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Entrevistas de música brasileira

Raul de Souza

O trombonista Raul de Souza. Foto: Henrique Parra/Gafieiras

Raul de Souza

parte 15/22

Como vou tocar trombone deitado?

Almeida – Você conta um monte de coisa, vai pra um lugar, muda, se está errado, volta e a coisa se certa. Você nunca sentiu medo?
Raul – Não, medo, não. Sempre tive confiança no que vou fazer, mesmo sendo errado, como foi com a bebida, uma coisa errada. Bebi a ponto da auto-destruição por eu não trabalhar, trabalhar pouco. E pelo músico que sou sempre procurei melhorar, melhorar, melhorar. Isso independe do país; na minha época você melhorava sozinho. Hoje em dia, não, a garotada quer tocar e apresentar um trabalho novo sempre. Mas naquela época, não. O Clóvis, irmão do Cazé, morreu jovem, 22 anos de idade. Ele tocava demais da conta. Ele, em vez de ir para os Estados Unidos, para qualquer lugar, ficou por aqui. Medo de viajar, de encarar um negócio diferente lá fora. É a coisa da coragem. O Maciel, por exemplo, esse maluco – eu o chamava de “Maluco” – foi convidado por Tommy Dorsey [ n.e. 1905-1956 | Trombonista norte-americano e líder de uma famosa big band de jazz da época do swing na década de 1940 ] para participar da orquestra dele. E naquela época, um mulato neguinho na orquestra… É ruim, não vai entrar. Mas ele não quis, porque não tinha confiança, firmeza. E essa coisa sempre tive comigo. Vamos nessa que não tem problema. Se não der certo aqui, dá ali. Mas deixem-me voltar para a história do saxofone. Aí, já não podia mais ficar no hospital depois de três meses. Eu tinha um médico especial, especialista. O médico que me operou, eu o expulsei. “Não, não quero mais esse aqui, não! Merda!, está enchendo o meu saco.” Ele e os outros médicos pegavam a minha perna e faziam assim. “Porra, o que é isso aí?!” Um dia apareceu médico do Exército, um major. Eu falei: “Pô, major, que maravilha, o senhor vai tratar de mim aqui”. “Deixa eu ver esse negócio.” Ele não trabalhava lá, ia somente dar um help, uma ajuda, né? Aí ficou sendo o meu médico por quase dois meses e me ajudou até o final. Era ele quem falava com o médico-geral para ver a radiografia. Todo dia tinha radiografia, todo dia. Graças a Deus conseguiram colocar a perna no lugar. Depois que eu saí de lá, conheci uma médica, não massagista, mas doutora que trabalha somente com osso e músculo. Essa aí cuidou de mim. Sempre ficava uma perna mais curta que a outra. Mas quando eu estava numa daquelas noites, com aquelas bolas todas pra não dormir, dorme aqui, não dorme, sempre chegava um cara da enfermaria. Imagina, enfermaria com 14 pessoas. Saia um bom e entravam dois loucos. Enfermaria do pessoal que chegava quebrado; era a maior confusão. Você não conseguia dormir. Nessa ocasião o Hermeto, que estava o Robertinho Silva trabalhando com o Egberto Gismonti e com o Luís Alves, morava em Los Angeles, quase perto de mim. E o Robertinho e o Egberto estiveram lá. “Bicho, tenho que sair. Aqui é a primeira enfermaria! Todo mundo que chega quebrado vem pra cá. Sou o mais antigo daqui. Acho que lá no final tem uma outra enfermaria. Olha pra lá, Robertinho… Robertinho, olha pra lá! Está vendo uma porta igual a essa daqui?” “Tô.” “Então vem cá. Ei, Egberto, você que trabalha com negócio de eletricidade, som e elétrica, tem algo ligado ali. Desliga esse negócio ali. Você, Robertinho, vai empurrando essa cama aqui por esse corredor. Não olha pra trás. Como filme, ‘Não olhe pra trás!’. E me leva para aquele outro negócio, que deve ser uma outra enfermaria. Se não for eu volto, pelo menos faço uma viagem. Vamos nessa.” E lá não era outra enfermaria. Estava saindo um bebum. “Pô, graças à Deus vocês vão me tirar daqui. Vou voltar a tomar meu conhaquinho!” O cara inchado com o fígado estourando, um daqueles alcoólatras que estava preso ali. E nesse lugar só havia uma janela, uma janelinha, e aquele calor do inferno, verão. Falei para o Robertinho: “Tira a cama dele dali, dá marcha-ré na minha pra eu ficar de costas para a janela”. Conclusão: desapareci do hospital. Ninguém sabia de nada. Uma confusão danada no hospital, sobe e desce, “Desapareceu o Raul!”, “Pô, aquele cabeludo black power!”. Todo mundo me procurando. O Robertinho e o Egberto me deram esse presente. Aí, quando falo com o Robertinho… “Ei, Robertinho, você se lembra disso, bicho? Põe o cérebro pra funcionar, tira a bateria – afinal, de um lado é música e de outro é o pensamento. Vamos lá… Você se lembra disso?”. Ele me olhava assim: “Porra… Lembro, não”.
Almeida – Ele não lembrava dessa história.
Raul – É o que faz a noite…
Teresa – O Raul fala mais que o homem da cobra [ mais de meia hora e ainda não revelou como começou a tocar saxofone ]. Eu já estava prevendo isso, mas a gente…
