ary Barroso, João José. Aí fui pra casa à tardinha. “E como foi?” “O Pixinguinha estava gravando não-sei-onde, e então falei com um senhor.” Pra mamãe tanto faz um senhor ou um louco, não sabia quem era mesmo. E nunca ia saber. Aí, no domingo, comecei a avisar os amigos. “Olha, me esperem na estação de Bangu que vou ganhar esse negócio lá.” Lavei o trombone, cuspe, não havia nada de óleo; era cuspe. E fui lá, onde comecei a passar a música que eu ia tocar junto com a regional do Claudionor Cruz. “Vai para o trono?” E a platéia toda: “Vai!”. Botavam o sujeito numa poltrona enorme, com uma coroa de rei na cabeça. Era para músico e cantor. De repente vem um molequinho com um cavaquinho, toca um choro de não-sei-quem, ganha também e empatou comigo. Fui ficando pra trás. “Sai o Raul?” “Não!” “E esse outro?” “Ficam os dois?”. E aí empatou e dividimos o dinheiro. Ele, que era mais velho do que eu, pediu logo um rabo-de-galo, uma cachaça com um negócio dentro; tomou uns três daqueles e saiu batido. Fui cuidar do meu interesse. Meu espaguetinho, um sanduíche qualquer pra fazer hora.

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