gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Pelão

Pelao_home_01

Pelão

parte 2/13

Carlos Cachaça era o relações públicas da Mangueira

Tacioli – Pelão, eu trouxe uns discos, uns LPs, todos que você já conhece. São alguns que tenho em casa… 

[Tacioli coloca os discos sobre a mesa]

Pelão – Isso aí eu tenho tudo.
Tacioli – Você tem tudo, Pelão! 
Pelão – Você está com todos!
Tacioli – Olha só este! (LP Carlos Cachaça)
Pelão – Esse é grande, esse eu não tenho. O LP sumiu. Pode ficar pra mim! [risos]
Tacioli – Vou pedir pra você autografar esse disco.
Pelão – Esse vai ficar pra mim. [risos]
Tacioli – Então, eu autografo.
Pelão – Carlos Moreira de Castro. Ê, Carlos Cachaça! Esse cara orientou muito o Cartola. E fez até música que colocou o nome do Cartola. Esse foi um grande homem, o cara que construiu a Mangueira. O Morro da Mangueira era de um português. O português que alugava. Era analfabeto. Então ele pegou um afilhado dele, que era o Carlos Cachaça, pra tomar conta, para cobrar. Ele é quem fazia os contratos, os recibos. E assim foi fazendo… Porra, como eu adorava esse maluco!
Tacioli – Você teve contato com ele até quando, Pelão?!
Pelão – Até a morte dele.
Tacioli – Foi nos anos 90, né?
Pelão – Na morte dele já não falava mais. A Mangueira no (programa) Roda viva disse: “Nós damos todo o apoio a ele”. Que “dá apoio”? Os caras falavam que davam todo o apoio, mas (ele) estava jogado na sala da casa dele, um chiqueiro, todo imundo. Foi muito triste a última vez em que fui visitá-lo. A barra já estava pesada. Tinha o Buraco Quente ali, você via umas casas, entrava em um corredorzinho, antigamente era uma entrada de carro, e eu escuto: “Clef, clef!”. Nego com um berro na minha cara. “Aonde vai?” “Eu vou ver o Seu Carlos.” “Quem é você?” “Amigo do Carlos Cachaça.” “Vai, olha que nós estamos de olho daqui.” Eu, tremendo, mas disfarçadamente, cheguei lá. E aí eu vi o Carlos jogado na sala. Foi triste! Eu tentei conversar com ele, mas eu falava uma coisa e ele falava outra. O Carlos era aquele camarada que saía cedo pra ir comprar peixe na feira no domingo e voltava pra casa às cinco da tarde com umas flores na mão. “Taí, menininha!” Ele olhava pra mim e falava: “Não falei?!”. Era um poeta.

Carlos Cachaça (1902-1999) ao lado de sua mulher Clotilde, irmã de Dona Zica, esposa de Cartola. Abaixo, o único LP do sambista, de 1976.

Carlos Cachaça (1902-1999) ao lado de sua mulher Clotilde, irmã de Dona Zica, esposa de Cartola. Abaixo, o único LP do sambista, de 1976. Fotos: Reprodução

