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Entrevistas de música brasileira

Raul de Souza

O trombonista Raul de Souza. Foto: Henrique Parra/Gafieiras

Raul de Souza

parte 9/22

Foi o Ary Barroso quem trocou o meu nome

Cirino – E o seu nome, Raul, quando mudou?
Raul – Foi o Ary Barroso quem trocou o meu nome. No segundo programa do Ary que eu fui, dois meses depois do primeiro – eu viciei no negócio -, toquei o choro que eu queria tocar, aquele que o outro passou falando que era moderno. Aí, o Ary falou: “Você de novo aqui? Mas hoje esse João José vai sumir. Você vai passar a ser Raulnito”.
Almeida – E tem uma explicação?
Raul – “Você tem mais cara de Raulito do que de João José!” O Ary falou, tá falado. E ficou Raulito por alguns anos. Depois eu mudei, porque Raulito é espanhol. Pra nós aqui é Raulzinho. Aí mudou. Raulito ou Raulzinho, o que eu quero é tocar!
Almeida – A disciplina da Aeronáutica chegou conflitar com a música?
Raul – Havia uma confusão: falta de tempo e, naquela ocasião, eu era um soldado. Mas tinha um amigo, que era 2º Sargento, que gostava muito de mim e que dizia: “Não, tá aqui, isso aqui.” [ sugerindo que Raul estudasse teoria musical ] “Mas não tenho tempo, não!” Nunca me interessei em estudar nada. Tenho muita coisa na cabeça, de ouvido. Não sabia que aquela coisa da leitura musical [ ler partituras ] facilitaria tudo na frente. Eu escutava, tinha tudo o que era instrumento da banda de cor na cabeça. Instrumento, flauta, não-sei-o-quê, tudo na cabeça. A leitura musical não me interessava. Ler pra quê? Deixe eu aqui na minha onda. Eu não queria ler, não queria estudar. Mas o que você perguntou mesmo?
Almeida – Se a disciplina da Aeronáutica…
Raul – Pois é, a disciplina, soldado tudo engomadinho, cabelo cortado, tudo certo. Bom, eu tocava na banda. E aí surgiu o convite para organizarmos um quinteto ou um sexteto para tocar na hora do almoço dos oficiais nos outros quartéis. E eles nos pagavam. O 1º Sargento tocava saxofone-alto… Era o Liberalino, um nome assim, e ele foi quem conseguiu um cachê pra gente. Almoçávamos lá e pegávamos aquele dinheirinho. Não havia baterista, como também não havia bateria. Assim, eu tocava bumbo, ou caixa, ou prato. Eu tinha noção de ritmo e… “Vou ganhar esse dinheiro!” Botei outro cara com trombone no meu lugar e toquei “bateria”. E o (Edison) Machado dando tiro de canhão, porque havia feito um curso pra cabo. Eu falei pra ele: “Mas você não toca bateria? Não quer tocar na banda?”. “Que banda, que nada! Banda de dobradinho ruim!” “Dobradinho ruim?” A sala dele ficava embaixo da banda. E ele não subia, não queria ouvir o dobrado. E eu gostava: “Você tem que se interessar, bicho. Tem coisa linda ali. As partes de contrabaixo, de saxofone, de clarinete, de oboé, de fagote, de tudo. É uma banda com 40 pessoas”. Eu era o quarto trombone. Primeiro, segundo, terceiro, quarto trombone, e lá estou eu [ imita o som do trombone ] “Panpanpan”. Aí esperava. “Panpanpan” E mais pausa… Não, quero tocar aqui, quero ser o terceiro trombone, porque tem mais nota aqui.” E até chegar ao primeiro. E cheguei. Mesmo quando havia pausa, eu tocava pausa também. Saía batido… “Paparapapa”. Não respirava! E o maestro dizia assim: “Tem nota a mais aí!”. Eu dizia: “Eu sei, eu sei.” [ risos ] E todo mundo dava risada porque eu lia a pausa, lia e tocava tudo. Não queria saber, não queria descansar um minuto.
Almeida – E tinha que ler?
Raul – Tinha, tinha que ler. Com a banda Fábrica Bangu aprendi muita coisa. Comecei ver dobrados, mesmo brasileiros, compostos pelo Joaquim Neve, que foi professor, maestro e compositor, que morava no Méier e que ensinou muita gente, como o Paulo Moura. Deu aula de harmonia e de composição pra muitos saxofonistas do Rio. Tinha três filhos. O Um deles, o Drauzio Kuntz, morou muitos anos em São Paulo, tocava clarinete e saxofone-alto. Havia também o Wagner, alemão. [ n.e. Na verdade, Kuntz Wagner ] O Joaquim havia sido preso; comunista, revolucionário, não-sei-o-quê. Botaram ele numa cadeia qualquer. E ele conseguiu pintar de branco a parede da cela e escreveu um dobrado de nome “Janjão”. Com todas as vozes, pra banda toda. O Drauzio se tornou sargento da Aeronáutica comigo, no mesmo tempo, no mesmo dia. Fomos juntos do Rio de Janeiro pra Curitiba. Drauzio loirinho, baixinho de cabelo louro, olho azul. Ele era o meu conselheiro.
Tacioli – Ele dava conselho?!
Raul – “Não bebe, não, pára o cigarro! Vai estudar! Vai aprimorar a sua musicalidade com o conhecimento técnico. Vai fazer arranjos. Você fica enchendo a cara, não dorme, nem nada. Só quer tocar!” Ele me orientava muito, o Dráuzio.
Dafne – Você prestou serviço militar no Rio?
Raul – No Rio.
Almeida – Em que ano?
Raul – No Rio, em 52, 53. Um ano. Em Curitiba foi de 58 a 63. Foi um contrato que eu assinei com a Aeronáutica. Engajamento por cinco anos. De 3º a 1º Sargento. Quando recebi a divisa de 1º Sargento, dei baixa. Não quis mais saber. Fui para o Rio, já em 63. Montaríamos, em 1964, a Sérgio Mendes & Bossa Rio.

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Música instrumental
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