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Entrevistas de música brasileira

Raul de Souza

O trombonista Raul de Souza. Foto: Henrique Parra/Gafieiras

Raul de Souza

parte 13/22

Como convidado especial Cannonball Adderley

Cirino – E como foi a passagem para o saxofone?
Raul – Aí é triste.
Cirino – Porque era uma coisa que você, desde criança, gostava…
Raul – Aí foi triste. Quando cheguei nos Estados Unidos, eu já havia gravado com a Flora Purim o primeiro disco dela gravado lá na Milestone, Fantasy Records e Prestige, três companhias de jazz juntas lá em São Francisco [ n.e. Na verdade, Raul tocou no segundo disco de Flora pela gravadora americana, Stories to tell (1974), e não no primeiro, Butterfly dream (1973) ]. Fui convidado e gravei. George Duke fez alguns arranjos. Eu já o conhecia. Levava as composições dele e as cantava para a Flora. “Essa aqui, essa aqui!” E ficamos amigos assim. Gravamos. Depois disso, o lançamento do disco, em São Francisco novamente, no Kingston Corner, um clube de jazz. [ Pára e bebe um pouco de água ] Tem que pagar a Lindóia? [ risos ] E aí, meu amigo, vem o Orrin Keepnews [ n.e. 1923 | Um dos mais renomados produtores de jazz nos EUA, fundador dos selos Riverside e Milestone ], que era o produtor executivo da Fantasy Record, que havia produzido John Coltrane [ n.e. 1926-1967 | Saxofonista norte-americano (tenor e soprano), autor de clássicos como Blue train, de 1959, e A love supreme, de 1964 ], Miles Davis [ n.e. 1926-1991 | Trompetista norte-americano, autor de clássicos como Kind of blue, de 1959, e Bitches brew, de 1969 ], todo mundo. Ele havia passado por lá e, quando passou por mim, disse: “Você continua com aquele som bonito!”. “Pois é. Quando será a minha primeira gravação na companhia?” “Tem que colocar esse som bonito pra escutar… Vamos ver mais tarde.” E passou um tempo até que voltei pela terceira vez a São Francisco. A Flora já não estava mais. Havia sido presa por negócio de … Ficou um ano presa. Mas era uma prisão fantástica: acordava de manhã, às quatro, pra limpar todo o negócio, e depois saía pra estudar canto e voz na universidade. Só nos Estados Unidos! Aí voltava à tarde, dormia de novo lá – tinha um negocinho pra dormir, sem problema nenhum. Aí chegou a oportunidade para eu gravar meu primeiro disco lá, na Milestone. Gravei o Colors, que trazia como convidado especial Cannonball Adderley [ n.e. 1928-1975 | Saxofonista (alto) norte-americano, autor de discos como Somenthin’ else, de 1958, e Mercy, mercy, mercy, de 1966 ]. É um disco completamente diferente, não havia samba, nem funk, sabe como é? A concepção vai mais ou menos pra isso aí, mas não chega, porque o Jack DeJohnette [ n.e. 1942 | Baterista norte-americano que já acompanhou Miles Davis e Keith Jarrett e é autor de discos como Album, album, de 1984 ] inventou uma história, ritmo diferente no meio daquela confusão toda das músicas que eu havia escolhido para gravar. É interessante o disco, o Colors. Aí quando o Cannonball terminou de gravar, falei pra ele no meu inglês terrível, mas que músico entende: “Você faz assim, faz pra lá, não-sei-o-quê…”. Continuei: “Eu queria colocar uma orquestra aqui, uma banda…”. “Ah, my brother, trompetista?” “Não”. Eu estava em pé. Caí sentado quando ele falou J. J. Johnson. [ n.e. 1924-2001 | Influente trombonista norte-americano, autor de discos como Nuf said, de 1955, feito em parceria com o também trombonista Kai Winding ] Caí sentado, porque J. J. Johnson, o rei da técnica, da sonoridade e da interpretação, foi o segundo trombonista americano que ouvi na casa do Maciel na ocasião do festival que teve em São Paulo, em 56. [ n.e. I Festival de Jazz que teve uma versão em LP lançada pela gravadora RGE ] O funk eu já havia escutado no programa do Paulo Santos na Rádio Nacional do Brasil, em meados dos anos 50. O Paulo Santos, juntamente com o Cazé, saxofonista de São Paulo… E o Cazé foi convidado pelo Paulo Santos para participar de um concurso de jazz na Rádio do Brasil, no Rio. E nós fomos. Eu encontrei com ele lá, conheci ele. “Vai tomar o quê?” “Vou comprar uma garrafinha de cachaça pra gente.” “Pô, então vou ter que ir lá embaixo. Ei, vem cá menino.” Um amigo meu lá. “Compra uma lá de Minas, daquelas boas de Minas. Tem dinheiro, Cazé?” “Um pouco.” “Porque eu não tenho nada.” Eu não tinha um tostão, trombone aquele trombone. Continuou trombone furado, cheio de esparadrapo, de tudo. E ele com saxofone Selmer, e eu olhando o saxofone: “Pô, saxofone Selmer!”. Mas o alto nunca gostei. Toquei, gravei, tudo, mas nunca me interessei muito pelo som. Sempre coisa grave na cabeça. Eu gosto de ouvir outras pessoas tocarem, mas eu não. Bom, aí ganhamos aquele prêmio, tomamos a cachaça toda. Ganhamos esse prêmio, Cazé como saxofonista, eu como trombonista. Estou crente que vou começar a trabalhar mais no Rio, melhor trombonista do ano. Isso dado, quando chegava assim pro Honorato, trombonista, pro Manoel Araújo [ n.e.Trombonista e irmão do maestro Severino Araújo, da Orquestra Tabajara ], pro Nelsinho, tudo trombonista fantástico… “Olha aqui, esse prêmio é de vocês, pó!” “Não, não! Eu não.” “Ninguém aqui improvisa. Todo mundo aqui cria um sistema de contracanto na hora do improviso. Quem improvisa é você. Você é o primeiro cara, dentro do Brasil, a improvisar. Nelsinho falando. “Né, Honorato?” “É.” Honorato, um negão enorme. “É, é. Raulzinho, cabrito…” Ele me chamava de cabrito. “Cabrito é legal.” Ninguém quis o prêmio. Fiquei com aquele prêmio. Quero dizer, a idéia de trabalhar mais acabou aí. Esse foi o motivo pelo qual fui para Curitiba servir a Aeronáutica. Eu e mais alguns profissionais da época.

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Música instrumental
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