Tacioli – Pelão, esse foi o único disco do Carlos Cachaça?
Pelão – Foi o único. Ah, você falando do Carlos, que saudade que me deu. E ele era o relações públicas da Mangueira. Ele fazia os discursos para receber as pessoas, os políticos; ele era quem conseguia a primeira escola para a Mangueira, o primeiro telefone, tudo no discurso. Era uma figura linda! Ele era assim: ele vinha aqui, tinha uma confusão, ele falava tudo e ia embora. O Carlos era aquele que passava. Eu sei que eu saía várias vezes atrás dele pela Mangueira. Várias não, umas cinco, seis. Eu subia o morro e “Ei, você viu o Seu Carlos?” “Seu Carlos estava aqui, saiu. Deve ter ido lá para a casa do Padeirinho.” “Me ferrei.” Eu gostava da casa do Padeirinho, mas era lá no Pendura a Saia, era longe. Já está gravando?
Tacioli – Já estamos gravando.
Pelão – Eu não aprovei a minha… [risos]
Tacioli – O seu discurso…
Pelão – A minha voz…
Max Eluard – A gente deixa para o final, se você não gostar, não precisa assinar.
Pelão – O Carlos foi o cara que fixou o Cartola na Mangueira, foi o cara que estava na primeira reunião para fundar a Mangueira. Quando resolveram tudo, ele saiu, não assinou a ata. Começa assim, ele já era assim no morro.
Max Eluard – Por que ele não quis assinar a ata de fundação, Pelão?
Pelão – Não, ele achava que já tinha conversado muito, ia conversar em outro lugar. Eu perguntei porque ele não foi à bordo do navio Uruguay com o maestro…
Tacioli – Stokowski? [n.e. Uma das ações empregadas pelos Estados Unidos nos anos 1940 dentro da Política da Boa Vizinhança que trouxe ao Brasil, Argentina e Uruguai o maestro Leopold Stokowski, 109 músicos da All American Youth Orchestra e técnicos da Columbia Records para gravarem a típica música latino-americana. Em 1940, subiram a bordo do navio S. S. Uruguay para gravarem suas músicas artistas como Cartola, Pixinguinha, Jararaca & Ratinho e a Mangueira. Parte dos registros está no disco Native brazilian music]
Pelão – É, com o Stokowski, aquele chato que estava em missão de diplomacia dos Estados Unidos para fazer amizade. Daí ele falou: “Ah, eu fui, Pelão, eu fui, sim. Estou te falando, só que não cheguei lá. Eu parei em um monte de bar. E no último bar em que eu parei, era ali perto da Central, eu resolvi ficar, porque era tão legal, estava tão bom. E lá eram aquelas coisas chatas, encontrar o Villa-Lobos, aquela turma”. “Ah, tá legal!” Ele saía em todo o lugar.
Max Eluard  Mas não era uma coisa ideológica, era mais uma coisa de estar no mundo, não ir porque ele saiu solto…
Pelão – O Carlos tinha uma coisa de bom: ele olhava pras pessoas e sentia as pessoas. Ele sempre tinha uma palavra pra alguém. Esse disco ganhou prêmio do centenário do disco no Brasil. Foi APCA, não, foi Associação dos Produtores Musicais do Brasil. Pô, deram logo pra mim. É muito lindo esse disco! Pra mim é um grande disco, eu gosto! Ah, Carlos Cachaça! Nessa gravação teve uma (história) genial: o Raul de Barros afinando o trombone, “pó pó pó / pó pó pô”, e ele estava meio invocado. “Quem é que nós vamos gravar, Pelão?”. “Pó pó pó!” E caiu a vara do trombone. Ele ficou puto, pegou a vara, colocou e fazia “ploft ploft”. “Pelão, quem é esse filho da puta que você inventou?” [risos] E eu rindo, a vara pifou. Foi genial!
Tacioli – E como foi a sessão de gravação, Pelão?
Pelão – Foi ótima. Eu pedi para o João de Aquino fazer os arranjos, ele fazia muito bem. [n.e. Violonista, compositor, cantor e arranjador carioca] Ele fez e foi outra calça justa na gravação. O João de Aquino estava lá distribuindo as partes [n.e. Abreviação para partituras] e entra o Meira, que foi o professor de violão dele. Deu uma tremedeira nele, correu para dentro do estúdio e me pegou lá na técnica: “Seu puto, vai lá reger, vai lá dar quatro pra ele. Eu não vou!”. Ele respeitava muito o Meira, como todo mundo respeitava. E o Meira fumando cigarro. Ele fazia assim… “Vamos, vamos, eu quero ver novela!” E foi uma das últimas gravações do Meira, acho. [n.e. O violonista e compositor Jayme Thomás Florence, o Meira (1909–1982), integrante do Regional do Benedito Lacerda e do Canhoto e professor de Baden Powell e Raphael Rabello]
Tacioli – E como era colocar o Carlos Cachaça no estúdio? Ele já tinha passado por um estúdio para gravar?
Pelão – Ele tinha ido algumas vezes. Ele tinha ido uma vez numa gravação do disco Fala Mangueira, disco importante que o Herminio (Bello de Carvalho) fez, em que participa de uma faixa e meia, sei lá. Pra mim foi um belo disco, adorei aquele disco. Muito bem feito! Se você pensar, teve uma sacanagem nesse disco ou nessa época, porque rimos muito. Era um puta astral e fora que o Seu Carlos disse que não precisava pegá-lo em casa, que ele ia sozinho. A gente gravava em um estúdio ali perto da Central. E não é que ele chegava na hora. E eu sei que ele gostava do disco. Também era o único, né?

Tags
Carlos Cachaça
Escola de samba
Estação Primeira de Mangueira
de 13