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Entrevistas de música brasileira

Raul de Souza

O trombonista Raul de Souza. Foto: Henrique Parra/Gafieiras

Raul de Souza

parte 16/22

Lancei o trombone completo nos Estados Unidos

Max – Raul, e dessas histórias todas que você contou, o que ficou hoje pra você? Como está a sua vida?
Raul – Maravilha, maravilha. [ pausa ] Estou vindo ao Brasil sempre, isso é bom para reciclar, ver os amigos. Poucos amigos, mais amigos fora. Aí fico triste porque o outro morreu, o outro continua no goró. Quando passa de uma certa idade, tem que parar. Se esses caras vão nessa, acabam morrendo mesmo, mas por outro lado, é alegria, meu irmão.
Max – Como foi sua decisão de ir para a França?
Raul – Para a França eu já havia ido várias vezes, desde 65; depois em 66 em Montecarlo, onde fiquei quatro meses. Foi lá que eu comprei o meu primeiro trombone meio baixo, que hoje em dia é chamado de trombone completo. Eu lancei esse modelo de trombone nos Estados Unidos. Hoje em dia é usado nas escolas, é quase obrigatório, isso graças à sua sonoridade, ao seu timbre… Fui o primeiro a tocar como solista, porque é um instrumento pesado, não é leve.
Tacioli – Raul, qual é a história da apresentação de amanhã?
Raul – Amanhã é o dia de composições, de idéias novas. Eu, o meu cunhado, que é pianista e compositor, e o pessoal do grupo, como o baixista que é casado com uma turca, então está sempre na Turquia. O meu cunhado um dia me telefonou e disse: “Tenho um negócio aqui; vai dar uma coisa diferente no fim da música. Vem cá!”. Eu morava perto dele e a gente se encontrava quase todo dia. Começou nessa coisa e acabamos gravando. Havia outro baixista que casou com uma indiana e hoje mora na Índia. E entrou esse rapaz no lugar. Ele substituiu uma vez; tocava percussão no contrabaixo. “Não, não! Pensa um pouquinho, pensa!”, porque se baseava no ritmo da Turquia, afinal estava sempre tocando com o pessoal de lá. Agora está tocando bem, está legal! Bom garoto, gente finíssima! Patrick. As músicas passam pelo ritmo africano, com vozes, flamengo, jazz, funk e funk brasileiro. Há uma música minha que fiz em homenagem ao bairro em que eu morava. Chama-se “San Remy”. Falei: “Pô, San Remy!”, afinal sou o São Raul. Tem lá o dia do San Raul.
Teresa – Qual o dia de São Raul?
Raul – Eu não sei. Acho que é 19 de julho.

[ fala em francês com a esposa Yolene ]

Teresa – É o dia do meu nascimento!
Raul – É mesmo? É mais ou menos nesse dia. Acabei tocando percussão. Arrumei tumbadoura e tudo. Tá vendo só como foi bom o passado? [ ri ] Foi bom! Gravei percussão e depois a melodia em cima. Legal. “San Remy”. No show há também a menina que canta, que fala um negócio. Eu falo no meio também. Tem uma entrevista do Wayne Shorter [ n.e. 1933 | Saxofonista (tenor e soprano) norte-americano, autor de discos como Adam’s apple, de 1966, e Native dancer, de 1974, feito em parceria com Milton Nascimento ] falando do Coltrane, me contando que ele tocava e estudava demais, que ficava o dia inteiro somente estudando. Há eletrônica também; computador. O computador ajudou muito o meu cunhado organizar as vozes; tem passarinho no meio, tem uma porção de coisas. Ah, tem uma fala minha – que ela gosta [ aponta para a esposa ], em que falo do Brasil, “Brasil, Brasil brasileiro, não-sei-o-que-lá”, que é o país do pandeiro… Mas por essa brincadeira com a minha voz, já estou sendo convidado pra falar num curta-metragem do Sílvio Back. Eu e o Guilherme Vergueiro musicamos o filme sobre o Stefan Zweig. [ n.e. 1881-1942 | Escritor austríaco, autor de livros como Brasil, um país do futuro ]

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Música instrumental
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