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Entrevistas de música brasileira

Pelão

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Pelão

parte 13/13

Era muito grato ao Evandro (do Bandolim)

Tacioli – Pelão, você comentou do Tinhorão, que tinha uma relação boa com ele. Como era a sua relação com a imprensa?
Pelão – Muito boa, muito boa. Acho que tinha notícia, mesmo. E era outra imprensa. Tinham caras preparados. Pô, você pegava o Tinhorão, você pegava o Chico de Assis, você pegava o Tárik de Souza, que é um cara fantástico.
Tacioli – Na ativa.
Pelão – É! E tinham outros que não valiam porra nenhuma. Tinha muita gente boa. O Sílvio Lancellotti que cismou em ser cozinheiro e abandonou a música.
André de Oliveira – O disco do Cartola foi muito falado na época e até hoje. Por que você acha que ele se destacou no meio de outras preciosidades que você fez?
Pelão – Sabe que eu não sei porquê? Eu escuto até hoje e falo “Por que?”. Acho que tem belos músicos e o Cartola é um belo poeta, melodista fantástico.
Tacioli – Pra mim fica muito evidente a informalidade, e reforço o que você falou, em deixar o artista…
Pelão – O Cartola entrou no estúdio e não abriu a boca. Eu falava “assim, assim, assado”. Nem para tirar a dentadura ele chiou.
André de Oliveira – Mas você conseguiu fazer com que ele tirasse a dentadura, né?
Pelão – Para não ficar aquele assovio de vez em quando. Ele não usava mesmo, andava com ela no bolso.
Tacioli – Depois do disco, materialmente mudou a vida do Cartola?
Pelão – Mudou totalmente, comprou até uma bela casa lá em Jacarepaguá. Mudou. Ele fazia show o mês todo, ganhando 500, 600 ou mil reais, você vê que mudou bem as coisas, muito bem. Pra ele, para o Nelson, pro Adoniran. O Adoniran tinha mania de falar que eu fui o pai dele no LP. “Tá bom!” Coisa mais fácil de fazer. “Pode gravar amanhã!” “Vai lá, essa música, essa, essa e essa. Todo mundo vai cantar junto!” Nós temos compositores que têm um puta repertório, mas ninguém sabe, ninguém perguntou “quem é esse cara?!”. Então é fácil você fazer!
Tacioli – Pra você, o fato de estar nas ruas, na noite, nos bares, esse trânsito, além da sensibilidade, sempre ajudou…
Pelão – Sempre, a selecionar coisas, a ver o que faltava. “Vamos mudar, vamos fazer isso…”
Tacioli – Mas o sucesso – esses são discos clássicos da discografia brasileira, principalmente esse dos anos 70 –, pra você foi um peso fazer outros discos com essa mesma força? Como foi isso pra você, pessoalmente, na esfera mais íntima? Isso porque são discos muito fortes, emblemáticos…
Pelão – Todo mundo tem mania de perguntar pra mim “Quem é o melhor deles?”. Eu falo: “Todos!”. “Quem é o melhor compositor brasileiro?” “Tem uma lista grande!” “Não pode, estou pedindo pra você falar um nome.” “Um nome eu não falo! Você sabe que tem um monte!” Outro dia quase descobri um Cartola novo no Matogrosso. Eu não fui atrás da coisa, fiquei com medo, sei lá, me bateu o medo.
Tacioli – Mas medo do quê, Pelão?
Pelão – Não sei, de não ir atrás. Dá umas coisas…
André de Oliveira – Recente isso?
Pelão – Faz uns quatro anos. Eu até deixei um disco para eu reescutar, nem sei onde está e nem sei que disco é mais, mas sei que acho, chego ali e bato a mão… Um dia o Nassif estava aqui em casa, ele falou de um pianista cubano, um que tocou em Nova York muito tempo, tem o nome dessa igreja aí…
André de Oliveira – Bola di Nieve.
Pelão – O Bola de Neve. Falei “Eu tenho, vamos ouvir!”. Um monte de fita tudo misturado, peguei e… “Ô, você tem! Dá pra mim! Pelo menos copia pra mim.” Eu sou amigo do Nassif, fiz até um disco com ele, de choro…
Tacioli – O Roda de choro?
Pelão – E fui lançar no Rio de Janeiro. Quando os músicos entraram, aplaudiram, aí o João Macacão sentou, o Nassif deu quatro, começou a tocar e parou. E o Nassif: “Por que você parou?”. “Olha quem está ali na minha frente!” Era o Dino! Então estavam o Dino, o Canhoto, o Meira não foi, Radamés, Jorginho do Pandeiro, estavam os grandes nomes do choro. Eu chamei e eles foram, e todos aprovaram. Eles estavam loucos pra me esculhambar em algo que eu tinha feito, porque eu esculhambava eles. Os caras adoraram! E é bom. Outro dia estava na Sumaré e tocou na Rádio Cultura. “Porra, do caralho! Bom, bem gravado! Essa música? Que música é essa?” E eu vim, estava tudo livre e, de repente, eu fiquei parado na porta da garagem pra escutar. Se entrar na garagem não pega o rádio. E não era aquela que eu tinha feito, do disco do Nassif. Esses discos já me aprontaram duas vezes. Aqui e na Espanha. Eu estava em Barcelona, desci para conhecer o metrô de Barcelona, era à tarde, não tinha movimento. Aí eu sentei, nem me preocupei se ia pegar o próximo, sentei e começo a escutar chorinho no serviço de alto-falante. Eu não sabia quem era. Era o Evandro!

