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Entrevistas de música brasileira

Pelão

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Pelão

parte 3/13

A voz do Nelson era linda!

Tacioli – Pelão, como você se define?
Pelão – Eu? Eu sou um homem, sou homem. Tenho barba, não preciso de tratamento, não. Me defino assim: como eu gostava muito de política antigamente, levei muita porrada e sofri muitas decepções, era duro, eu fiquei esperto, comecei a fazer uma coisa que eu gostava, que era gravar a voz do povo, gravar a cultura mais próxima do chão do povo, para que com isso o povo pudesse subir cantando, então seria a revolução pela cultura. É uma coisa meio maluca…
Max Eluard – E como você vê esse projeto tantos anos depois?
Pelão – Ah, se eu for pensar direito, valeu muito a pena, porque tem hora que eu tenho mania de pensar em amigos meus que já subiram para o andar de cima e falar com eles. “Oi, tudo bem? Hoje é o seu aniversário. Ainda bem que você está aí e não naquele porre chato!” Pô, é um puta time, rapaz! Quem diria eu ser amigo de todos esses caras? Sabe, me dá uma puta alegria, um puta prazer. E faço sempre uma pergunta: “Por que eles gostam de mim?” ou “Por que eles gostaram de mim?”.
Tacioli – E qual resposta você chega, Pelão?
Pelão – Ah, não seria difícil eu achar uma resposta, não, mas eu não quero essa resposta, prefiro continuar ser aquele amigo, aquele companheiro deles.
André de Oliveira – Pelão, principalmente dos discos que você gravou em 1974, você era muito amigo de todos aqueles músicos, tinha uma relação bem próxima a todos eles.
Pelão – Tinha. Primeiro eu conhecia as pessoas.

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Pelão e Nelson Cavaquinho (1911-1986) e a capa do álbum lançado em 1973. Fotos: Reprodução

Max Eluard – Primeiro vinham as amizades e depois os discos.
Pelão – Eu queria conhecer como era o cara, pô! Não adianta eu chegar, botar o cara no estúdio e gravar. Eu não estou gravando o cara! Eu tenho que saber como é a vida dele, como era o som dele na época, onde ele nasceu, como ele se vestia, o que ele bebia, quem eram os amigos dele, o que ele pensava… Por aí eu já sentia o cara. E eram todos muito legais!
André de Oliveira – E eles eram parecidos de algum modo?
Pelão – Não, acho que eram bem diferentes! Uma vez, quando gravei o grande Padeirinho naquela História das Escolas de Samba… (interrompe e fala com Max que começa a fumar) Só não joga cinzas no chão! [risos] Eu pedi para ele cantar “O grande presidente”, ele não queria cantar em 74, porque ele tinha medo da Censura ainda. Pô, marco o cara. Ele morava lá em cima, no Pendura a Saia. A casa tinha uma varandinha assim, era um perigo, você enfiava o pé num buraco e ia parar lá embaixo. [risos] Dormi muito ali naquela varanda. Não que eu quisesse dormir, mas porque estava de porre e ali era só pra fechar os olhos. [n.e. Nome artístico de Osvaldo Vitalino de Oliveira, 1927–1987, Padeirinho foi um importante sambista mangueirense]
Max Eluard – Pelão, nesse processo de fazer amigos e levá-los para o estúdio para fazer discos, teve algum caso em que você se decepcionou, você se arrependeu, na hora de gravar a figura não era bem aquela que você tinha construído, ou isso sempre te fez levar para o estúdio figuras que geravam um trabalho bem feito, com prazer?
Pelão – Tinha que ser ele, como ele era… Uma vez um cara disse que não poderia ter gravado um cara como o Nelson Cavaquinho com aquela voz. Eu falei: “Você estava falando do Louis Armstrong outro dia. Ele pode, né?!”. A voz do Nelson era linda, naquela rouquidão você via todos os balcões de bar onde ele encostou a barriga.
Max Eluard – Então nunca houve uma decepção nesse processo de construir as amizades e levá-las ao estúdio?
Pelão – Não, o duro era conseguir quem aceitasse. Então, eu tinha que esperar a hora e “Pumba!”. O Cartola, vocês sabem disso como um monte de gente… Uma hora que cheguei da minha velha ronda aos bares… Vai reabrir o Ele & Ela, mas me falaram que é de um grande chef aí…
André de Oliveira – Eu te falei.
Pelão – Você me falou que é um grande chef, né? Aí vai virar uma merda aquilo, onde tinha o Juvenal, o garçom que te pegava e mostrava o relógio ali do Itaú, onde era da Willy’s ainda, “É legal, são tantas horas”, ele tirava o relógio dele, “Tá vendo, certinho! Quer comprar?”. (retomando) Então, o duro foi convencer lugar pra fazer e não dar prejuízo, embora tenha essa porra de “Disco é cultura”, pra eles disco tem que vender. Esse disco (do Cartola) não vendeu quase nada, o do Carlos Cachaça, vendeu cinco mil, ele se pagou. Eu nunca gastei muito, só gastei no do Radamés, aí era a Som Livre que pagava, foi o disco mais caro que eu fiz na minha vida, preço de hoje daria uns 600 paus, mas pus tudo. O Radamés queria gravar na Rússia, e quando falei com ele que a gente ia gravar “Maria Jesus dos Anjos”, que era uma cantata, ele falou “Pô, que alegria, você vem de São Paulo pra me falar isso! Muito obrigado! Vamos gravar na Rússia, né?!”. “Não, Radamés, vai ser aqui, você vai ter que revisar alguma coisa?”. Ele gostava de escrever pra músico. [n.e. Radamés Gnattali, 1906–1988, pianista, maestro, compositor e arranjador gaúcho]

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