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Entrevistas de música brasileira

Raul de Souza

O trombonista Raul de Souza. Foto: Henrique Parra/Gafieiras

Raul de Souza

parte 12/22

Daqui a pouco vou ser apedrejado

Almeida – Quem eram os doidões, Raul, aqueles que você viu usando uns lances ou tomando bola?
Raul – Porra, muitos, muitos. Eu conheci, quero dizer, no Norte, na minha primeira viagem que fiz pro Norte, pra Bahia. Da Bahia, fomos para Aracaju, e tudo de pau-de-arara. Um ano durou a viagem, porque o empresário ia na frente, pegava o dinheiro no clube, ia pro cassino, jogava e perdia tudo. Sobrava somente o dinheiro do ônibus, avião, sei lá, e viajava para o outro lugar, pegava o dinheiro adiantado e a gente ia atrás. “Cadê o cara?” Eu com o filho dele, o Cláudio Mário.
Dafne – Vocês caçando o empresário.
Raul – Caçando o empresário, o pai do Mário. Então já imaginou o que a gente passava. Veja só, fiquei numa pensão no Maranhão um mês, mais ou menos. Almoçava, jantava, tomava café-da-manhã, tudo, morava ali. Era perto da zona, do pessoal. Bom, aí um dia ouvi falar: “Pô, sabe quem está naquele hotel ali? Baden Powell com Cyl Farney!” “Baden Powell?” Fui lá falar com o Baden. Não havia nenhuma gravação minha até então. Conhecia o Baden do Ponto dos Músicos quando era moleque. Fui lá conhecer o Cyl Farney. E o Baden também… Estava lá com a guitarra, sem parar. Aí, estou tocando no teatro, e quando vou pra frente, vejo dois caras, um branco e um negão. Os dois juntos. Falei: “Ih, branco e negão juntos? Isso não está me cheirando bem!”. De repente, no final da música, eu olhei e cadê os caras? Desapareceram! Não vi mais. “Porra, o que será? Policiais?” Fica naquela paranóia. “Não pode ser polícia! Não pode ser polícia! Bom, tudo bem. Vou para o hotel, tchau!”. E saí. Aí, no caminho do hotel, a praça, o hotel do Cyl Farney… E entrei em um barzinho de esquina. Eu conhecia todo o bairro, andava à pé o dia inteiro por ali. Havia uma festa, música, aquele falatório. “Vou tomar um negócio qualquer aqui pra dormir, já é quase meia-noite.” O negão e o branco estavam lá. Aí veio o branco falar comigo. Super elegante e tal. “Que maravilha! Que concerto não-sei-o-quê.” “Pô, você gostou mesmo?” Tudo bem, tudo bem. “Vamos lá pra mesa comigo.” Aí, quando conforme eu andava, comecei a sentir um cheiro de fumo dentro do bar. “Os caras não são polícia nada. É gente boa, sangue bom!” Bom, o pessoal dá uma cerveja pra mim. “Não quero cerveja. Faz uma caipirinha!” Pegaram o copo, um copo enorme de caipirinha e a minha garrafa de cachaça. Mexi, mexi, bastante limão, tomei aquele negócio, e o pessoal com o cachimbo da paz pra cá e pra lá, todo mundo alegre, sem problema. Isso por volta de 53, 54. Para a família eu estava perdido; ninguém sabia onde eu andava. Aí falam: “Vamos pra praia? Vamos pro rio? Banho de rio!” “Vamos!” Fui para o hotel pegar o calção. Deixei o trombone lá e voltei praiano. Daí entramos no carro do cara e saímos… Oito da manhã e lá estamos tomando banho de cuia. Entra no rio e sai e volta e peixe frito. Ficamos naquele negócio. Quando voltei para o hotel, dois dias depois, cadê a banda? Havia ido embora! [ risos ] A banda desapareceu! E dei graças à Deus.
Almeida – Afinal, você estava tomando calote.
Raul – Calote? E o som? Se o som fosse legal, deixava o calote pra lá e curtia o som. Mas nem isso. Era horrível! A confusão era tão grande, que eu, um dia, lá pro lado de Maceió, falei: “Pô, conheço um cara que ouvi falar no Rio, que se chama Ari Moreno. E esse cara toca guitarra e imita Getúlio Vargas, imita jogo de futebol na guitarra. Vou chamar esse cara pra me salvar aqui. Pô, daqui a pouco vou ser apedrejado. O grupo é muito ruim, muito ruim. Toda hora que eu via no meio do caminho um saxofonista bom… “Quer entrar na banda?” “Quero!” E entrava pra melhorar o negócio. A banda estava ficando enorme. O pandeirista era investigador de polícia. “Arruma um fumo pra gente aí!” Ninguém quer mais nada. Tenho investigador pra arrumar as bolas pra mim. Aí chegou o tal Ari Moreno com uma morena, uma morena enorme que dançava rumba na época do mambo cubano. A mulata rodava e o pessoal olhava a perna. Ficava tudo parado. Todos os homens do clube lá. A mulata e o Ari salvaram a viagem.
Almeida – Distraiu a plateia.
Raul – É, distraiu a platéia e salvou a viagem. Depois arrumei passagem pra voltar pro Ceará, pra Fortaleza. E como já havia passado pelo Ceará, eu havia conhecido o Ivanildo, saxofonista-alto, que depois gravou vários discos, e o Paganini. Aí é que veio o lance da bola. Cada vez tomava três, quatro, cinco bolas…
Almeida – De uma vez.
Raul – Aí saía tocando piano na parede. [ risos ]

O saxofonista Sonny Rollins. Foto: Steve Maruta/Fantasy Inc.

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Música instrumental
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