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Entrevistas de música brasileira

Raul de Souza

O trombonista Raul de Souza. Foto: Henrique Parra/Gafieiras

Raul de Souza

parte 11/22

Nos anos 50 parecia que o mundo ia dar certo

Tacioli – Qual foi sua impressão quando esteve pela primeira vez em São Paulo?
Raul – Fiquei louco, porque o que havia de orquestra, de clube, de cabaré, de boate… E tudo com músico. Orquestra, arranjo, tudo, negócio lindo, bonito! É por isso que eu não queria perder. Eu não queria ir pra casa. Fazer o quê em casa, dormir? Vai dormir, pô, tem um outro negócio que vai começar agora, às cinco horas da manhã, vai até não sei que hora, sabe como é? Quero dizer, ficava naquela vida, né? Esse é um grande momento que existiu no Brasil. Por sinal, no mundo inteiro, eu acho.
Almeida – Grande momento do quê?
Raul – Da vida, anos 50, de liberdade geral, de dinheiro, todo mundo com dinheiro, muito bem-vestido. Todo mundo, não é dez, vinte. Músico, arranjador.
Almeida – Parecia que ia dar certo.
Raul – Parecia que o mundo ia dar certo. Essa é a história.
Tacioli – E quando começou a dar errado?
Raul – Pô, aí já é… [ risos ] Não quero falar de guerra. Quero falar de 1981 nos Estados Unidos, ano da minha última gravação que fiz lá. Eu tinha assinado por cinco discos e no terceiro a companhia cancelou os dois demais. Eu estou vendo já fechar a loja, loja super antiga, de quatro andares… Vejo tudo fechar, falir, sabe como é? Na Sunset Boulevard. Aqui também, no Brasil, e em todo lugar do mundo. E a década de 50 foi uma época fantástica, fantástica. Algumas pessoas não agüentaram, foram embora, viajaram, porque a loucura era muita, mas prazerosa, de curtição da vida, do momento. Havia dinheiro pra tudo, gasta aqui, ganha ali de novo.
Tacioli – Você acha que essa impressão não era presa somente à juventude?
Raul – Não, não. Porque eu, como mais jovem, sempre me interessei em falar com as pessoas mais velhas, de mais experiência. Jovem é o mesmo papo: “Vamos queimar um?!”, “Vamos!”; “Vamos tomar outro?!”, “Vamos!”. Quero dizer, na frente do velho não vai queimar um porque ele não vai gostar. “Não, menino, pára com esse negócio, aí. Comigo não! Quer tomar uma cervejinha? Toma cervejinha, mas isso aí, não!” E a polícia prendia… [ ri ] Então pra polícia não prender, o que você fazia? Ia à farmácia, comprava umas bolas, Lexamil, e ficava tomando um de vez em quando. Tinha um amigo meu que se chamava Boneca…
Almeida – Em que ano era isso? Década de 50 já?
Raul – Já. O lance das bolas?
Almeida – É.
Raul – Isso até antes, bicho. Eu peguei o bonde andando, já. [ risos ] Isso já vinha de antes. Quem escapou, está vivo. Aí, quem não conseguiu, foi embora cedo.

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Música instrumental
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