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Entrevistas de música brasileira

Raul de Souza

O trombonista Raul de Souza. Foto: Henrique Parra/Gafieiras

Raul de Souza

parte 5/22

E quem estava tocando lá? O Pixinguinha!

Almeida – E aí você ficou tocando tuba?
Raul – Fui tocando a tuba. Fiquei empregado lá, com uniforme e tudo. Era na Fábrica Bangu. Logo o doutor Farias, que era o chefe-geral, falou pra mim: “Raul, desiste desse negócio aí. Não dá certo. Você larga as suas máquinas e leva mais de 15 pessoas pro banheiro. Todo mundo pára de trabalhar pra ouvir você tocar choro no banheiro. Não pode! Pára com isso e fica na banda, tudo bem?!” Aí estou lá com o tromboninho, que começou a dar problema… Terrível o velho trombone! Dei pro meu sobrinho e arrumei um trombone na banda, um super antigo da Weril [n.e. Empresa brasileira de instrumentos musicais de sopro, fundada em 1909 ]. Bom o trombone, de metal, tudo legal. Arrumei emprestado junto com o Marçal, que era o chefe do departamento, da partitura. O engraçado é que eu me lembro de todo esse pessoal, me lembro de todo mundo. E quando havia procissão na rua, a banda ia toda uniformizada, calça azul, túnica branca, cheia de divisa; havia cinco divisas. Parecia um coronel, tudo engomado, camisa, gravata preta, o sapato brilhando. Ali não tinha pra ninguém! Bom, um dia, terminou o concerto, que foi perto da igreja, fui na (sede da) banda, botei a tuba lá e peguei meu trombone, e pus dentro de um saquinho que minha mãe fazia com coisas da escola. O trombone era qualquer coisa. Tinha esparadrapo, chiclete. Era um chuveiro! Si bemol já era! Conclusão: estou indo pra casa, por volta de umas nove e meia, dez horas da noite, um calor de 40 graus, Bangu… Conhece Bangu? Nem sonhe! Quarenta graus às dez da noite. Um calor louco! Ali era um horror, cercado pelo morro, o sol fica ali o tempo inteiro, e vem a noite, o sol fica lá, na terra. Dá para fritar um ovo no asfalto. Bom, estou indo pra casa, quando, de repente, falei: “Não vou pra casa agora, não. Vou ser obrigado dormir, estou ligado”. Cheio de música na cabeça. “Vou entrar aqui.” E entrei numa rua onde eu ensaiava com o regional, uma rapaziada mais velha que eu. E o pai de um dos violonistas tocava no grupo do Pixinguinha [n.e.Instrumentista, compositor, orquestrador e arranjador carioca, Alfredo da Rocha Vianna (1897-1973) foi um dos responsáveis pela “modernização da música popular brasileira” nas décadas de 1930 e 40]. Era um senhor de idade, o Cecílio. E eu estava sempre tocando com ele. Tocava tudo do Pixinguinha, tudo o que era choro no trombone. Um regional, com violão, cavaquinho e flauta e trombone no lugar de flauta e saxofone. Super legal! Fazia aquelas festas em casa de família. Mas, de repente, ouço um saxofonista: “Quem é esse cara?”. Fui chegando e entrando na casa. Eu não sabia que, aquele dia, era o aniversário do Cecílio. Havia uma festa enorme, com gente pra burro. E quem estava tocando lá? O Pixinguinha! Era o próprio cara quem estava tocando lá. Com um litro de cachaça de nome Resende, que era um álcool, uma caixa de cerveja, sentado e tocando saxofone. E eu passei do lado, fui direto pra cozinha, nem olhei para o lado. [ risos ] Direto porque eu sabia que ia dar confusão pra mim. Aí quando eu cheguei na cozinha, tirei o quepe e botei em cima de um negócio lá, olhei e havia uma porção de copinhos pequenos brancos, de batida de não-sei-o-que, coco, maracujá. Eu não bebia nada, apenas vinho doce que o coroas diziam pra mim: “Vinho doce é bom pra você, que é garoto; vai ficar forte”. Tomava um só e já ficava meio cabreiro, porque era doce. Conclusão: tomei aquele negócio ali e aí vem o Cecílio. “Olha, falei com o Pixinguinha. Você vai tocar uma música porque ele quer te conhecer, quer te ouvir. Vamos lá, deixa de vergonha!” Aí eu fui. “Boa noite, como vai o senhor?” “Sente aí, menino, e toque uma música pra mim. O Cecílio fala muito bem de você.” E pegou a cachaça. E eu já saí com uma música dele. “Pan pan”, todo mundo já sabia e partiu comigo. Ele ficou olhando assim, e eu fiquei olhando pra ele. Aí, ele abaixou o olho, pegou o saxofone e saiu atrás de mim, fazendo os contracantos que ele fazia. Toquei outras músicas. De repente, ele pára uma música e fala assim: “Não pode ficar mais aqui, não. Vai pra cidade e me procura. Estou sempre por lá, na Copacabana ou na Continental. Estou sempre ali.” Tudo bem. Tomei uma cerveja, estava acreditando em tudo, Pixinguinha, pó! Aí, uma semana, falo pro papai que eu tenho que ir pra cidade falar com o Pixinguinha e enrolo a mamãe. “A senhora sabe quem é?” “Não sei quem é, não.”

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Música instrumental
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