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Entrevistas de música brasileira

Pelão

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Pelão

parte 7/13

Guinga é gênio!

Max Eluard – Uma vez conversando com o (Fernando) Faro, falando de você, ele contou uma história de quando ficou pronto o primeiro disco do Cartola, você levou pra ele ouvir e aí você justificou “Olha, Faro, ainda não terminou, ainda falta colocar a orquestra no disco”. E quando ele terminou de ouvir, ele disse “Pelão, se você colocar orquestra nesse disco você não fala mais comigo!”. E aí no fim, essa história de sempre ouvir os mais velhos, essa fala do Faro te influenciou na hora de fechar o disco? [n.e. O produtor musical Fernando Abílio de Faro dos Santos, 1927–2016, criador dos programas de TV MPB Especial, Ensaio, Móbile e Divino, Maravilhoso]
Pelão – Ele já fez 80 anos, ele tem problemas graves. O Faro fez muita coisa, tem de se respeitar o Baixinho, mas ele erra muito, e tem hora que ele inventa um negócio, “Ah, é, todo mundo está falando bem desse disco? Deixa comigo!”. Jamais, ele nem escutou esse disco! Saudações! [risos] Nem escutou!
Max Eluard – Então, mudando a pergunta, como foi a decisão de deixar o disco somente com o regional? Sempre foi essa a ideia? Naquela época os discos de samba em geral vinham muito orquestrados e esse disco fugiu um pouco disso.
Tacioli – E você falou dessa paixão pela orquestra do Simonetti, então ter um disco do Cartola…
Pelão – É uma pena que todos os meus tocadores de CD pifaram aqui em casa, senão eu mostrava o Raul de Barros pra vocês. Tem regional e tem orquestra, mas ele tocava em baile com grandes orquestras. Onde cabe, coube, e com arranjos da época, não eram arranjos modernos, de hoje. Eu jamais pensei isso. Isso é coisa do Nelson Cavaquinho. Eu encontro o Nelson lá no Teatro Opinião e falei “Porra, Nelson, acabei de gravar o Cartola!”. “Como?” “Acabei de gravar o Cartola!” “Mas você não colocou orquestra, não, né?” “Não, Nelson, por quê?” “No meu você não colocou!” É ciumeira! Pra eles era muito importante colocar violino, mas pra mim não. Jamais!
André de Oliveira – Pelão, o que você acha que te atraiu quando você era mais jovem nesses sambistas, nessa música mais popular e não em outro gênero?
Pelão – Primeiro, eu ia muito à baile. Aí eu ouvia música italiana, música inglesa, espanhola, brasileira também mas não era aquilo que o povo dançava. Não era essa a grande festa do povo, do meu país, onde em cada esquina tem um grupo. Na década de 1950 tinha três violões no Brasil. Isso foi o Radamés quem me contou. Três violões. Hoje tem um milhão de violão. Em cada esquina tem um violão. O Radamés adorava vir aqui em São Paulo, tinham uns músicos muitos bons. Aquele menino, aquele pianista, o Porto Alegre, fugiu o nome dele, o Radamés era muito ligado àquele Duo Assad. Aquilo não é um duo, são dois relógios tocando junto! Tique-taque, tique-taque! Não tem erro! Gosto muito deles. Raphael Rabello, de quem fiz um disco também. Foi muito sofrido fazer aquele disco. Eu tive que mandar o técnico sair do estúdio, todo mundo, e eu gravei daquele jeito, não fiz porra nenhuma, só fiquei ali para aparar e dar start e gravar. Mexi em uma coisinha ou outra. Gravamos quase tudo direto. “Mas como você conseguiu?” “Eu deixei ele tocar do jeito que ele queria.” A gente conversava um pouco antes, “O que você acha dessa música?”. O Dilermando era pra ter sido o professor dele. Eu me lembro quando morreu. Foi uma homenagem legal! Era outro que era o meu filho, ele se considerava meu filho. Quando ele soube que estava com AIDS, ele saiu do Rio e veio para cá pra falar pra mim. Falou aqui, na época tinha um sofá aqui. Eu não tinha comprado aquele apartamento ainda. Eu mandei ele embora, mandei para a puta que o pariu, vai me trazer notícia ruim! Eu falei: “Não morre mais dessa porra!”. Depois a gente conversava sempre. Ele era o cara que Deus botou a mão na cabeça e falou “Toca!”.
Tacioli – Quando você conheceu o Radamés, na época d’Os Carioquinhas? Você já estava no Rio nesse momento.
Pelão – Bem antes. Eu o fiz conhecer o Joel Nascimento, fiz ele conhecer e aceitar todo mundo, o Henrique Cazes, esse pessoal. Eu já era muito amigo do Radamés, amigo a um ponto que ele me enchia o saco, ele me ligava às oito da manhã pra falar que ia num açougue lá no Leblon comprar carne e se eu queria alguma carne de lá. “Não sei, eu bebi muito ontem, Radamés!”

