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Entrevistas de música brasileira

Pelão

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Pelão

parte 6/13

Acham que sou siciliano ou calabrês

Tacioli – Pelão, mas teve algum gênero ou algum artista para o qual você torcia o nariz e depois o tempo convenceu que aquele rapaz ou gênero musical tinham seus méritos?
Pelão – Não tem, não, que eu me lembre assim, não! (silêncio)
Tacioli – Tem unzinho aí, não tem?
Pelão – É que eu tive um AVC há um ano e meio e as coisas muito ruins apagaram. [risos]
Max Eluard – Reformatou o HD. E mudando de assunto, como foi esse susto, Pelão, o que te fez pensar?
Pelão – Ah, não vamos falar sobre isso, né, eu estou até hoje assim. O médico me proibiu de dirigir, fumar, beber e foder. Aí eu perguntei para o médico: “Dar o cu pode?”. Ele ficou bravo comigo! Aí eu esculhambei ele e fui embora. Mas uma hora você falou de mocidade e eu fui da Mocidade Alegre. Eu me considero ainda, aí do bairro do Limão, desde quando ela desfilava pelo Terceiro Grupo. Eu desfilei com ela e ganhamos. “Ah, fui eu que deu sorte!” Metido só, moleque! Moleque, metido, é aquela merda, novinho você só faz merda! Eu me lembro que era novinho, estava em Recife, aí um amigo meu falou: “Vou te levar numa praia que tem aí, Boa Viagem, um pouquinho longe mas vai ser bom. Vamos comer um peixe que os pescadores fazem na areia!”. Boa Viagem era só mato, não tinha porra nenhuma. “Não sei se vou gostar dessa porra, moro em São Paulo, rapaz, sou dos Diários e Emissoras Associadas!” “Ah, Pelão, cacete, você está aqui trabalhando ou está em férias? Você quer ou não conhecer?” “Vamos, não quero estragar o prazer de vocês.” Uma coisa que eu me arrependi foi sobre comida e não música. Eu cheguei lá e os caras enterraram os peixes em folha de bananeira na areia e cobriram e tacaram fogo em cima. “Puta que o pariu, índio é índio mesmo!” Como eu, moço fino de São Paulo, ia comer aquilo? Minha mãe falou: “Cuidado, veja o que você vai comer, Joãozinho!”. Eu peguei um pedacinho e não sobrou um pedacinho assim pra ninguém. [risos] Eu comi tudo, puta que o pariu! Agora me abriu todo aquele gosto que eu senti.
Tacioli – Qual era a profissão de seu pai?
Pelão – Meu pai foi dono de hotel, de pensão, depois no fim da vida andou dos 60 aos oitenta e tantos com que ele morreu era corretor. Por isso que não gosto de corretor, porque sei que ele é chato. Eles falam: “Me dá o seu telefone!”. “Ô caralho, vocês vão ficar me ligando toda a hora!”
Tacioli – De qual região da Itália vem a sua família?
Pelão – Lá pra cima, né? Vêneto. Não seria lá de baixo. Me acham que eu sou siciliano ou calabrês, porque de vez em quando tem umas brigas, mas isso é só para mexer com o coração.
Tacioli – Você é bravo, Pelão?
Pelão – Eu, não, dizem que eu sou. Se eu fosse não estaria aqui, estaria fazendo a folga de algum cachorro por aí. [risos] Eu estou ficando cada vez mais calmo. O cara fala um absurdo e eu falo “É mesmo?”. Deixa ele pensar em casa o que ele falou.
Tacioli – Vou falar novamente dos anos 70, dos discos. De todas as gravações, há sobras de estúdio? De tudo que está no disco é o que foi gravado?
Pelão – Tem uma ou outra. Eu tenho algumas coisas guardadas. No primeiro disco do Adoniran, por exemplo, a Censura proibiu três músicas. Aí nos outros eu já gravava 15. O duro era tirar uma, tirar duas quando não cabiam. E eu gostava que, mesmo que fosse com mais de 30 minutos, até 38 minutos, de um lado do LP, era legal se você tinha um belo cara para fazer um corte, dava! Era complicado fazer um disco, meu! Hoje você senta ali no banheiro e faz.
Tacioli – Então, sempre havia sobras.

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