gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Pelão

Pelao_home_01

Pelão

parte 4/13

Tenho poucos dedos para falar de amigos

Tacioli – Pelão, eu li sobre o disco do Cartola ou Nelson Cavaquinho que o Tinhorão escreveu na época dizendo que chegou um “paulista com vocação carioca”. Como era essa relação de ser paulista, de São José do Rio Preto, de gravar tantas figuras do Rio de Janeiro? Como era visto?
Pelão – Eu tive algumas pequenas confusões, mas eu não ligava, sai pra lá. Eu chegava no Rio e pá, pá, pá, gravava, voltava pra São Paulo, disco pronto. Eu aparecia sempre no Lamas. O Lamas era o meu Alemão lá no Rio. E tinha alguns amigos lá já. Tinha o Amilton, da Rádio JB, meu irmão até hoje, o Moacir Andrade, que é um texto maravilhoso, é um cara que conhece muito. Não põe copo d’água na minha frente! [risos] Mas eles ficavam meio enciumados, “o que que paulista sabe?”.
Max Eluard – Ainda mais com aquela briga de que São Paulo não tem samba, né?
Pelão – Não, isso eu nunca comentei, nunca comentei. Foi uma sacanagem andando na noite de São Paulo, saindo do restaurante lá na Santo Antonio, uma cantina, indo pra noite, que o Vinicius queria ir em alguma boate, algum lugar que tivesse samba, e ele comentou assim, porra, mas não foi por maldade. O Vinicius sabia que o faturamento dele era aqui. O Vinicius não queria saber nada de diplomacia, diplomacia já tinha passado na vida dele. Ele queria era ter sucesso. A pior que eu sofri foi quando eu fiz a História das Escolas de Samba. O Sérgio Cabral ia fazer o levantamento. Tudo marcado, eu cheguei lá e falei: “Pô, Serjão, chegamos!”. “Pelão, me desculpe, eu não fiz nada!” “Mas a gente começa a gravar terça-feira!” Isso era num sábado. “Eu já tenho tudo marcado, músicos de base que me seguram, depois vem os músicos das escolas.””Pois é, eu não fiz nada!” “Ah, tá legal, tudo bem!” Ele falou: “Você vai lá no lançamento do meu livro?”. ”Ah, eu vou, vou arrumar um tempinho, amigo é amigo! Você é um cara importante, está lançando mais um livro!” Eu sou amigo do Sérgio, fique bem claro, se quiser eu mostro um livro da Mangueira que o Arley (Pereira) fez que tem o Sérgio Cabral pequenininho num aniversário do Cartola, foto que o nosso governador perdeu a chance de ser presidente, pode ser ainda um dia, estamos aqui no Brasil. Mas aí eu saí como um louco. “Vou gravar isso!” Saí atirando, louco! Pedi um pouco de orientação para a Dona Ivone, que ela sabia mais e ela é séria. Ela sabe que tem música dela que nego entrou de parceiro e não fez nada, e ela fala: “Esse cara eu não quero! Não vou cantar do lado dele”. Tá certo, você tem o meu respeito. Aí a Mangueira eu não precisava, tinha tudo na cabeça, era só fazer os contatos e colocar o cara lá no estúdio, lá na Joaquim Silva. E aí eu saí. Você acredita que até a outra segunda-feira, às quatro e quinze da manhã, eu estava com os quatro discos prontinhos e mixados debaixo do braço? Aí meu Deus! Tem uns caras da USP que querem saber “A sua formação? Que título você tem?”. “Caralho, que título que ensina a gente a fazer isso? Escute sempre os mais velhos e tenha amigos!” A minha vida é assim, sempre respeitei e falei com os mais velhos, sem acreditar totalmente neles. Eu sou safado, né, sem acreditar totalmente neles, até dando força pra eles dizendo que tinha sido maravilhoso, tinha sido porra nenhuma, mas os caras estavam ali. E pra amigo, amigo é amigo, o resto é resto.

aramismillarch_300

O jornalista e crítico curitibano Aramis Millarch (1943-1992) teve seu acervo de entrevistas lançado na coletânea em DVD Aramis Millarch: 30 anos de jornalismo cultural (Petrobras, 2009). Foto: Reprodução

