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Entrevistas de música brasileira

Pelão

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Pelão

parte 5/13

Roberto Carlos virou um deus agora

André de Oliveira – Na coleção Música popular, do Centro-Oeste e Sudeste, no primeiro disco a Nara Leão e o Renato Teixeira cantam bastante. Por que vocês fizeram essa opção de colocar eles cantando em vez dos…
Pelão – Precisava ter alguém mais jovem, tem muito mais pessoa de raiz se você for analisar um a um. E a Nara pra mim sempre foi a cantora brasileira, de Roberto aos tropicalistas, que ninguém conseguiu mudar a cabeça dela, sabe?! Ela fez de valsinha a rock. E ela coloca a voz como brasileiro, estilo pra mim do Mário Reis. Ela vai até um pouco mais a frente. Qualquer um pode cantar com ela. E o Renato Teixeira é outro cara que sempre se preocupou, sempre andou na roça, sempre viu o povo, sempre foi chegado. Aquele Chico Loca de Ubatuba, na verdade, quem deu pra gente, foi o Renato Teixeira. Era ele que conhecia aquela parte do Estado, já tinha feito pesquisa. E era amigo, ele sempre ia. Quando a família ia para Taubaté, ele ia muito a Ubatuba. O Renato nasceu em Santos, né?
Tacioli – Pelão, a formação do seu gosto musical como se deu, por onde passavam os sons e a música?
Pelão – De casa, da Pizzaria do Martins, na Vila Mariana, o Neneu, o dono, ficava escutando rádio no caixa e era só de Moraes Sarmento pra cima.
Max Eluard – Mas quando você veio pra São Paulo, Pelão? Você veio com qual idade?
Pelão – Com meses.
Max Eluard – Ah, você somente nasceu no interior.
Pelão – Nasci, tenho muito prazer de ter nascido lá. Hoje a música caipira é lá.
Max Eluard – Mas voltando para sua vinda a São Paulo, seu pai ouvia o que em casa?
Pelão – O meu pai odiava escutar o Orlando Silva, porque a minha mãe gostava.
Max Eluard – Mas era de ciúme?
Pelão – Claro que era! [risos]
Tacioli – Mas do que seu pai gostava, Pelão?
Pelão – Ele não era muito de ouvir rádio. Ele falava que ele gostava e tudo. Lembro uma vez que o Valter Foster veio aqui no dia do meu aniversário, “Ô, Walter, como você está velho e acabado!”. Olha que sacanagem! Mas depois orquestras e bailes de formaturas ele ia em todos, principalmente na Orquestra do Simonetti eu ia do primeiro ao último baile dele. Ia a todos. É claro que a gente dançava uma ou outra, tinha umas moças que tiravam a gente, mas eu ficava na frente da orquestra. Então, eu sabia de onde tinha vindo cada músico, e você via que a maior parte deles era do interior, tocava em bandinhas de lá, tinha um trombonista, o Nelson, de Tupã, todos tinham sua passagem musical lá na cidade deles, no interior. E eu adoro o interior!
Tacioli – E o que tinha de especial a Orquestra do Simonetti, qual era a marca?
Pelão – Tudo! Primeiro tinha ele. Ele era italiano e eu também sou. Tenho a cidadania. De vez em quando eu recebo umas coisas aí que tem eleição pra eu votar e eu digo “Pô, mas não me mandaram a passagem!”, eu ligo para o Consulado e digo “Quando vem a minha passagem?”. Eu sou italiano! E viva Malatesta, grande anarquista! [n.e. Errico Malatesta, 1853–1932, importante teórico e ativista anarquista] Agora já passou essa de anarquista, mas…
Tacioli – Mas a Orquestra do Simonetti…
Pelão – A Orquestra do Simonetti era fantástica. Foi a melhor orquestra de salão que o Brasil teve. Adorava os arranjos, o repertório, e a amizade que eu fiz com o Simão, o Simonetti, eu chamava ele de tio, que era pra muitas vezes furar o baile para entrar, e ele me chamava de sobrinho. Fui muito amigo dele, valeu a pena. Pô, tudo isso é pergunta? [olhando para o roteiro do entrevistador]
Tacioli – Tem mais aqui, Pelão! [risos]
Max Eluard – Fora as do André!
André de Oliveira – Você começou a trabalhar com ele?
Pelão – Comecei a trabalhar na RJS, na Reinaldo, Jaques e Simonetti, que a gente fazia programas para televisão. O Simonetti Show, teve o Dick Farney na TV Record, depois Simonetti Produções foi para a Tupi, na verdade, ela bancava os artistas que ia para a Tupi e depois recebia 10, 15% a mais dos Diários Associados, dos donos da Tupi. Foi assim que acabei indo para a Tupi e fiquei lá. Não era bobo de sair de lá.
Tacioli – Esse começo de carreira era anos 60?
Pelão – No Simonetti, um pouco antes. É 60.
Tacioli – Você é de 42, é isso?
Pelão – É.
Tacioli – Mas nessa época, da mocidade, dos vinte e poucos anos, no começo dos anos 60, havia a bossa nova, o iê iê iê, como essas outras músicas chegavam pra você? O que você curtia antes de trabalhar como produtor de discos?
Pelão – Eu gostava de alguma coisa da bossa nova, mas nunca fui muito afim. É que a gente tem de separar: letra é letra, música é música. Sabe aquele negócio, bunda é bunda, cu é cu? Eu gosto de música, eu gosto do ritmo, o ritmo mexe com você. A criança nasce e só dá uma chorada depois do primeiro toque que leva na bunda. Esse é primeiro canto que nós temos na vida. E aí continuamos ligamos à música, ao ritmo que nós temos no nosso coração. Então, tudo isso liga o homem.
Tacioli – Você falou da bossa nova. E outros (ritmos)?
Pelão – O iê iê iê, pois é. Um dia nós estávamos lá na Simonetti Produções, não tinha ninguém, estávamos eu, o Geraldo que vendia baile também, e aí chegou um cantor que estava com muito sucesso na praça com “O calhambeque”. “Vocês não querem me empresariar?” Eu olhei e saquei quem era o cara. “Olha, nós infelizmente vamos perder o senhor aqui pro Geraldo, que é um cara que vai se dedicar muito à sua carreira e vai ser bom pra você, porque no momento não podemos pegar mais ninguém, senão acabamos não vendendo ninguém mais.” E o Geraldo: “Eu? Por que eu?”. E foi o primeiro empresário do Roberto (Carlos). Ganhou um bom dinheiro até que o Marcos Lázaro roubou ele. [n.e. Paulista de Baguaçu, o sanfoneiro Geraldo Alves foi também empresário de Altemar Dutra e Reginaldo Rossi, além de artistas da Jovem Guarda. Lançou em 2016 a biografia O mestre das estrelas]
Tacioli – E você gostava dessa primeira fase do Roberto?
Pelão – Não. Não, o Roberto virou um deus agora, uma vaca, um boi velho, e todo mundo respeita. Você não respeita um boi velho, uma vaca velha, um cavalo velho? Aí nego já pode falar porque já está velho. Não é o caso comparando um com o outro, porque não tem nada a ver, porque o outro é grande mesmo, como o Niemeyer. O Niemeyer falava o que queria, o que chegasse na cabeça dele, falava bem, com conhecimento. Ele era um brasileiro mesmo!