Raul – Deixa eu terminar! Ele quer fazer uma pergunta, mas deixa eu terminar… Aí, conclusão:estou lá, naquela confusão, minha cabeça a mil por hora. O táxista, o louro, deve ter pensado que “O negão com branca… É gigolô!”. O cara não vai saber que são casados… Pela cabeça do louro, eu era um gigolô e deve ter dito “Vou matar esse cara!”. Foi por isso que ele me atropelou, parou o carro e veio ver se havia matado ou não. “Ah, está vivo, então vou embora.” E foi…
Dafne – Falando em história…
Raul – Mas não terminou, não terminou… [ risos ]
Dafne – Tá bom, tá bom!
Raul – Aí me veio na cabeça o seguinte: sou brasileiro, carioca, malandro velho. Fui atropelado na rua e aqui são os Estados Unidos. Vou descolar um dinheiro do prefeito. [ risos ] Como vou ficar? Sairei daqui em cadeira de rodas, depois muleta e bengala. Vou ter que alugar tudo isso. Nada é de graça. E tenho que pagar o hospital, que é do governo, mas tenho que pagá-lo. Mesmo comendo salsicha com pão, sanduíche comcatchup… Três meses e meio comendo esse negócio. Somente de vez em quando uma sopinha. Pô, e para eu ir ao banheiro? Não ia nunca ao banheiro, nunca! Tinha que tomar purgante fortíssimo. Era a a maior agonia que você pode imaginar. Bom, agora vem, agora vem a história melhor… [ risos ] Falei com a minha ex-mulher: [ fala baixinho ] “Você vai lá em Beverly Hills – não em Downtown – e descola dois advogados jovens. Fala tudo, que fui atropelado, que você estava presente, que fui quebrado no meio da rua… Faça isso!”. “Não!” “Faaaça isso, não seja tão americana. Como vou pagar o aluguel? Como vou ficar sem tocar trombone por não sei quanto tempo? Como vai ser? Vá lá!” Aí ela foi e, dois dias depois, ela volta. “Vamos descolar o negócio?” “Pega o cheque”. Aí foram dez mil dólares pra mim e cinco mil para os dois, que dividiram. Tem que ser inteligente, malandro no bom sentido. Aí saí do hospital, mas tinha que pagá-lo. Doze mil dólares, uma coisa assim. O cara falou: “Você vai pagar?”. “Vou” “Assina aqui.” Mas eu já tinha mudado de apartamento. [ risos ] Como vou subir dois andares com cadeira de rodas? Impossível! Tinha que morar em um apartamento térreo. [ fala baixinho] “Muda de apartamento que vou assinar o negócio lá…” Eu tinha uns amigos músicos que ajudaram minha ex-mulher. Bom, aí um dia comecei a pensar: “Como vou tocar trombone deitado? Não vai dar certo. Agora é oportunidade do saxofone-tenor”. E um amigo meu saxofonista, Ion Muniz, estava morando em Nova York. Liguei pra ele: “Ion, você vai ver pra mim um tenor Selmer, um daqueles antigos”. “Por quê?” “Estou todo quebrado.” “Está melhor?” “Já estou em casa. Veja quanto custa um que eu te mando o dinheiro.” “Legal.” Aí ele me telefonou. “Vai custar 850 dólares, com estojo, boquilha e não-sei-o-quê. Vou te mandar. Falei pra minha mulher: “Vamos comigo comprar uma palheta, que este negócio está sem palheta.” Aí cheguei: “Qual é a palheta que o pessoal usa? Vou começar a estudar agora. Não pode ser uma palheta dez”. “Dez não existe. O máximo é quatro e meio, cinco. Mas a dois, dois e meio está boa pra você.” “Legal.” “Que boquilha é?” “Seis, sete.” “Dois e meio está bom.” É outra coisa, nada a ver com o bocal do trombone. Aí, cheguei em casa e coloquei a palheta. “Bom, deve ser por aqui.” Aí comecei a lembrar do Cipó, do Zé Bodega, dos músicos, como era a posição, Dó… “Onde fica o Dó? Onde está isso, aquilo?” Tudo que os caras faziam, eu fazia… Outra posição na cadeira. “Onde fica o Sol? Opa, saiu legal o Sol! Se saiu o Sol, sairão todas.” Peguei tudo na hora. Então, de Si bemol até o Fá, que é o final do instrumento, tudo certo. Aí convidei o Moacir Santos [ n.e. O consagrado saxofonista, compositor e maestro pernambucano morreu aos 80 anos de idade no dia 6 de agosto de 2006 ]. “Moacir, comprei um tenor!” “Tenor, meu filho?” “É.” [ risos ] “Vem aqui porque de Si bemol até o Fá eu estou sabendo. Quero saber do Sol. Aqueles caras [ imita o som rasgado do sax ] “Uuuá!, Uuuá!”, quando cuspe o Sol e grita no tenor. “Como é?” “Bom, vou aí.” Viajou uma hora e meia de carro até chegar em casa. “Pô, que maravilha, um Selmer?” “É, um Selmer. Toca aí. Estou louco pra ver onde está o Sol, mudar de posição. Pô, onde está, onde está?!” “Aqui, meu filho.” [ imita o som do saxofone ] “Papáripará” “Porra! Mas está muito rápido, não estou vendo nada.” Não me ensinou nada. Inventou umas histórias, começou a falar dos caras, devolveu o saxofone e foi embora. Depois toquei com ele. Festa em casa de família, quero dizer, em casa de milionários, de família milionária.
Tacioli – Vocês se falam de vez em quando?
Raul – Com o Moacir? Não. Não tem tempo. Quando vou pensar em telefonar, ele já viajou. Não falo. Estou em Paris, ele nos Estados Unidos. Comunicação meio complicada, mas quero vê-lo. Ele está meio doente. Gostaria de vê-lo. Está fazendo show. Está com oitenta e lá vai…

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