Tacioli – Você zela muito pela amizade, né, Pelão? Amizade pra você é um patrimônio.
Pelão – É! Tanto que eu esnobo, tenho poucos dedos para falar de amigos. Isso pra mim foi fundamental. E o Aramis Millarch que sempre falava “Pô, você fala uma coisa e dali a pouco está aprontando! Não é assim!”. “É assim, é assim!” Eu fui a Curitiba fazer o repertório do Nino Rota na casa do Aramis, que ele tinha todos os discos do Nino Rota, até uma ópera pra crianças. Ele ficou todo feliz, estava um artista plástico importante de lá do Paraná, tem umas pinturas deles no Santos Dumont, no Rio, lá no Aeroporto de Curitiba, esqueci o nome dele. Passei uma tarde maravilhosa com o Aramis gravando, ou fingindo que estava gravando, anotando. O que eu fiz ali eu já sabia tudo, e o pior é que eu estava produzindo pra mim no começo, quero dizer, era do meu bolso mesmo. Mas fiz e ele ficou feliz da vida. Grande cara o Aramis! Perdemos um puta cara! Ele não ganhou nada nem depois de morrer! A Maria Helena quis vender a coleção de discos e de filmes, que era uma das mais completas do Brasil, e não conseguia. Acabou vendendo para um cara que tem um sebo lá e vai vender a dois, três reais cada disco. E algumas com o comentário, com a matéria dentro, que ele tinha escrito sobre o disco, pra você ter mais informações.
Tacioli – A gente ouviu a entrevista que você deu para o Aramis. Tem uma entrevista gravada na época do lançamento de um desses discos daqui.
Pelão – Ah, é?
André de Oliveira – Na Internet tem o acervo dele.
Pelão – Ah é?!
André de Oliveira – (…) em que você consegue ler e ouvir a entrevista, todos os artigos dele.
Pelão – Eu tenho alguns CDs aí que eu não tive coragem de ir a fundo. A gente era muito amigo. Eu sacaneava ele: “O Aramis, o santo!”. Maria Helena, mulher dele, fantástica, o filho, fantástico. O chato de falar assim é que a gente lembra dos amigos que estão por aí, mas não em carne e osso. O negócio é você pegar e falar “Vou fazer!”. Só tem que ter a preocupação de fazer direito. Se você tem um belo microfone e vai captar a voz ou o som daquele instrumento, você não precisa de mais de porra nenhuma! Já está gravado ali! “Não, vamos equalizar!” “Vai o cacete! Eu não nasci para morar em estúdio!” É uma coisa chata, é muito chato!
Max Eluard – Incomoda essa perfeição que o trabalho em estúdio…
Pelão – Não é perfeição, é uma desperfeição…
Max Eluard – É uma assepsia que tira a alma.
Pelão – É que muda a sua voz, muda o seu jeito. Agora não pode ter mais aquele triscado no violão. “Não pode!” Porra, é a alma do filho da puta que está ali suado, tocando. É o nervosismo dele. “Pronto, sai junto com as notas!” Aquilo faz parte, vai falar que não!
Tacioli – E pra você, Pelão, o que é o erro, então?
Pelão – (silêncio) Erro… É que a gente não pode falar muita coisa e dar exemplo, tem gente viva ainda aí.
Max Eluard – Se entrega!
Pelão – Tem gente viva! O erro é você dar um passo maior que as pernas, achar que o cara tinha que ser daquele jeito. “Não, ele fez isso, mas não é bem assim!” É a opinião sua, né! E você fala com o cara e ele nem ouviu falar naquilo. O erro é não fazer de coração aberto, fazer pensando naquilo que eu te falei, pra pegar o povão lá pelas entranhas e trazer pra fora, nem passar pela cabeça, só pra mostrar pra ele! “Estamos aqui, hein?!” Nem precisa pôr máscara, e nem precisa quebrar nada, só se colocar: “Estamos aqui!”. Já está bom.

Tags
Pelão
de 13