gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Raul de Souza

O trombonista Raul de Souza. Foto: Henrique Parra/Gafieiras

Raul de Souza

parte 14/22

Você imagina o Sonny Rollins fazendo compras?

Cirino – E o saxofone, Raul?
Raul – Agora, voltando para o saxofone. Depois do meu disco eu havia gravado com Sonny Rollins. [ n.e. 1930 | Saxofonista (tenor) norte-americano, autor de discos como Saxophone colossus, de 1956, e Alfie, de 1966 ] Foi ele quem me convidou. Eu havia mudado de Boston para Los Angeles. “Quero você na viagem. Tudo bem?” “Tudo bem, tudo bem. A hora que você quiser…” Sonny Rollins, pô, não tem dia! Estou lá, ganhando três mil dólares aqui, mais quatro mil ali, cheio de dinheiro. Aí minha mulher americana falou: “Vamos arrumar um apartamento na praia!”. “Olha, isso aqui está assim, mas não vai render. Não está rendendo juros no banco. Quando acabar, acabou. Como vai ser?”. “Não, vamos na praia, vamos pra praia!” Aí saí com ela num domingo, meio-dia, fomos para uma praia, para outra, e para mais outra. Não conseguimos nada. E voltando pra casa às sete e meia da noite, indo pra garagem do meu prédio, havia um carro parado na minha vaga. Um carro grande, como um Cadilac, enorme. Não dava pra encostar ali. “Vou dar uma marcha-ré aqui, sair e encostar lá fora, na rua.” Encostei lá e fiquei de frente para o prédio. E a rua, mão e contramão. De lá pra cá não havia ninguém. Do lado direito, alguns carros bem longe. Mas, de repente, estou no meio da rua, e se não sou músico, eu não estava aqui pra contar história, veio um carro… Saí correndo pra frente, mas o cara me pegou e quebrou minha perna. O fêmur. Era um chofer de táxi. Fiquei embaixo do carro. Agora, a minha maior sorte foi a seguinte: havia vários carros estacionados e apenas uma vaga… Eu caí nessa vaga. Se eu bato a minha cabeça em algum lugar, eu não estaria aqui. Eu tinha uma bolsa de couro enorme, da época de hippie, cheia de coisas, que ficou presa embaixo. Eu não pude me mexer. E o taxista encostou o carro e veio me ver se tinha morrido ou não. “Ah, não morreu, tudo bem!” O cara foi embora. Ele não me socorreu. E minha mulher gritando: “Help!”, mas no meu ouvido!. “Saia daqui, pó! Help é pra lá, para o pessoal, pó! Você tinha que ter pego a placa do carro. Estou quebrado e tenho que ir para um hospital. Vai lá, chame alguém!” Aí chegou um sujeito e “O que foi? Chamem uma ambulância, polícia!”. Cinco minutos e já havia fechado toda a rua. Eu, com dinheiro no banco e em casa, mas sem carteira de seguro social. Eu estava esperando chegar meu Greencardpara casar novamente. O advogado fez uma confusão com o divórcio do meu primeiro casamento. Pegou o meu dinheiro e não fez nada; um advogado de bosta! Eu estou lá, casado, mas sem papel. Não podiam me botar na rua, me deportar. Bom, vou para o hospital. No primeiro hospital tiraram radiografia de tudo, do fio de cabelo, da unha, de tudo. A barriga estava com 15 radiografias. Aí o médico perguntou: “Você tem seguro social? Não! Saia daqui agora!”. Já que eu estava numa cama com roda, a minha mulher me arrastou pra fora para esperar uma ambulância do governo me pegar. Já do lado de fora, completamente dopado, com aquela dor longe – e sabendo que estava todo quebrado -, chega uma ambulância com um negão dentro. Pô, não vou chorar aqui. Vou ficar quieto. O negão está chorando, todo quebrado.” Aí, cheio de dor, todo quebrado, vem a luz na hora da operação. Dois médicos. Um pra operar e o outro pra ajudá-lo. Falei “Ninguém vai cortar a minha perna”. E falando para o assistente: “Fala para o seu amigo, o doutor, pra dar um jeito de colocar aquele peso, fazer um negócio qualquer para levantar a perna. Eu não quero que ele me abra a perna pra botar ferro por dentro. Sou músico e toco em pé. Não toco sentado!”. Aí ele falou para o médico: “Traction!”. “Bom, O.K. Você está escolhendo isso aí, acho que é o melhor.” Agora, segura as pontas. Um parafuso, um negócio assim na ponta, botou aqui e… [ imita o som do aparelho cirúrgico ] “Uuuuuá!”. Era elétrico. “Uuuuuá!” “Caraaaalho!” E eu somente olhando, conversando, faz de conta que não está acontecendo nada. “O que você toca?” “Toco trompete.” E o doutor lá. “Mas toca mesmo? Você gosta de Miles Davis?” [ risos ] E isso até chegar na terceira peça que é a mais grossa, usada pra poder suspender a perna e ficar assim. Tração. E nessa posição durante três meses e meio, compadre. Deitado. Três meses e meio! Cabelo desse tamanho, magrinho, parecia um faquir. Aí, o Sonny Rollins foi lá me ver. Botou uma touca, óculos escuros, passou num mercado qualquer e me trouxe um saco enorme de fruta. Não aparecia ele com aquele saco. Coisa de músico mesmo, sabe? Você imagina o Sonny Rollins fazendo compras? [ risos ] Um quilo de banana, um quilo de maçã, melancia… Fruta é fruta, põe aí. Um saco enorme. Aí, quando me olhou, parou e ficou assim…”Tudo bem, o pior já passou.” A enfermeira pegou os negócios que ele comprou e ele começou a conversar comigo. “Pô, gostaria tanto que você estivesse comigo nessa turnê”. “Pois é. Infelizmente aconteceu isso aqui, agora só na recuperação, não sei quando. Estou dopado. Sono de bolas.” Pela minha experiência antiga (com bolas), eu tinha que tomar mais. Então a receita do doutor eram duas somente. Duas de manhã, duas meio dia, duas à tarde e duas à noite pra dormir. E havia uma neguinha, que era minha enfermeira, para quem eu dizia: “Pega aquelas bolas, põe aqui!”. Ela contava umas histórias tristes. Eu a consolava. “Não é nada disso!”

Tags
Música instrumental
Raul de Souza
de 22