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Entrevistas de música brasileira

Raul de Souza

O trombonista Raul de Souza. Foto: Henrique Parra/Gafieiras

Raul de Souza

parte 2/22

Com 14 anos eu me expulsei da igreja

Dafne Sampaio – Você é de Bangu?
Raul – Não, nasci em Campo Grande, depois de Bangu. Como era a rua? Rua Matoso? Sei lá, aí eu já não sei. Cadê a certidão de nascimento? [ risos ] Quando eu volto para o Brasil tenho que ir para Campo Grande tirar… Uma confusão! Tudo errado, muito antigo, já não vale mais nada o documento. Somente o passaporte e título de eleitor. Posso votar, legal, né? Antes eu não podia. Aí nasci em Campo Grande e como o meu pai era pastor protestante, pobre, não como o pessoal de agora com quatro, cinco carros… Eu vou chegar a esse ponto mais tarde, não quero passar. Bom, meu avô havia comprado uma casa em Bangu, entre Bangu e Padre Miguel. Havia uma igreja pequena, onde fui consagrado pelo pastor Paulo Lima Macalão, que fazia as traduções para o português dos hinos ingleses e americanos, que é tudo aleluia, tudo dos negões de lá, americanos. E depois vim a saber que as coisas que eu ouvia na infância, nas igrejas americanas de negros cantava-se a mesma música. Cantando com pandeiro, não-sei-o-quê, uma alegria! Eu ia sempre com a minha mãe para a igreja.
Teresa – Olha aqui, Raul: o dia em que você esteve aqui, no museu, com o Guilherme Vergueiro, foi quatro de julho de 89.
Raul – 89.
Teresa – Falou 88; é 89. Em cima, boa memória, hein?!
Raul – Está vendo a organização? É por isso que eu estou aqui. [ risos ]
Dafne – Aí você ia com a sua mãe pra igreja…
Raul – Então eu vi que havia uma banda de música, com coral, com tudo. E eu comecei a marcar o compasso na perna. Isso era a minha mãe quem dizia. Era instintivo. Já era o ritmo. Não o contrário. Era no ritmo. Um dia, já estava com uns oito, nove anos, teve uma festa na casa do Paulo, do pastor maior da igreja, o chefe-geral de todas as igrejas no Brasil. Passou um senhor, o Farias, a primeira flauta da Sinfônica Brasileira, no Teatro Municipal. Ia lá, levava uns arranjos, composição, não-sei-o-quê. Ele ensaiava a banda e eu ficava ouvindo; queria sempre ir para a igreja, mas a minha mãe não podia me levar todo dia. Então eu ia sozinho. Era perto, morava perto. Aí ele passou e falou assim: “Põe o menino pra estudar música!”. Eu me lembro dessa voz, passando. Ele sacou que eu tinha o dom musical, talento, sei lá. E aí começou essa coisa. Mais um ano, doze anos, eu comecei a tocar pandeiro. Não tinha outro instrumento pra eu poder tocar, não havia vaga. Eu sempre me ligava nos instrumentos mais graves. Saxofone-barítono, tuba, trombone. Um instrumento médio, mas é grave. Não é como, por exemplo, um contrabaixo-saxofone. Toca na estante. É um som terrível [ ri ], eu gosto mais da tuba. Cheguei a tocar tuba. Isso na banda da Fábrica Bangu. Com 14 anos eu me expulsei da igreja, eu mesmo. Eu não queria mais ser membro, havia acabado. Era muita proibição; “não pode fazer isso, não pode fazer aquilo”. Não podia nada.
Daniel Almeida – Seu pai não se opôs?
Raul – Não, saí de casa na hora. Me mandei porque ia dar um rolo danado. Meu pai é branco, meio português. Minha mãe é cabocla, da minha cor, cabelo liso igual ao da minha mulher. Minha avó também. Minha avó já vem de uma origem… Bisavó, sei lá? Chinesa.

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