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Entrevistas de música brasileira

Raul de Souza

O trombonista Raul de Souza. Foto: Henrique Parra/Gafieiras

Raul de Souza

parte 4/22

Toco qualquer instrumento

Tacioli – E como foi esse começo de vida de músico, Raul?
Raul – Isso tudo que falei foi quando estávamos em Campo Grande. Quando nós mudamos novamente para Bangu – o papai havia sido foi transferido -, já tínhamos casa própria. Aí começou o meu lance todo com o regional. Tocar em casa de família, em casamento, em aniversário. Pintava sempre uma mixaria. Eu já cobrava. Falava para o flautista: “De graça, cachaça e muito obrigado? Espera aí. E quando acabar a flauta, ninguém vai te dar de presente uma. Pega, sei lá, qualquer 100 mil réis e está bom”. Era dinheiro, havia moeda de ouro e de prata. Dois mil réis, desse tamanho assim, enorme, pesada. E, ao mesmo tempo, entrei para a Banda da Fábrica Bangu tocando tuba. Trabalhei pouco tempo lá. Comecei na máquina de tecelão que era muito rápida, milhões de fios, e se quebrava um daqueles, a máquina parava. Aí, pegava e colava rapidinho. Havia lá, mocozeado, um tromboninho. Eu já tocava choro que tinha aprendido, que havia escutado no rádio, no rádio do vizinho, porque em casa não havia rádio. Aí estou eu lá na porta e digo: “Não vou trabalhar em fábrica nenhuma! Vou tocar nessa banda aí!”. Arrastei um garoto que também fazia parte da igreja e que tocava trompete. “Vem comigo!” E ele disse: “Não vamos entrar jamais nessa banda”. “Deixa de ser negativo! Vamos no positivo! Venha comigo. Eu falo com o maestro.” O mestre da banda era um tenente do exército. Tinha a bota e aquela perneira de couro, engraxados, cabelo baixinho. E ele batia com uma baqueta na perna, na perneira, bem casca-grossa. Bom, estou lá na porta e quando acabou de tocar um dobrado, ele olhou pra porta e falou: “O que você quer, menino?”. “Quero fazer parte da sua banda.” Ele falou: “O que você toca?” “Qualquer instrumento. Toco qualquer um!” “É mesmo? Então toca aquela tuba ali!” Era uma tuba com a boca pra lá. Eu olhei assim… “Essa tuba com a boca pra lá, humn, isso aí é uma outra história!” Essa foi a tuba que o Felipe Susa mudou, que era um maestro, compositor português, que até hoje toca. Todas as tubas eram fabricadas com a boca pra cá. Aí o Felipe Susa falou: “Olha aqui, vou mandar fabricar uma tuba maior, em si bemol, que é mais grave, e com a boca pra mim. Quero ouvir o que escrevo”. Aí estou vendo um outro mulato, super gente fina, que tinha com uma tuba king, com campana pra cá. Olhei pra cara do neguinho e ele sorrindo. “Como é, tudo bem?” Eu digo: “Olha, eu não entendo nada… Me ajuda aqui que eu falei para o maestro que eu sabia.” “Ah é? Não tem nada, não. A seqüência é essa aqui.” “E essa nota aqui?” “Dó.” “E essa aqui pra baixo?” “Si.” Era tudo grave. Eu digo: “Ah, vou de ouvido”. E ia ter um dinheirinho porque eram todos empregados do Guilherme da Silveira, que era o dono da Fábrica Bangu. Essa era a banda dele. E a maioria que tocava ali havia sido militar do Exército, da Aeronáutica, da Marinha. Era tudo velhinho. Então pra eles era o maior prazer ter uma banda pra tocar novamente depois da reserva, da aposentadoria, né? E eu fui ficando ali.

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