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O violonista e compositor Carlos Althier de Sousa Lemos Escobar, o Guinga. Foto: Reprodução

Tacioli – E depois do Raphael teve outro violonista em que Deus pôs a mão?
Pelão – O Guinga é um! O Guinga é o cara que nós temos que prestar muita atenção. O Guinga é mais importante que Villa-Lobos pra mim, do que Tom Jobim. O Guinga é gênio! Mas como todo gênio, uma hora fica maluco, esquece de tomar os remédios. É maluco, mas é um cara que eu adoro. Nesse disco do Raul de Barros tem uma faixa que é só ele e o Raul de Barros. Eu deixei para ser a última, precisava acabar o disco naquele dia, e tinha um cara que, de tanto que eu falei o nome dele, eu esqueci, um nordestino, falei “Por favor, me deixa (terminar), só falta uma faixa, eu gravo em 15 minutos no máximo!”
Tacioli – Não é esse daqui não, né, Pelão?! [mostrando o disco]
Pelão – É exatamente esse! É exatamente esse! [ri] Tem o “Violão vadio”! Você já escutou esse disco?
Tacioli – Já, bastante.
Pelão – O que você acha?
Tacioli – Eu gosto muito. Foi nele que eu conheci o Raul de Barros.
Pelão – [olhando o disco e sua contracapa] Max e Aramis… Quem vê essas coisas ri muito. Foi nesse que o Abel Ferreira voltou também. O Raul ficou muito puto. Eu dei uma bela prestigiada no velho Abel. Eu gosto muito desse disco e de várias músicas. Tem “Paraquedista”. Esse “Violão vadio” aqui é só violão e o trombone, aquela música do Baden Powell. [cantarola a melodia]. Fácil, né, cacete, só os dois! Porra! Teve uma hora que eu dei um grito e falei “Saiam os dois do estúdio!”. Eles saíram e eu estava na porta chamando o elevador. “Pô, Pelão, o que foi?” “Vamos passar essa música!” E já estava escuro, ali dá muita puta, viado, na Lapa, falei “Foda-se!”. Respirei fundo e falei “Vai andando e tocando! Um, dois, três! Vai!” E o Raul de Barros olhando. “Vai, porra!” O Raul de Barros saiu e o Guinga, sem jeito, também. Demos a volta no quarteirão e subimos no estúdio e gravamos. E o Raul de Barros queria colocar o filho dele tocando. Eu enfrentei muitas coisas assim. “É meu filho! É meu primo! É meu compadre! É minha comadre!” Eu não fiz um disco com o Hermeto por causa disso. Eu falei: “Veio, vem cá! Eu quero fazer um disco com você”. “Pô, que bom, Pelão!” “Mas só você!” “Ah, é? Mas o que você quer?” “Você lá na sua terra, lá em Arapiraca, sentado embaixo de uma mangueira tocando sanfona! Mais ninguém! Você e o silêncio do Nordeste, com um canto ou outro de passarinho, ou uma criança ou outra chorando, vai ficar tudo no disco!” Mas, compadre, é muito bom! Vamos fazer amanhã, já?!” “Calma!” Você já vai embora? [dirigindo-se à fotógrafa Thaís Taverna]
Max Eluard – Ela já vai, Pelão.
Pelão – Mas eu vou trocar de roupa! [risos]
Thaís Taverna – É tarde demais, perdeu!
Pelão – Mas eu quero ver!
Thaís Taverna – Quer ver as fotos?
Pelão – É!
Thaís Taverna – Depois eles mandam pra você. Vou para outro trabalho agora.
Pelão – Que trabalho você faz?
Thaís Taverna – A gente tem uma coincidência: Rio Preto. O meu pai é de Mirassol.
Pelão – Mirassol!
Thaís Taverna – Sabia!
Pelão – O seu pai era amigo do Clodovil?
Thaís Taverna – Meu pai? Acho que ele tem uns segredos… [risos]
Tacioli – Tchau, Thaís, obrigado.
Pelão – Desculpa alguma coisa. Poderia descarregar as fotos no meu computador!
Max e Tacioli – Depois a gente te manda.
Thaís Taverna – Se você não gostar, eu volto.
Pelão – Eu posso não autorizar.
Thaís Taverna – Aí é com eles. Obrigado!

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