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Entrevistas de música brasileira

Raul de Souza

O trombonista Raul de Souza. Foto: Henrique Parra/Gafieiras

Raul de Souza

parte 3/22

Minha mãe era cartomante

Tacioli – Como era o ambiente na sua casa? Você falou que moravam todos juntos, seu pai, sua mãe, sua avó, seus irmãos…
Raul – Tudo junto, tudo junto. Ali era o seguinte: do primeiro casamento do meu pai vieram dez filhos. A mulher dele morreu, e logo em seguida, sei lá, um, dois anos, ele conheceu a minha mãe. Já tinha por volta dos 38 anos. Minha mãe era cartomante, jogava carta com as primas, a quem chamava de irmãs porque foram criadas juntas, sabe como é? Bom, mas não sei quem foi que entrou na igreja primeiro, se foi meu pai ou minha mãe, que lia carta.
Teresa – Igreja não permite isso, né?
Raul – Não, não. Ou a igreja ou as cartas. Uma coisa ou outra. Sou o primeiro filho da segunda mulher do meu pai. Eu cheguei a conhecer quatro, cinco irmãos por parte do meu pai. Eram todos brancos, olhos azuis, verdes, não-sei-o-quê. E eu naquele meio… Irmão é irmão, pai é pai. Não havia nada de racial, foi tudo maior amor. Meu irmão mais novo – um ano apenas – se parece comigo; o negócio de olho puxado, chinês, mas cabelo liso, preto. Eu o chamo de “China”. “Ô, China, como é?” Ele toca contrabaixo, faz baile pra terceira idade lá no Rio. Não larga o baile. Todas as quintas, sextas, sábados e domingos. Todo mundo dançando, cantando. Todos adoram estar lá. Então, eu venho daí, dessa família, em que ninguém foi músico, nem meu pai, nem minha mãe. Ninguém.
Tacioli – Mas você tem algum irmão além do China por parte de mãe?
Raul – Não. Da minha mãe, dois filhos somente. E os outros, quatro, cinco, eu não cheguei a conhecer. Eram mais velhos. Um deles teve um dedo mordido por um macaco, deu gangrena e morreu. Aquela história. Macaco, esses macaquinhos… [ risos ]
Dafne – Na floresta?!
Raul – Não, no parque, sabe como é? Aí morreu. E meu pai contava essas histórias… Eu ficava interessado em histórias. Meu irmão, não, é mais quieto. Aliás, eu arrumava confusão pro meu irmão. No primeiro carnaval que participei, eu não tinha instrumento. Eu tinha 12, 13 anos e sempre forte. Havia um português dono de uma carvoaria, num bairro perto da igreja. Eu tocava pandeiro na igreja. Falei pra mamãe: “Vou trabalhar com o português”. Vou carregar carvão num calor de 40 graus, mas tudo bem. Chega sábado e domingo, vou desfilar bem-vestido, de sapato e terno, com a minha bicicleta e arrumar uma namoradinha. Eu queria namorar, mas não podia, era confusão. Mas um dia, nessa coisa de levar e trazer o carvão, passo numa rua e ouço “Pipipipi, pó!”. “O que é isso aí? Está muito ruim!” Era um cara estudando trombone. Eu achei o som muito ruim, terrível. Eu conhecia a escala, dó, ré mi, fá sol, lá, si. Aí bati na porta. “Bom dia, tudo bem? Ouvi uma música aí. Qual é o instrumento?” “Ah, trombone. Você toca?” “Mais ou menos.” Eu falei pro cara que só sabia uma escala. “Ah, toca aqui, toca a melodia.” Não era uma melodia, não, mas apenas algumas notas que aprendi só de olhar o pessoal. Nunca tive professor. Aí peguei. [ tenta reproduzir o som do trombone ] “Pa-ram / Pó-ram-Ri-ru-ri-ru-ri.” Alguma coisa, né?!. Ele falou: “Onde você mora?” “Moro lá embaixo, na rua do Monteiro.” “É mesmo? Leva o trombone contigo. Não quero mais esse negócio aqui. Leva! Depois que você cansar do trombone traz pra mim, tudo bem?! Aqui é minha casa.” Falei que o meu pai era pastor da igreja de Campo Grande, que não havia perigo algum eu fugir com o trombone. “Não. Vi pela sua cara que você não é ladrão. Você é uma pessoa honesta. Leve o trombone.” Mais tarde a gente arrumou um carnaval no meio da rua, lá no ponto final do bonde. Havia bonde! O bonde fazia a volta e retornava para Campo Grande de novo, ou então ia para a Praia de Guaratiba, um lugar legal nessa época. Falei pro meu irmão: “Olha, eu vou pular pela janela”. Porque a casa que morávamos era como de fazenda, a janela alta. “Vou pular pela janela e tu joga a roupa. Eu vou tocar nesse carnaval!” Você não sabe a merda que deu! Pra ele! Pra mim não deu nada. Sujou pra ele. Ai fui pro carnaval, cheguei em casa às cinco da manhã, pulei a janela novamente e coisa e tal. Mas todo mundo – os irmãos da igreja – começou a buzinar no papai. “Eu vi seu filho tocando no carnaval!”

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Música instrumental
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