Tacioli – E mesmo quando o Roberto defendeu a música do Paraná no festival…?
Max Eluard – Em 67, não?
André de Oliveira – 67.
Pelão – Eu me lembro.
Tacioli – Onde você estava quando anunciou (a terceira colocação)?
Pelão – Eu ia ao Jogral sempre. Ó, para o Paraná foi muito bom, foi a música que deu mais grana pra ele de direito autoral. A princípio, nem o Paraná queria, mas como estava o Marcos Lázaro e mais uns esquemas, então ficou todo mundo bonzinho, né? Cantou, bela ajuda, ele pode gravar em cada disco… Me deixem contar outra sacanagem pra vocês: quando eu estava na Globo – eu não gosto de falar da Globo, eu não sou viúvo da Globo – na primeira reunião de criação do especial do Roberto Carlos ia mais ou menos umas 15, 18 pessoas, desde o Borjalo, diretor de produção, Vannucci, sempre, meu querido Vannucci, e eu estava no meio. “O Pelão tem que estar, o Pelão é o cara da música brasileira!”. E me enfiavam lá. E eu só ficava vendo a que horas eu ia sair. Tinha que ser rápido. Então, eu dava umas ideias e pumba, né! E dei desses músicos maravilhosos, ele levava Zé Menezes para tocar com ele, vários músicos, ele e o Radamés tocando… Eu dava ideia e… Nunca fiquei até o fim de um programa do Roberto. É coisa de malandro velho, vagabundo. [n.e. Mauro Borja Lopes, 1925–2004, o Borjalo, foi desenhista e um dos diretores da TV Globo. É o criador da zebrinha da loteria esportiva e do “plim plim” da emissora carioca]

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