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Entrevistas de música brasileira

Pelão

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Pelão

parte 8/13

A melhor parte do dia é a noite

Pelão – A gente estava onde?
Tacioli – Falávamos do Brasil, trombone, do Raul de Barros, do Hermeto Pascoal.
Pelão – Do Hermeto! No dia seguinte ele me ligou: “Pelão, você sabe aquele meu compadre que morava do meu lado lá em São Miguel?” ”Sei!” “Eu ensinei ele a tocar baixo e ele vai com a gente também.” Ele foi colocando, colocando, eu falei “Pô, compadre, sinfônica não cabe debaixo de uma mangueira! Não vamos fazer mais, não! Eu passo na sua casa pra falar com você!” Ele falou: “Se não for de tarde, pode ser de manhã, mesmo!”. “Vou ver se eu passo aí!” Porra, vá pra puta que o pariu! Então, o músico tem a cabeça dele, é por isso que eu gosto de chegar pro maestro que vai fazer os arranjos e “Você vai escrever para essa formação!”. Porque eu vejo aquele som, eu sinto o que eu vejo. E, em muitos, eu dou palpite, que vai tal músico, tal músico, de preferência eu pego os mais velhos, que me dão um trabalho filho da puta. Uns perdem a memória depois, uns perdem a mulher, não assinam, não autorizam, e são essas coisas…
Tacioli – Pelão, você tem alguma formação musical formal ou é só essa observação?
Pelão – É só isso! O Radamés falou que, se algum dia eu estudar música, eu vou ficar uma merda! E eu fazia ele mudar arranjo. Eu fiz ele mudar vários arranjos. O Perrone, que era do quarteto dele, quis bater em mim uma vez. “Respeita, esse é o maestro Radamés!” e veio pra cima de mim. O Radamés foi quem precisou dar um esporro nele. Foi legal que me defendeu, me deixou bem na fotografia.
Tacioli – E mudou o arranjo?
Pelão – Mudou.

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Tacioli – E convivendo com tantos músicos, você pensou ou chegou a compor?
Pelão – Ah, tem uma música ou outra. Tenho uma com o Radamés, mas eu não fiz quase nada. Ele me ligou e falou “Hoje estou tocando pacas!”. Ele ensaiava oito horas por dia. “Continua tocando, Radamés! Depois eu vou ver se ficou bom!” Porra, vem me encher o saco num sábado ou num domingo. E não tinha celular nessa época, graças a Deus! Ele falou: “Quando você pensa na sua namorada – que era a Maria Cristina -, você pensa em que música?”. “Nenhuma, por que, Radamés?” “Você não cantarola alguma coisa, não vem alguma melodia na sua cabeça?” “Sempre vem, né, Radamés, sempre vem, sempre!” “Fala pra mim como é?” (cantarola) “Tá, daqui a pouco eu te ligo!” Meia hora depois ele ligou com um puta choro legal, mas só com duas partes. “Porra, você está preguiçoso, hein, Radamés! Não vou por o meu nome num choro de duas partes! Cê tá louco? Te dou a chance de fazer um choro pra na terceira parte você virar o jazista maravilhoso que você é, e você…” “Você quer a terceira?!” “Ah, Radamés, faz, pô! Ou não faz, estou com gente aqui em casa!” Nem 15 minutos (depois), toca o telefone: “Já fiz, escuta aí!”. O velho meteu a mão no piano.
Tacioli – E qual é o nome do choro, Pelão?
Pelão – “Pequena”. Tem umas coisas, mas eu não gosto, acho que eu não tenho que compor. Produtor pra enfiar música dele no disco, vá pra puta que o pariu! Não pega bem. Embora o Radamés quis gravá-la no disco que fizemos, mas eu não deixei.
Tacioli – Então ela não tem registro fonográfico.
Pelão – Não, tá louco! Quem quiser pode gravar, mas coloca apenas o nome do Radamés. Aí eu autorizo. Tem a partitura aí, com a letra dele.
Tacioli – E pra você, quais sons “não musicais” que te marcam, sons que você ouve e gosta, que te traz lembranças? Quais estão na gaveta? O que você gosta de ouvir no dia-a-dia.
Pelão – O som que eu tenho na cabeça é o som de um jingle de uma trilha sonora, que o Toninho, do Quinteto, fez para o Banorte. Ele até colocou uma letra, completou, mas pra mim vale aquele “lá-rá-rá” (cantarola) e eu fico pensando nisso o tempo todo. É que ele está lá em cima do lado do homem.
Tacioli – Você falou do homem e dos amigos que estão em cima, como é a sua relação com a espiritualidade, você tem essa relação?
Pelão – Eu gosto muito, eu tenho.
Tacioli – Como ela se dá, Pelão? É por meio de uma religião, por onde ela vai?
Pelão – Vai pelo mesmo caminho que eu produzo as coisas. Se você está relaxado, vem. Tem dia que para dormir é foda! Tem muita gente conversando comigo, porra! E é foda!
Tacioli – Em casa, qual era a formação (religiosa) dos seus pais?
Pelão – Católicos. Minha irmã é espírita, o meu irmão é espírita, eu respeito muito os espíritas, eu acho não se pode discutir religião, porque senão vamos chegar na base dos muçulmanos, sei lá, podem dar tiros na gente. Cada um tem a sua e fica na dele.
Max Eluard – Pelão, dentro do seu jeito de produzir, de cultivar as amizades, de levar essas amizades para o estúdio, nesse processo, qual é a importância da vida na noite, na boemia?
Pelão – Tudo! A melhor parte do dia é a noite, não tem outra coisa. A melhor parte do dia é a noite! E eu sempre gostei da noite. Agora até meia-noite só, uma hora no mais tarde, porque os papos sumiram da noite. Antigamente tinham uns puta papos à noite. Tem algum fio preso aqui ainda?
Max Eluard – Não!
Pelão – Então eu posso sair até a cozinha?
Max Eluard – Claro, claro!
Pelão – Você nem está vendo se o som está saindo bom ou não!
Max Eluard – Eu estou acreditando que está saindo bom, Pelão! [risos] 

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