O bandolinista Josevandro Pires de Carvalho, o Evandro do Bandolim (1932-1994).

O bandolinista Josevandro Pires de Carvalho, o Evandro do Bandolim (1932-1994). Foto: CEDOC/FPA

Tacioli – O Evandro foi um sujeito que também não teve o reconhecimento que merecia, né, Pelão?
Pelão – Não teve, não teve. Eu era muito grato a ele por um monte de coisa, ele sempre trabalhou comigo, tocou no meu casamento, porque eu não podia trazer o Época de Ouro pra São Paulo, eles foram tocar de graça pra mim o “Vou vivendo” quando estava saindo da igreja. Pra você ver como eu levo sério a minha vida, “Vou vivendo”. Não adianta, eu preciso dar um jeito de prolongar esses pensamentos, esse jeito que eu gosto de agir, de pensar, de fazer, mas para ser isso eu tenho de ter título, tenho de ser professor, doutor, senão você não pode falar. Mas tem um monte deles que são meus amigos. Tem disco do Adoniran aí?
Tacioli – Do Adoniran eu não trouxe.
Pelão – Mas você tem aquele que tem texto do Antonio Candido?
Tacioli – Eu tenho, sim. Trouxe aqui, mas acho que nem precisa…
Pelão – Esse eu tenho, até dois. Mas você vai deixar o Carlos Cachaça pra mim?
Tacioli – Não faz isso comigo, se você quiser eu copio pra você. [risos]
Pelão – Não, eu quero o disco.
Tacioli – E o Léo Karan, hein? Era um cara…
Pelão – Era muito legal. Esse disco do Adauto Santos…
Tacioli – Ele também é um outro nome que…
Pelão – Aqui são os arranjos do Théo de Barros. Produção e arranjos do Théo. Era pra ser produção minha, daí eu falei “Vamos produzir juntos e você faz.” O Théo é meu irmão, um cara de valor. Esse disco é fantástico, esse disco é inteiro!
Tacioli – E esse daqui: Dalmo Castello?
Pelão – Dalmo Castello é parceiro do Cartola, até do Nelson. Fez “Verde que te quero ver”. Eu ia gravar, mas eles falaram que não porque iam inscrever num festival em Minas, nunca soube desse festival. Ele era parceiro quente mesmo!

[toca o interfone]

Tacioli – Quem mais aqui? E o Paraná…
Pelão – Esse disco eu conheço bem.
Tacioli – Os outros já (mostrei). Você falou do Marcus Pereira, do tributo…

[toca o interfone]

Pelão – Quem é?
Maria Cristina – Tulica!
Pelão – Tulica?! Eu paro tudo! Ela trouxe doce lá da terra dela, de Minas.
Tacioli – Pelão, a gente não quer mais abusar do seu tempo, queremos agradecer…
Pelão – Não, não, fica à vontade, é legal a gente se ver de vez em quando pra nada, pra bater papo, tomar um chope, pra nada! Pô, você só me procura quando você quer, quando tem interesse… [risos]
Tacioli – Mas a gente vem comer o bolo e tomar cerveja.
Pelão – É, porra! Serve pra você também, menino! Esse é filho de um grande jornalista.
André de Oliveira – Quando é o seu aniversário, Pelão?
Pelão – Primeiro de outubro. Até hoje eu tenho conseguido fazer o famoso feijão. O Nassar não perde um. Ele mora aqui também.
André de Oliveira – É, ele mora aqui perto.
Pelão – Você está meio atrasado, se manda… [risos]
Tacioli – Pelão, foi ótimo. Fazia muito tempo… Olá, tudo bem?

[entra no apartamento a Tulica]

Pelão – Dá licença, interrompo tudo para atender a Tulica. Vocês estão pensando o quê, que são alguma merda da vida? Eu não quero isso!
Tulica – Eu não ia te trazer isso! Mamãe mandou um beijo!
Pelão – E não veio.
Tulica – Está com gripe, aí já viu…
Pelão – Põe isso pra lá porque senão eles vão comer… [risos] Não, eles vão querer experimentar.
Tacioli – Pelão, tem a parte chata agora.
Pelão – É?
Tacioli – Assinar a autorização de tudo o que a gente conversou…
Pelão – Tá, e quanto ao pagamento, precisa da conta bancária…
Tacioli – É só mandar o boleto que a gente acerta.
Pelão – [ri] Eu mando o boleto? [risos]
Tacioli – Pelão, obrigado mais uma vez! Agora é só a gente desmontar o nosso maquinário…
Pelão – Até que já desmontaram muita coisa…
Tacioli – Já, as câmeras. Pelão, posso tirar o microfone?
Pelão – Pode. Você é o patrão, nunca faz isso.
Tacioli – Nunca faço. Dá licença!
Pelão – E você já conhecia o garoto?
Tacioli – Conheci hoje; o Max já o conhecia.
Pelão – Ele é bom, vai longe, é meio maluco como vocês. [risos] Trabalha muito de graça.
André de Oliveira – Pois é, um problema isso.
Tacioli – É um problema, mas é paixão, né, Pelão, a gente vai tocando…

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